quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Os 10 melhores filmes de 2015 que você NÃO assistiu

Demorou, mas saiu! A lista dos melhores filmes de 2015 que você NÃO assistiu está bem acessível esse ano, com obras que fizeram razoável sucesso mesmo fora de circuito e até uma superprodução. O único país estreante da lista esse ano é a Áustria, todos os outros são velhos conhecidos e vale a pena lembrar que o post não passa de uma brincadeira para trocar experiências sobre filmes não muito badalados pelo mundo.
Do mais, divirtam-se!

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2015, mas né, eu só assisti agora.

10º lugar: [REC] 4: Apocalipse ([REC] 4: Apocalypse – Espanha)
Depois da bosta que foi REC 3: Gênesis (sério, esse filme é muito ruim, evitem), os fãs do terror de zumbis espanhol (que ganhou ate uma fraca versão americana) voltaram suas atenções para Apocalipse, a verdadeira continuação da parte 2. E embora não tenha sido lá essas coisas, ao menos nos entregaram uma conclusão razoável. O filme volta a retratar os acontecimentos de Angela Vidal, que terminou sua participação em [REC] 2: Possuídos de uma forma bastante peculiar, garantindo assim, um gancho emocionante para uma sequência que teria tudo para fechar a história da franquia com chave de ouro. Se passando num navio cargueiro carregado de cientistas e soldados que garantam que nada de errado aconteça e a infecção zumbi volte a se espalhar, o filme tem umas sacadas ótimas. O ambiente claustrofóbico e medonho do navio é ótimo para as tomadas por si só, as cenas de ação são boas mesmo, mas a falta de reviravoltas e um clímax bem pouco empolgante botaram muito a perder. REC 4 vale a pena para os fãs terem uma conclusão e satisfaz, mas fica o gostinho de que acabaram mal algo que tinha muito potencial.

9º lugar: Saint Laurent (França)
A cinebiografia do estilista francês (segunda a tentar algum feito, tendo em vista que a primeira quis abraçar o mundo com as pernas e não conseguiu) foca a conturbada relação amorosa entre o artista e Pierre Bergé, “marido” e administrador de sua carreira. Com a diferença de que Saint-Laurent nasceu para subir, e Bergé para preparar a escada, a coisa fica mais pesada quando Jacques de Bascher (Louis Garrel) se torna amante do estilista, fazendo-o mergulhar em sua fase mais depreciativa, explodindo em casos de drogas, promiscuidade e quase levando ao fim o império da marca. Gaspard Ulliel está fascinante como YSL, assim como todo o elenco principal. E embora cheia de grandes nomes, o mundo da moda possui poucos revolucionários e Yves foi um deles, com uma história de vida e profissional grandiosa. Ainda assim o filme não consegue transmitir bem tudo isso. Ao focar apenas em uma parte de sua vida, nos faz perder o “começo” real. O filme brilha, mas não tanto quanto aquele que lhe deu vida.

8º lugar: Pasolini (França/Itália/Bélgica)
No dia de sua morte, Pasolini passa suas últimas horas com sua amada mãe e mais tarde com os seus amigos mais queridos, antes de finalmente sair para a noite em seu Alfa Romeo em busca de aventuras sexuais com os garotos que vendem seus corpos na Cidade Eterna. Ao amanhecer, Pasolini é encontrado morto em uma praia em Ostia, na periferia da cidade. Isso é Pasolini, filme que mistura os acontecimentos reais dos últimos momentos do polêmico diretor italiano com ficção baseada em suas ideias. É um filme curto, mas que gera um deleite sobre a criação do anarquista imaginário que gerou um de meus filmes favoritos: Salò ou Os 120 Dias de Sodoma. Willem Dafoe está magnânimo no papel, não entendo como passou batido por premiações.

7º lugar: A Centopeia Humana 3 (The Human Centipede 3: Final Sequence – EUA)
Gore, completamente sem sentido, machista, depreciativo, nojento e ainda assim divertidíssimo. A Centopeia Humana 3 joga pro alto a tentativa de ser um filme de terror sério e indigesto que tentou no capítulo 2 e aposta num gore de comédia em sua parte final. Na trama, o diretor de um grande presídio Bill Boss (Dieter Laser, excelente) precisa lidar com problemas como rebeliões, rotatividade e a falta de reconhecimento do governador (Eric Roberts, que só deus sabe porque aceitou esse papel). Vendo que Boss não tem nenhuma perspectiva de resolver esses problemas, Dwight (Laurence R. Harvey), seu braço-direito, surge com uma ideia capaz de revolucionar o sistema penitenciário americano: a criação de uma centopeia humana de 500 pessoas. O filme tem alguns pontos interessantes a serem notados, principalmente em como usa metalinguagem, já que em seu universo o 1 e 2 são realmente filmes que irão inspirá-los e o diretor do filme aparece como... diretor do filme. Sim, Tom Six aparece como diretor dos primeiros filmes e compartilha com o administrador penitenciário a ideia para botar em prática. É bizarro!

