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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Entre o fruto da vida e o do conhecimento


Fui acometido bem recentemente por algum tipo de doença que definitivamente só poderia: a)virar um episódio de House, ou b)um episódio (sim, eu ando assistindo bastante séries) daquele Doenças Desconhecidas (eu acho que é esse o nome). Sem querer ser melodramático, mesmo porque eu sou extremamente orgulhoso, foi um período bem difícil, que se assemelhou aos dois momentos em que tive que realizar cirurgias toráxicas.

De fato, foram exatos 29 dias de absurda dor crônica, idas e vindas aos hospitais, as clínicas, exames de alta e baixa complexidade, lágrimas em excesso e no fim, quando as coisas começaram a melhorar, não foi porque a doença foi detectada ou comecei algum tratamento certeiro, mas porque as coisas sozinhas resolveram “se ajeitar”. Junte isso a um hipermetabolismo ferrenho e em pouco menos de um mês e meio, perdi sagrados 6kg.

E para um cara vaidoso e assumidamente vendido a ditadura da beleza, minha auto estima caiu pra zero em uma velocidade gigantesca. Mais do que minha saúde, a doença (seja ela qual for) levou meu bem estar mental. E levando em consideração que eu sou praticante de fitness (embora não pareça), esse golpe foi ainda mais doloroso, pois foi ver um trabalho de desenvolvimento físico de mais de dois anos jogado pelo ralo. E por causa disso, a cabeça ficou vazia, e a oficina do diabo começou a funcionar. Mergulhei em puro abatimento e só através de um longo processo que estou realmente saindo disso.

Fazendo parte desse momento que passo, o vídeo abaixo é de longe o mais emocionante que eu assisti na vida desde a fundação da era Youtube. Eu recomendaria assisti-lo.



O Universo Conhecido é o mapa mais preciso de dimensões do nosso universo (é impossível realizar observações telescópicas pelas laterais da nossa galáxia, dai a forma de ampulheta). A animação feita pelo Museu Natural de História Americana revela que nosso planeta é apenas uma poeira cósmica perto da grandeza de um universo finito, mas em eterna expansão. É magnifico sair da Terra e poder chegar até os quasares (os mais distantes objetos dentro do universo), e de fato, essa viagem possivelmente nunca será possível.

O vídeo, mais do que fascinante, é reflexivo. Se o universo é tão infinitamente gigantesco, qual o papel de nossas existências dentro dele?

O anime japonês Cavaleiros do Zodíaco, um dos maiores sucessos pops dos anos 90, tem um personagem que reflete acerca disso. O cavaleiro da casa de ouro, Shaka de Virgem, antes de sua morte questiona, “As flores nascem, depois murcham. As estrelas brilham, mas algum dia se extinguem. Esta terra, o sol e ate mesmo o grande universo, algum dia serão destruídos. Comparado a isto, a vida do homem não passa de um simples piscar de olhos de Deus. Nesse pouco tempo, as pessoas nascem, riem, choram, lutam, são feridas, sentem alegria, tristeza, odeiam alguém, amam alguém... Tudo em um só momento. E depois são abraçadas por um sono eterno chamado: morte”.

Sou um grande apaixonado pela astrofísica. Queria ter talento para a coisa, mas definitivamente não foi o que aconteceu, então virei jornalista, outra paixão. Por isso junto essa admiração pelo universo e os questionamentos que surgem ao contemplá-lo, e por natureza da humanidade, meu maior desejo e chegar aos seus limites, os limites do cosmo e os limites da vida e da morte.

Sim, porque a morte assusta até o mais devoto crente acerca do paraíso da eternidade.

E é disso que trata justamente um dos filmes mais incríveis de toda minha vida de cinéfilo, Fonte da Vida, que eu particularmente considero a obra máxima de Darren Aronofsky, antes dele se tornar o popzinho do momento por causa do drama Cisne Negro. Diferente dos romances e filmes padrões, esse deve ser evitado principalmente por aqueles que gostam de ter todas as respostas de um filme e, principalmente, não conseguem se sentir confortáveis acerca de questionar sua própria existência, uma capacidade única apenas do cinema de excelente qualidade.

Na trama, Hugh Jackman (na melhor atuação de sua carreira) é Tommy Creo, um cientista que está em busca da cura do câncer. A beira de um colapso, a descoberta é urgente e de questão pessoal, já que Izzi (Rachel Weisz, talentosíssima e tão bela, que enche a tela de luz), sua esposa, esta morrendo com um tumor cerebral. A chance de sucesso em seus primatas experimentais chega justamente quando sua equipe experimenta a amostra de uma árvore singular das selvas do Peru. A planta pode ser a cura que ele tanto busca, porém, se revela mais do que isso. Numa outra parte, Izzi escreve um livro sobre um conquistador (também interpretado por Jackman) que viaja para o Novo Mundo em busca da Árvore da Vida a pedido da rainha Isabel (também interpretada por Weisz). A terceira parte da história (e particularmente a mais brilhante representação artística do universo já feita) é passada no futuro, quando o cientista (ainda Jackman) viaja pelo espaço em uma bolha com um único objetivo: conquistar a vida eterna.

Complicado? Muito! Juntar o quebra cabeça que é Fonte da Vida não é tarefa das mais simples. Mas se entregar ao filme é uma experiência sem tamanho. A emoção transborda, a beleza invade e questionamentos propositalmente vagos ficam em nossa cabeça. Apenas o presente esta acontecendo, o passado e o futuro da trama são metafóricos e existem pra preencher lacunas e nos enlouquecer, pois no fim, as três realmente podem ter uma linearidade, e a poesia do filme existe justamente em nos dar essa opção e ao mesmo tempo nos tirá-la, enquanto sorri e diz: “Peguei você”.

É o amor que move o filme inteiro. E o medo. É o amor que move Tommy por Izzi, além do medo de perdê-la, o medo de não ter mais sentido em sua vida, e o medo de não poder superar a morte. “A morte é apenas uma doença, e como qualquer doença, tem uma cura”, grita Tommy em seu mais profundo desespero. É a Árvore da Vida a cura, a mesma árvore que Deus colocou um anjo protegendo depois que expulsou Adão e Eva do Paraíso por terem comido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

No fim, Tommy acredita que é a Árvore da Vida a ponte para a resolução de seu grande desafio. Mas é então que ele se vê mais uma vez questionado, assim como Adão e Eva, de experimentar o fruto proibido, o fruto do conhecimento.

Sim, porque Deus disse para comermos apenas do fruto da Árvore da Vida para assim sermos imortais e nos proibiu do fruto da Árvore do Conhecimento. Mas é quando somos confrontados sobre a nossa própria existência e o significado da vida e da morte dentro de um Universo que nunca conheceremos por inteiro, que notamos que realmente, tanto faz se fossemos Adão ou Eva, essa desobediência, teria que acontecer sim um dia.

Pois assim como toda essa história, talvez a vida não passe de uma grande metáfora do próprio universo.

- Together, we will leave forever

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Todos nós queremos ser jovens, pop’s e pós-modernos-contemporâneos para sempre


Eu tenho uma raiva exagerada, quase um desprezo, por quem adora lembrar dos ícones anos 90. Música tema de Carrossel, movimento de hora de morfar dos Power Rangers, tazos que vinham em chicletes, todas as falas de Paola Bratcho em A Usurpadora... Enfim, qualquer coisa que faça eu perceber que estou ficando velho, e que eu era um tosco. Pior, quando se trata das redes sociais (caralho de "redes sociais”, isso aqui não é o Fantástico), então, quando se trata de TWITTER, esse movimento vira uma praga, basta uma pessoa citar alguma coisa e pronto, lembranças de coisas velhas se espalham pior que carrapatos em cachorro não tosado.

E se para a minha geração, que foi criança nos anos 90, já existe um movimento de saudosismo tão grande, o que será que existe para aquela geração que foi criança nos anos 80 e que eu chamo carinhosamente de Geração Kichute? Num mundo que não só tenta colocar na cabeça de todos que são os jovens que mandam nas tendências como realmente são os jovens que MANDAM, como se defender de um conjunto de filosofias pós-modernas-contemporâneas que sempre querem te ensinar o seu lugar se você já não é... “tão jovem assim”?

Sei lá!

A pergunta pode até não ter uma resposta tão simples. Mesmo porque, é o tipo de resposta que aparece em atitudes, não me cabe listá-las, porém, eu faço questão de citar uma. Sim meus amigos, pois Scott Pilgrim Contra o Mundo, um dos filmes do ano, é um verdadeiro tapa na cara da sociedade-teenager-colorida.

Scott Pilgrim mostra que a vida acontece em fases, não as fases infância-adolescência-adulto, mas as fases de vídeo game mesmo, mas muito mais que um simples game, um game 8bits, um dos maiores símbolos da geração anos 80. Na trama, Scott Pilgrim, guitarrista de uma banda baita ruim e que sofre com o fim do último namoro há mais de um ano, conhece a ultra descolada Ramona, que passa a ser foco de uma paixão repentina, mas que ao conhecer a Liga dos Ex-Namorados do Mal de Romona, começa a contestar sua paixão. Como nos videogames, cada ex-namorado é uma fase a ser superada, um inimigo a ser derrotado. E Como na realidade, cada memória do outro é uma bagagem a ser compreendida por Scott, não no sentindo de compreender somente Ramona, mas a si mesmo, a superar seus traumas e fraquezas.

Não julgue Scott Pilgrim pela capa e pela produção. A história parece infantilizada, com os elementos de Super Mario, Metroid, Street Fight e The Legend of Zelda, incluindo onomatopeias, recordatórios em quadro e influências de mangá. Mas temos aqui um épico 2.0, um trabalho cinematográfico de adaptação de linguagens fenomenais, e uma celebração a ícones esquecidos que inspiraram simplesmente todos os que temos hoje, junto a uma Geração Indefinida de jovens que comanda o mundo, tem um poder impressionante nas mãos e na verdade não dá muita importância a isso.

Prova do que eu digo é mini-documentário-não-tão-documentário-assim-padrão-Youtube chamado We All Want to Be Young. O vídeo é o resultado de diversos estudos realizados pela BOX1824 nos últimos 5 anos, uma empresa de pesquisa especializada em tendências de comportamento e consumo. E sinceramente... esse vídeo é mais que um tapa, é um soco no estômago da sociedade.



A produção assinada Lena Maciel, Lucas Liedke e Rony Rodrigues tem muito a dizer em seus menos de 10 minutos. Aliás, o próprio formato é louvável. Vale imaginar que se fosse produzido no Brasil, esses 5 anos de estudos virariam no mínimo um livro de 500 páginas ou um vídeo de 1h30 que fariam todos dormirem. Aqui temos imagens reconhecíveis, trilha sonora agradabilíssima e um texto que a início parece bobo, mas que como tudo que faz sucesso na internet hoje em dia, traz uma série de reflexões em velocidade de metralhadora.

Os jovens da atualidade são o topo da pirâmide de influencias, uma geração global, netos da Geração Baby Boomer e da filhos da Geração X, aqueles que conquistaram o mundo e que só querem dançar Lisztomania em cima do telhado (ok, esse foi um toque bem pessoal). Uma geração única, que tem uma lista gigantesca de possibilidades, de oportunidades, um volume de informações descontrolado, ansiedade crônica e dificuldade em escolhar os filtros.