6º lugar: Mommy (Canadá)
Xavier Dolan criou uma legião de fãs ao lidar com problemas atuais, mas saindo dos óbvios, de uma juventude moderna. Com Eu Matei Minha Mãe e Amores Imaginários, trouxe fábulas que encantaram os jovens com visões romantizadas sobre situações em que se identificavam. E ao quebrar essa fórmula em Mommy, ele mesmo, sem parecer, se reinventa e traz seu mais belo e maduro filme. Se em Eu Matei Minha Mãe tínhamos a visão do jovem homossexual que não era aceito pela mãe, agora em Mommy a visão vem da mãe de um jovem rapaz que sofre de bipolaridade. É dramático, intenso, conflituoso e belo. Na trama, Die (Anne Dorval) diz que nunca vai abrir mão de cuidar de seu filho adolescente, Steve (Antoine-Olivier Pilon), mesmo que os acessos de fúria dele encontrem combustível no temperamento igualmente curto da mãe. O filme é todo projetado em janela 1:1, quadrada, com exceção de duas cenas (uma delas belíssima), o que dá um charme único típico das obras de Dolan. Tudo na tela é forte, até os momentos de felicidade do trio de protagonistas (a vizinha acaba fazendo parte). E mesmo com um ar amedrontador para o espectador de "isso vai dar merda uma hora ou outra", Dolan consegue a mágica de nos fazer respirar aliviados quando tudo terminar.

5º lugar: O Expresso do Amanhã (Snowpiercer – Coréia do Sul/EUA)

Muito se tentou que o cinema oriental de fantasia convergisse com produção ocidental. E acreditem, é um desafio. Tanto que O Expresso do Amanhã é o que mais chega perto disso. Aliás, com direção coreana, produção americana e baseada em uma HQ francesa, é um dos elementos pops mais viajados que eu já vi. E é sensacional. Após um experimento para tentar controlar o aquecimento global, a Terra foi congelada e tudo fora do trem Perfuraneve morreu. Porém, o trem é autossuficiente, dá a a volta ao redor do mundo e gera energia, mas dentro dele as castas criadas pelo capitalismo continuam existindo. Os ricos e poderosos moram na ponta com todas as suas vantagens possíveis, os pobres e miseráveis no fundo, onde se alimentam porcamente e vez ou outra tem suas crianças roubadas. O resultado inevitável? Revolução. Com os debates cada vez mais acirrados no mundo sobre divisão de classes, mesmo Snowpiercer sendo uma obra de fantasia absurda, ele nos leva a reflexão de se colocar no lugar do outro. Mas são seus elementos pops orientais que mais me fascinaram, como a cena épica que precede a luta ao entrar num túnel. O final completamente inesperado e pessimista e a atuação atraente de Chris Evans e Tilda Swinton completam o poder de atração do filme.

4º lugar: Perseguição Virtual (Open Windows – EUA)
Muitos filmes procuraram aplicar o diferencial de usar aquilo que faz parte do mundo das pessoas reais para serem feitos. Eu lembro de anúncios de filmes feitos apenas com a câmera do celular e bem... a maioria é uma droga mesmo. Mas esse não. Esse é épico. Com um título medíocre no Brasil, Open Windows é um filme que busca ser documental e consegue na sua forma mais inesperada. Todas as imagens vem dos equipamentos usados pelos protagonistas. Desde as câmeras dos notebooks e celulares, até de carros, segurança ou simplesmente câmeras de mãos. A história de Nick, fã da atriz Jill, que acha que ganhou uma promoção para conhecê-la, mas na verdade cai numa teia diabólica de psicopatia e luta de hackers, parece simples e repulsiva a princípio, mas é divertidíssima, principalmente pela quantidade absurda de reviravoltas. É um experimentalismo sobre uma fórmula já batida, que nasceu com A Bruxa de Blair e aqui toma outros níveis.