Mas como diria o narrador de We All Want to Be Young, "Se você acha que já sabe bastante e está em paz com seu espaço no mundo, então, parabéns. Você está oficialmente morto". No fim, ser jovem é ser sexy, engraçado, divertido, e por isso, todos temos medo de perder isso. Um medo que nos faz retomar a pergunta do começo do texto: como se defender de um conjunto de filosofias pós-modernas-contemporânaes que sempre querem te ensinar o seu lugar se você já não é... “tão jovem assim”?

Bem, acredite ou não, a resposta pode ser encontrada exatamente naquilo que Scott Pilgrim Contra o Mundo Faz tão primorosamente. Entenda a evolução do mundo, saiba unir todos os elementos e ícones ao seu redor, não se feche, não perca sua ambição, seus pequenos sonhos que podem sim se tornar a realidade... isso senhores, no fim não é auto ajuda, é a verdadeira fórmula para ser jovem para sempre.

E agora, quem quer dançar Lizstomania comigo encima de um telhado?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

“A felicidade só é verdadeira quando compartilhada”


"O texto a seguir é uma reflexão de ficção. Qualquer semelhança com a reflexão de pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Especialmente para vocês, ex’s... babacas"

A vida é um boy meets girl. A não ser é claro que você tenha criado um novo caminho na sua vida e o seu jogo seja boy meets boy, ou girl meets girl, ou boy meets chicken, enfim, vocês entenderam o sentido da coisa. Contemporaneidade e sensibilidade parecem palavras ultra diferentes quando procuramos seu significado no mundo atual. Mas quando paramos pra analisar as nossas vidas, percebemos que somos isso, uma sensibilidade contemporânea num mundo de garotos que conhecem garotas.

Boy meets girl é o típico filme comédia romântica. Nele, um garoto conhece uma garota, eles tem um caso, onde ambos terão grandes aprendizados e dramas, situações cômicas, e no fim eles, A) ficarão juntos para sempre, ou B) cada um vai seguir o seu caminho. Então por que a vida é um boy meets girl? Porque a vida é assim, você vai encontrar dezenas de pessoas no seu caminho, todas terão algo para lhe acrescentar, mas de fato, algumas das que mais nos marcam, são aquelas que tiram algo de nós e levam com elas.

E no universo particular de cada um, existe um alguém especial, que no fundo não é tão especial assim, que no fundo é a pessoa que a gente nunca quis ter conhecido, que no fundo marca o que alguns amigos meus chamam de Ritual de Passagem. De fato, o ritual de passagem da sensibilidade de cada um (aqui há muitos outros sentimentos, claro, mas vamos tratar no geral da sensibilidade), acontece quando a partir de um evento em comum ao de outro alguém, nós passamos a não ver mais o mundo como era antes desse outrem. Num ritual de passagem, o mundo segue adiante, você não.

E sobre isso o que trata aquele que eu já escolhi como o melhor filme de 2009, a comédia romântica, o típico boy meets girl, a obra que me pegou de surpresa mais do que qualquer outra, 500 Days of Summer (500 Dias com Ela, tradução brasileira de um título intraduzível). No filme, Tom é um criador de cartões comemorativos, que busca algo acima de tudo, o amor de sua vida. Um dia, no escritório ele conhece a bela Summer. E o filme já começa a se tornar genial por mostrar primeiramente que o raro tipo de homem que tem sentimentos nobres por uma mulher, é acima de tudo, não um tímido, mas um covarde. Os dois começam uma incrível relação, mas há um porém: ELA não acredita no amor.

E é assim, que por 500 dias, somos apresentados a um relacionamento que nasce fadado a dor e ao desespero por amarmos e não sermos amados de volta. De forma não linear (que chega até a ser irritante em alguns momentos), mergulhamos em acontecimentos bons, ruins e simplesmente comuns. Hora somos Tom, hora somos Summer. Hora estamos sendo um deles dizendo a monstruosa frase “ainda podemos ser amigos”, escutando The Smiths no elevador, pulando de alegria após uma noite de sexo e fazendo um completo musical no caminho pro trabalho, tentando discutir a relação, não discutindo e rindo ao som de Carla Bruni, tentando discutir a relação, não discutindo e brigando no apartamento, quando conversamos sozinhos, tentando nos enganar na frente do espelho, como ao experimentar a explosão do primeiro beijo daquele por quem já estamos apaixonados e claro, por saber qual vai ser o último.

Talvez um dos melhores pontos de 500 Days of Summer seja quando somos apresentados a divisão da tela em Realidade e Expectativa. Nenhum momento é tão perfeito ao mostrar como somos fracos de mente quando estamos apaixonados e tudo que acontece ao nosso redor nós desejamos que estivesse sendo completamente diferente. Ainda assim, se 500 Days parece um filme banal, é em seu final, num diálogo absurdamente sincero e doloroso entre Tom e Summer que entendemos uma visão absolutamente honesta, ainda que um tanto tragicômica, do amor, além de alguma forma renovar esse sentimento por acreditarmos: “uau, agora tudo faz sentido”.

Sim, porque acima de tudo, após um Ritual de Passagem, nós devemos saber qual é o momento de voltar a caminhar com o mundo. Mesmo tendo aqueles que acham o amor uma utopia. Mas o amor não é uma utopia, viver na natureza selvagem que é.

Se 500 Days of Summer é capaz de nos mostrar perfeitamente o difícil rumo que a vida às vezes nos dá, Na Natureza Selvagem é o filme que mostra a utopia do rumo que queremos dar a nossa vida. Mais que um incrível filme, Na Natureza Selvagem toca a sua alma com a ponta de uma faca e a faz sangrar. Se você não sentir isso, então é porque você matou há muito tempo o que há de mais simples dentro de você.

É um filme revelador, com uma força pós-utópica que nos faz malditamente compartilhar uma empatia com o personagem principal. Afinal, você nunca pensou em abandonar tudo e viver uma vida sobre a liberdade total, a partir do zero? Em Na Natureza Selvagem os elementos da liberdade, sociedade, natureza, verdade, sentimento, moral, solidão, e este mix de tudo estão o tempo todo sendo jogados na nossa cara de uma forma sublime e dolorosa. É uma reflexão no abismo de uma utopia pós-hippie, que nem a galera de Woodstock acredita mais.

Temos a história de Chris, que depois de sua formatura aos 22 anos, doa sua poupança, abandona sua família, seu carro, destrói sua identidade, seus cartões de crédito, queima o que lhe sobra de dinheiro e parte em busca daquilo que considera sua liberdade aquém de qualquer elemento da sociedade. Sem dinheiro, viaja por dois anos pelos lugares mais belos e inóspitos dos EUA e México, trabalha daqui e dali, conhece pessoas que se afeiçoam a ele, e parte para um plano audacioso: ir para o Alaska onde pretende viver em meio à natureza por sua conta e risco.

Não estou falando de um atletazinho babaca que aparece no Fantástico e no Domingo Espetacular, desses que se preparam fisicamente por anos, ficam cercados de água e energéticos, que só escala uma montanha guiado por GPS e está sempre com um óculos escuro da Nike. Estou falando de... ah, não é fácil dizer de quem estou falando, nunca conheci o Chris de verdade (o filme é baseado numa história real), e Deus sabe que depois desse filme eu gostaria de ter conhecido.

E não nos resumimos a diálogos, nos resumimos a imagens, a expressões. Temos momentos, como a invasão da enchente no carro, os pulos junto aos cavalos selvagens ao pôr do sol (cena esteticamente perfeita), os dias de verão no Ônibus Mágico, a decida pelas corredeiras, o momento em que ele enterra os livros de seus pensadores favoritos e o encontro com o urso, que desfocado e sem som é de longe o momento que mais representa que Chris agora faz parte da natureza, mesmo a vista de um final não trágico como muitos podem imaginar, mas libertador.

Mas definitivamente o momento mais maldito na cabeça de quem assiste esse filme é quando Chris conhece o velho Ron, um homem muito solitário e recluso que vê em Chris não a pessoa que ele gostaria de ter sido, mas o filho que ele queria ter amado. Num diálogo assombroso de tão emocionante, Ron fala com lágrimas nos olhos: “Sabe, eu tenho uma idéia. Minha mãe era filha única, meu pai também, e eu fui o único filho deles, por isso, quando eu me for, serei o fim da minha linhagem. A minha família acabará. Que tal... deixar te adotar?”, a ponto que Chris responde tentando segurar a emoção: “Ron, podemos falar sobre isso quando eu regressar do Alasca?”. Ambos concordam, mas é difícil segurar a dor, porque ambos sabem, e nós sabemos também naquele momento, que eles nunca mais irão se ver.

Na Natureza Selvagem é um filme difícil de ser assistido. Principalmente num mundo que nos ensina que o correto é estudar, trabalhar em empregos que às vezes odiamos, ter um mês de férias para gastar o que nem temos, trabalhar de novo, pagar contas e seguir o sistema. É difícil acompanhar a utopia de Chris, mas é fácil compartilhar sua lição, uma lição única de alguém que realmente quis a liberdade, conquistou, e no fim descobriu que o melhor dessa liberdade, é que ela seja compartilhada.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Em que momento a humanidade desligou a sua fé?

E o Rio de Janeiro foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016. Grande coisa...
Copa 2014, Rio 2016... só esqueceram que o fim do mundo é em 2012

Recentemente terminei de ler um dos livros que mais mexeram meu modo de ver a vida, o universo e tudo mais, O Mundo Sem Nós, de Alan Weisman. É difícil falar de O Mundo Sem Nós, mas sem dúvida a sombra dessa obra irá me assombrar pelo resto da minha vida. O motivo é simples: você já parou para pensar sobre o mundo sem nós? Dificilmente. Mas Alan pensou e o resultado, bem... o resultado é que o ser humano é a pior coisa que surgiu na história desse pequeno planeta azul nos confins do universo.

Em 150 anos fomos capazes de realizar estragos tão grandes no nosso planeta que de alguns eles não será capaz de se recuperar nunca. Existe em Houston, debaixo de uma montanha, um depósito de materiais radioativos extremamente perigoso. Tão perigoso, que definitivamente ele ainda estará lá intacto depois que o último humano se for, por causa disso, doutores em semiótica foram convocados pelo governo dos EUA para criar mensagens que seriam gravadas a ponto de que não importa o período, pelos próximos 10 milhões de anos ao menos, quem se aproximar daquele local vai saber instintivamente que ali não deve ficar.

A humanidade não deu certo e não tente me convencer do contrário. Exterminamos todas os grandes mamíferos da América, acabamos com os recifes de corais, destruímos a camada de ozônio, enriquecemos o solo com chumbo, fizemos testes atômicos com urânio, e esquecemos o quanto somos frágeis. Esquecemos que sem a Terra não podemos sobreviver, mas que sem os seres humanos, a Terra ficaria bem melhor. Num mundo sem humanos, assim, do nada, os metros de Nova York inundariam completamente em dois dias, as usinas nucleares explodiriam em 7 (comprometendo todas as outras formas de vida), o teto da sua casa sumiria em menos de 10 anos, 1 bilhão de pássaros deixariam de morrer por ano por causa de nossas torres de energia elétrica, e em cerca de 40 anos, qualquer prédio com mais de 40 andares já vai ter tombado.

Ainda assim, o gás carbônico demorará 100 mil anos pra voltar a níveis pré-humanos, o cadmium demorará 75 mil anos para sumir, o plástico (nossa mais imortal invenção) existirá pelos próximos 100 milhões de anos, e cada bomba de plutônio não explodida, demorará 250 mil anos para perder seu poder radioativo, lembremos então que existem cerca de 30 mil ogivas nucleares intactas no mundo e sinta o poder da nossa criação.

Minha avó tá lendo um daqueles livros evangélicos caducos que diz que o mal venceu o bem com fome, guerra, Mac Donalds delivery, essas coisas. E se o nosso prazo estiver realmente na reta final? 2012 tá ai pra mostrar isso. Os maias tentaram nos alertar, será que eles estão certos? Os pólos vão se inverter e “Deus proteja a América”? E se Deus não existir? Bem, depois de O Mundo Sem Nós, o novo livro na minha lista é Deus, um Delírio. Cara, eu mesmo estou fudendo com a minha mente, depois desses livros eu não vou poder nem colocar a culpa em ninguém.
Ele está no meio de nós?

Meu professor de antropologia na 8ª série disse: “Se Deus fez vários planetas igual a Terra espalhados pelo universo, ele é um gênio, mas se ele fez só a Terra, ele é um gênio maior ainda”. Meu sonho é entender o que ele quis dizer com isso. Um dia, se nos reencontrarmos, vou perguntar. Mas ai também vem Calvin e diz que: “A maior prova de haver vida inteligente lá fora é de que eles não entram em contato conosco”. Qual Calvin? Calvin e Haroldo, claro! O eterno garoto propaganda desse blog.

O último livro da coleção de Calvin e Haroldo foi lançado no Brasil recentemente e eu não perdi tempo e comprei quase na estréia aproveitando minha última viagem pra Curitiba. A Hora da Vingança é de longe a melhor coletânea da série, conseguindo derrubar até mesmo O Mundo é Mágico. Taí, o mundo pode ter virado essa droga que transformamos, mas existem algumas coisas tão especificamente belas e poéticas que nos dão um pouco de fé e esperança. Ler as tirinhas desse muleque hiperativo e seu tigre de estimação são um exemplo, pelo menos pra mim.

Vocês podem tentar argumentar comigo de que o mundo esta evoluindo e blá blá blá, que países como a Dinamarca, um dos mais avançados do mundo, abolem aos poucos o carro e usam a bicicleta. Dinamarca? Ah, a mesma Dinamarca onde nas ilhas Faroe jovens, para provar que são homens, matam golfinhos num ritual de passagem? Sim, golfinhos, uma raça inteligente que só se aproxima dos homens para brincar ou proteger os filhotes.
Macho que é macho mata golfinho com requintes de crueldade. Chupa essa, PETA!

Se a fé move montanhas, onde ela está dentro dos seres humanos? Onde está a sua fé? A fé para mim é um sentimento independente de religião, a fé compõe o caráter e a nobreza de cada um, ela não é um telefone, MSN ou Skype pra você se conectar com Jesus, Alá ou Buda, ele é um sentimento que faz você se conectar com o mundo, então, quando a humanidade perdeu o poder de se comunicar com seu lar?

Bem, independente disso, O Mundo Sem Nós está me estimulando a tomar uma importante decisão, a de participar do VHEMT (Movimento Voluntário para a Extinção da Humanidade). O VHEMT defende que devemos viver nossas vidas plenos, felizes, consumindo, gastando, se divertindo e fazendo o máximo possível para sermos felizes, só devemos parar de nos reproduzir. Parece lógico! Veja por esse lado, se todos aderissem, em 21 anos, a criminalidade juvenil seria um problema erradicado do mundo e a adoção cresceria absurdamente. Não vou terminar com: “venha para essa você também”, afinal, o “cresceis e multiplicai-vos” ainda é seguido a risca por uma galera.

Meu pedido é simples: você poderia ligar sua fé para se comunicar com o mundo de novo? Pois como disse Pietro Aretino, "Amemo-nos sem termo nem medida, pois que só para o amor temos nascido".

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A vida como ela é... sim, e daí?


Estruturas. É o que todos nós desejamos, independente desse desejo ser consciente ou não. Todos nós queremos estruturas. Todos nós queremos nosso pilar de sustentação. E de fato, só dão valor a isso as pessoas que não as tem.

Meu novo vício tem sido a série Brothers & Sisters. Uma ótima produção norte americana que hoje está em sua terceira temporada, mas que eu ainda estou finalizando a primeira. E eu já vou logo avisando que se você está esperando eu falar de uma série louca, toda cheia de confusões, vidas perturbadas ou mistérios, lamento, mas só tem uma palavra para eu definir Brothers & Sister: careta! A série não é só careta, ela é caretíssima, ao extremo. Talvez seja por isso que eu posso afirmar que adoro esse programa, porque o caretismo às vezes é o que nos traz mais conforto na vida.

Brothers & Sisters conta a história de uma família rica e cheia de valores próprios que tentam lidar com a perda do patriarca, a quebra financeira da empresa e a descoberta de mentiras do passado que nunca vieram a tona. São cinco irmãos, completamente diferentes um do outro, mas que se amam e tem um elo fortíssimo (cada um a sua maneira) com a mãe, uma mulher forte, porém, meio sequelada (de doida mesmo, não psiquiatricamente). A questão é que todos ali são seres humanos, cada um com suas vidas, com seus problemas pessoais, com suas famílias para criar, com seus corações para lidar, com suas felicidades, vitórias, princípios e medos.

A questão é que não importa o quanto eles tenham tudo isso, pois uma coisa eles sempre terão, a si mesmos. Esse é o grande segredo de Brothers & Sisters, o de sem nenhum artifício pitoresco (muito comum hoje nas séries americanas) mostrar de verdade como funciona o amor familiar.
Não é de hoje, que os valores familiares se tornaram indefiníveis. De fato, uma das grandes questões da nossa humanidade, é que cada geração que vem se distancia mais ainda da anterior. Pegue você mesmo como exemplo. Você vive num mundo que não é nem um pouco mais igual ao da sua mãe. Porém, a sua mãe viveu num mundo onde possivelmente ainda havia muitos dos valores do mundo da mãe dela.

E aí chegamos ao momento em que o prazer das pessoas mais mal amadas é dizer que “a família é uma instituição que está falindo”. O cu deles que está falindo. Lembro que quando eu era do colegial, a notícia do suicídio de um garoto chocou toda a escola. Porém, o relato de um dos meus professores foi o que mais me interessou. “No começo do velório havia muita gente, mas elas foram saindo, saindo, até que antes da meia noite só restava a família”, ele suspirou e voltou a falar, “não importa o que vocês jovens achem, o quanto considerem que seus amigos são os melhores do mundo e seus pais incompreensíveis, no fim, só restará a família”.

Eu conheço um numero infinito de pessoas que se distanciam de suas famílias, cujo diálogo não esta presente, cujos valores morais diferentes nunca entram em acordo. Por quê? Talvez porque hoje em dia, as pessoas tenham deixado de praticar uma coisa que é capaz de mudar vidas, a tolerância. Familiares brigam, se xingam, riem, choram, vivem... mas se não há tolerância, nada disso acontece. A família só é família, quando todos sabem se tolerar. E aí vocês podem dizer: “mas isso não existe na minha família”, ao que eu lhe pergunto: “você já tentou criar?”.

E como dizia Chaplin, numa frase que particularmente me incomoda: “amigos são a família que Deus nos permite escolher”. Me incomoda sim, mas só como uma coceirinha de leve. Talvez porque eu seja o melhor amigo da minha mãe e que por vezes nos esquecemos dos nossos laços sanguíneos, que quando crianças a minha avó e meu avô tenham sidos meus maiores pilares de sustentação e hoje me esforço pra ser um pilar de sustentação pra eles e que quando lembro da tia que me criou e me ensinou o gosto pela leitura, mas hoje mora longe, paro um momento e meus olhos lacrimejam. A família também são os amigos que Deus nos dá.

E é só quando eu acho que somos plenos desse valor que somos capazes de transmitir de verdade o que sentimos para outras pessoas. Para aqueles que também representam nossas estruturas, aqueles que batizamos com a palavra: amigo. A amizade é de longe uma das coisas mais fantásticas, intrigantes e misteriosas do universo. Pois é uma palavra super bobinha que explica como podemos nos relacionar com as pessoas mais fantásticas, intrigantes e misteriosas do universo.

Amigos vêm, amigos vão, existem aqueles que nós queremos que nunca nos deixem, mas nos deixam, existem aqueles que nos deixam, mas voltam, existem aqueles que nós deixamos, aqueles que ficam para sempre, aqueles que nos conhecem melhor que nós mesmos, aqueles que não nos conhecem, mas nós adoramos mesmo assim. Minha avó costumava dizer que existe uma grande diferença entre amigo e colega. Amigo é uma palavra muito forte, e que nós temos que saber exatamente o valor dela, para usá-la somente com as pessoas certas. Por isso eu meio que encho o peito e falo num tom mais grave ou simplesmente diferente quando me refiro a alguém como meu amigo.

Eu não acho que exatamente a gente escolhe nossos amigos. É um tipo de química, algo que liga no seu cérebro e no da outra pessoa e que vai deixar vocês unidos agora e vocês nem perceberão isso. Uma ligação que não se sabe onde está e que pode ser alimentada e destruída por ‘n’ fatores.

Se existe a série Brothers & Sisters, eu acho que uma melhor ainda seria Family & Friends. Porque de certo modo, por todos, nós compartilhamos um sentimento especial. Todos nós amamos e desejamos o melhor sempre que possível, pois essa é na verdade a grande coincidência entre amigos e familiares, o bem que nós desejamos um aos outros. Se você não compartilha disso, possivelmente é porque não tem fé, não só na família ou nos amigos, mas principalmente em si mesmo.

Se você conseguiu chegar até o fim desse texto já deve ter percebido que ele é totalmente diferente dos outros que eu escrevi, mas se eu o desapontei não vou me desculpar por isso. Essa na verdade é uma carta de amor que eu escrevo aos meus amigos e a minha família, aqueles que ajudam eu a ser quem eu sou, e que eu me esforço todos os dias para ajudá-los a continuar sendo aqueles que eu amo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Sonhos Sanguinolentos, Filmes Mais Sanguinolentos Ainda E Medo (muito medo) De Sinais

Desde o dia 2 comecei a trabalhar num hospital (e antes que alguém pergunte, eu não sou médico, não sou enfermeiro, não vendo vagas na fila do agendamento e não, muito menos, ganho bem). Eu sou um Técnico em Gestão Pública hospitalar (lê-se: badeko). Realizei um sonho. Mamãe quando me viu nascer disse, “meu filho vai ser o melhor Técnico em Gestão Hospitalar (badeko) do mundo”, e quando ela me viu realizando esse sonho só faltou chorar, me abraçou e soluçando de emoção disse “Estou tãããão orgulhosa de você”. Ok, se você não sentiu a ironia de tudo isso, o que diabos você ta fazendo nesse blog mesmo? Se manda seu sem-senso-crítico.

Essa madrugada eu tive um sonho muito bizarro. Eu tava correndo pelas ruas da Bolívia (de novo? Mas que porra de perseguição é essa que a Bolívia tem comigo?) com algumas pessoas e atrás da gente vinha uma horda de zumbis canibais que corriam mais que o Rubinho com o carro a toda e vinham sedentos de sangue. Capitei vossa mensagem, subconsciente. Eu tava correndo pra salvar minha vida e se eu não botasse sebo nas canelas eu ia ser comido por canibais (não do modo que vocês estão pensando seus doentes) e ia morrer. E não é que depois de correr, pular muros e gritar feito uma menininha fui alcançado, mordido, rasgado... ai, quero nem lembrar (na verdade, eu não lembro muito, sou péssimo com sonhos).

Logo após a primeira morte, o sonho deu um branco e quando a luz diminuiu (efeitos especiais de primeira direto da minha consciência), eu estava no mesmo lugar do começo do sonho, correndo com as mesmas pessoas e (adivinha?!) com os zumbis-atletas-paraolímpicos atrás de mim. Ai eu pensei comigo mesmo, “mas que porra é essa?” Eu tava num vídeo game de survival horror? Quantas vidas eu tenho nesse troço? E o pior é que eu voltei ao começo da fase. Quando os primeiros começaram a morrer foi que eu percebi que era hora de voltar a correr e passar de nível naquele jogo.

Ao mexer no meu bolso, me vi com um 38. Legal. Tirei, apontei e disse “Ei, filho da puta”, o zumbi olhou pra mim e eu atirei na fuça dele. Legaaaaal. Voou sangue e miolos pra todo lado. Só que era uns 100 zumbis e no Resident Evil, a Magnum sempre tem só 6 balas. Fazer o que, vamos correr de novo. Só sei que um homem me salva, me leva pra casa dele (olha lá o que vocês tão pensando hein) e lá também tem os filhos dele. Ai eu pensei, “já vi esse filme, vamos passar um tempo vivendo como família feliz escondidos dos bixos, ai vai rolar alguma situação que o pai vai se sacrificar pelos filhos, o filho vai se jogar pra cima do bixo, o bixo vai comer o filho, vai ter muita bala, muita ação, e no fim, dos 5 iniciais, só sobrevivem uns dois. Putz, espero que eu seja um dos dois.”

Lembrei que eu tenho uma paixão gigantesca pelo tema de zumbis no cinema. Em 2005 assisti os dois filmes que reviveram o gênero mais consagrado do terror para mim, Extermínio e Madrugada dos Mortos. Extermínio é um marco, não refaz o gênero, mas o eleva a algo maior, melhor, complexo e assombroso. Extermínio não é só um filme que fala sobre zumbis assassinos, mas de relações humanas, da sociedade atual como uma doença que degrine e desfaz os instintos da humanidade. Mesmo que num momento os zumbis pareçam deixar de existir, é nele que o personagem principal, Jim (na assombrosa e ótima atuação de Cillian Murphy) mostra que o ser humano ainda tem instintos, que nós somos animais demoníacos quando tomados por situações naturais que nos despertem a isso. Não é só a sociedade que mudou, foi o ser humano também. Extermínio é mais que um marco, é cult. A cena de Jim caminhando por uma Londres deserta é uma das melhores que eu já vi.

Madrugada dos Mortos é o bixo. Sangue, violência e morte da forma mais arrepiante e nas situações mais incríveis que você já viu. Esse é um remake da obra do mestre dos zumbis, George Romero, so que é um remake do tipo “vou refazer, mas do jeito que eu queria que esse filme realmente fosse”. E Madrugada dos Mortos se torna um filme de ação, sem muitos sustos, pouco aterrorizante, mas com uma bizarrice e cenas de ação e terror que são do caralho, situações que você nunca deve ter imaginado, mas que deixam o filme previsível. Ainda assim, é bom demais. Ta, eu sou suspeito pra falar, adoro zumbis. Mas Madrugada é bom, com seu começo vibrante, seu meio razoável (que só falha em poucas vezes) e seu finalmente do tipo “Isso vai dar merda, by Capitão Nascimento”.

Os ingleses lançaram também um ótimo filme, no Brasil chamado Todo Mundo Quase Morto, uma crítica a sociedade, ao consumo, a falta de noção das pessoas alienadas e, lógico, aos próprios filmes de terror com zumbis, de um modo que só o refinadíssimo humor inglês é capaz. George Romero lança alguns filmes de zumbis de vez em quando também, mas Terra dos Mortos, por exemplo, mesmo com seu charme a la Romero, não é grande coisa. E o próprio Extermínio 2, mesmo sendo considerado por mim o melhor blockbuster de 2007, não chega ao grande patamar que o primeiro alcançou.

Dizem que os melhores filmes de zumbi estão na época de Romero e dos filmes grindhouse. Assisti então Planeta Terror, do cult (por causa de um só filme que sustenta esse título a ele, mas que já esta definhando) Robert Rodriguez. Um atentado biológico libera um vírus (blá blá blá), uma cidade inteira é contaminada (blá blá blá), temos um mocinho ante herói que resolve salvar o mundo (blá blá blá), a mocinha é uma ex stripper que tem uma perna arrancada e no lugar dela ganha uma metralhadora (opa, agora sim!). Planeta Terror não é muito bom, é diversão garantida, ação, mulheres gostosas e Quentin Tarantino tendo o pênis derretido, mas tudo sem muito aprofundamento. Seria perfeito se fosse uma produção baixa, mas custou uma nota. Acho que eu não peguei o espírito grindhouse, então vou continuar esperando Extermínio 3 ansioso mesmo.

Planeta Terror tem uma coisa interessante. O caos dos zumbis canibais, a morte e a destruição começam no hospital (os médicos tentando resolver os problemas é angustiante e a gente pensa “Já era!”). Em Madrugada dos Mortos também. Aí, eu to ligando meu sonho ao meu local de trabalho. Se acontecer do mundo ser tomado por uma epidemia de zumbis canibais, os hospitais são os primeiros a se fuder. Ei, espera aí, eu trabalho num hospital e tive um sonho em que eu era atacado e perseguido por zumbis. Deus, que isso não seja um sinal.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Como me tornei estúpido, ou, fase de bloqueio de idéias

Eu nunca gostei de 911, aquela série médica que passou na Globo. Sinceramente, aqueles dramas pra mim eram um saco. Talvez foi a partir de não gostar da dramatização médica de 911 que eu tenha começado a desenvolver meu senso crítico e analítico das coisas. Aí, eu tava assistindo a Record num dia desses e o que eu vejo que ta passando lá depois das 11 da noite? House. Nossa, eu tava querendo assistir House há meses. E agora eu tinha a oportunidade (com uma dublagem sofrível é claro, Deus, chega a doer nos meus ouvidos).

House é uma série americana que conta sobre o dia a dia do doutor House e sua equipe médica. Comum? Eu não vou nem explicar muita coisa. Apenas fiquem com esse comentário do House sobre uma criança com câncer: “Não pode aparecer uma criança com a cabeça careca por aqui que todo mundo já considera ela Madre Teresa de Calcutá”. Bizarro, não? Para o doutor House, um caso é só um caso e ele só os trata com frieza, arrogância e um humor negro que lembra eu mesmo nos meus bons tempos. A equipe de House é mais humana, menos o negão (não é porque ele é preto, mas ele é nojento). E nossa, eu me empolgo assistindo aquela série, fico até agitado. É muito bom, de uma inteligência que eu sempre procurei num programa de televisão.

Aliás, a Record ta com um momento fantástico de séries. Além de House, ta passando também CSI e estreou Heroes (com o perdão da palavra, Heroes é do caralho). Também não me arrisco em dizer que esse é o melhor momento das séries americanas no próprio EUA. Pow, esse ano estreou as novas temporadas de Roma, Família Soprano e Desperate Housewives, além disso, a competição de Heroes e Lost foi ferrenha.

Mas o assunto aqui não é esse. Ontem eu estava lendo Os Sonhos Morrem Primeiro, de Harold Robbins. É um livro bastante interessante, mesmo escrito em 1978, talvez porque eu adore estórias de bastidores de mundos pouco conhecidos, como o da indústria editorial pornográfica dos EUA (aliás, eu sempre me perco nos valores de dólares, U$2.000 naquela época era uma fortuna considerável). Quando de repente eu largo o livro e solto um: “Eu to ficando burro”. Minha avó, que estava lendo A Bruxa de Portobello (eu não suporto Paulo Coelho desde O Zahir) na hora, largou o livro e ficou me olhando.

Não que eu esteja deixando de estudar, ler ou me informar das coisas. Pelo contrário. Mas ultimamente eu estou sentindo que meu senso crítico não é mais a mesma coisa. Eu sempre tive um tipo de posição contrária ou polêmica das outras opiniões. Aliás, a maioria das coisas que as pessoas “cultas” gostam eu sempre tenho uma análise própria (tipo, sabe O Caçador de Pipas? Então, achei chatíssimo). Eu gosto de ter uma visão das coisas de um jeito só meu. Sempre uma crítica particular e um senso de captar as coisas ao meu redor com uma facilidade grande. Agora, sei lá, sinto como se tivesse perdendo isso.

Quando falei isso pra minha avó, ela disse: “Deve ser porque você ta ficando mais centrado na vida”. Fiquei doidinho. Se começar a ter a capacidade crítica mais pros cantos do senso comum é ficar centrado na vida, eu prefiro largar tudo, morar numa casa no campo, escrever contos baratos e ter um caso sórdido de amor (esse é o tema de um filme cujo título me foge a cabeça no momento).

Essa conversa que eu tive me lembrou o livro que eu quero comprar, Como me Tornei Estúpido, do francês Martin Page. A sinopse do livro diz que o personagem principal, Antoine, sofre com a inteligência e o senso crítico que tem. Tortura a mente dele e nunca o levou a lugar algum (eu sempre fui a favor da idéia de que a nossa mente é nossa maior torturadora). Então ele tenta de tudo pra ser menos crítico e analítico, ate mesmo arrancar parte do cérebro. Não dá certo, mas ele descobre um remédio poderoso e se torna amigo de um corretor de imóveis que o faz ficar rico sendo pouco inteligente, além de ingressá-lo na elite de Paris. Então se tornando estúpido, a vida de Antoine começa a melhorar. Mas de vez em quando o efeito do remédio passa, e o senso crítico volta pra torturar.

Engraçado. Eu to tentando ser diferente de Antoine. Entrei em crise por causa disso, mas ontem mesmo, depois de me tocar que talvez eu esteja me tornando estúpido, eu tive um lapso. Uma idéia, que sinceramente eu achei boa como poucas que eu criei. Já to de mãos a obra e vamos lá. Lá vou eu tentar salvar meu senso crítico e analítico e quem sabe um dia eu poderei me equiparar aos pés do próprio doutor House e não precisar me tornar estúpido, muito menos por vontade própria.