3º lugar: Corrente do Mal (It Follows – EUA)
It Follows poderia terminar o ano como um dos mais brilhantes filmes de terror da década. Poderia... A premissa, a fotografia, a trilha sonora mínima e pontual com sintetizadores, o medo real que ele nos transmite, principalmente assistindo sozinho num quarto escuro... Tudo isso é incrível. E embora a ideia de uma jovem que é amaldiçoada após o sexo com uma entidade maligna que irá caçá-la para mata-la - se ela não transmitir a outra pessoa - pareça mais um teen movie de terror (Deus, como A Forca e Unfriended são horríveis), It Follows tem um porte único, elegância, produção caprichada e no fim se torna uma metáfora sobre o fim da inocência. O filme também bebe obviamente de fontes japonesas como O Chamado, afinal temos aqui uma maldição sem fim e sem sensação de esperança. Poderia ser perfeito... mas da metade pro final quebra uma magia danada ao tornar a entidade em algo “físico, mas invisível” e seu ápice é broxante, embora retome para um desfecho muito satisfatório. Vale a pena, ficará um tempo na sua memória lhe perturbando, mas dificilmente lhe marcará como um clássico.

2º lugar: O Predestinado (Predestination – Austrália)
Uma das ficções mais sensacionais que tive o prazer de assistir nesta vida, Predestination é pra pegar o seu cérebro e transformar num polenguinho. Na trama, que se revelar muito estraga, o ator Ethan Hawke vive um agente que viaja no tempo para garantir que grandes crimes não aconteçam. Em sua última missão, o agente deve perseguir o único criminoso temporal que continua foragido, o Detonador Sussurrante (olha que nome maravilhoso pra um vilão, com um nome desse não tem como o filme ser ruim). Ainda assim, sua última missão é mais complicada por necessitar que Hawke coloque pingos finais nas mudanças temporais que fez, precisando se encontrar inicialmente com um jovem no bar que carrega um grande sentimento de vingança dentro de si. Integra o elenco ainda Sarah Snook, que embora uma atriz novata, leva seu papel com capacidade de nos fazer se emocionar e surtar. O final também é pra fazer ficar sem ar.

1º lugar: Goodnight Mommy (Ich seh, ich she – Áustria)
Com a necessidade de reinvenção do terror no início do século, um novo estilo passou a ser o verdadeiro criador de mitos no gênero: o psicológico. Suas ramificações passaram então a ser infinitas se levarmos em consideração mentes geniais que souberam explorar esse estilo, por vezes ainda usando o sobrenatural (Os Outros), ou não (Martyrs). Goodnight Mommy segue essa cartilha e acerta brilhantemente. Comparado injustamente ao australiano The Babadook por ser um terror em família, o filme austríaco envereda por uma ramificação muito mais pesada, sombria e, principalmente, angustiante. No filme, os gêmeos Lukas e Elias estão simplesmente sozinhos numa bela casa de campo esperando sua mãe, Suzanne, retornar de uma cirurgia plástica na face. Com o retorno da mãe e um comportamento inesperado, os gêmeos levantam uma dúvida perturbadora: talvez aquela não seja sua mãe. Não se deve falar do desenrolar aqui. O filme é curto e cheio de surpresas, embelezado por paisagens nubladas e atuações brilhantes. Não espere sustos, medo ou terror como antigamente. Se prepare para ficar preso na cadeira, apertando o encosto e com bastante angústia e receio pelo caminho que o filme traça. No fim, Goodnight Mommy é um terror “minimamente real” por tratar em parte do abandono familiar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Os 10 melhores filmes de 2014 que você NÃO assistiu



A lista desse ano deveria na verdade se chamar “os 10 melhores filmes que eu assisti em 2014 e você não”, porque sendo bem sincero, tem obras datadas de lançamento em 2013, 2012 e... 2011. Para os de 2012 e 2013 eu tenho até a desculpa de que no Brasil eles estiveram disponíveis apenas este ano para apreciação fora de circuitos (acreditem, não é fácil encontrar alguns filmes na internet e você precisa de paciência de Jedi pra ter uma boa cópia legendada). Já esse de 2011 foi resultado de notável lapso por ele ser bem desconhecido mesmo. 

Esse ano temos países estreantes na lista como Austrália, Grécia, Marrocos (é, naveguei pelos árabes) e Holanda. Mas não deu outra, mais uma vez os japoneses ficaram no pódio (e olha que nem teve Evangelion em 2014). 

Embora a lista tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido alguns. É apenas uma brincadeira para falar sobre filmes não tão comerciais de destaque e obras que merecem ser vistas, mas não tiveram lá tanto marketing. Ademais, espero que apreciem, curtam, critiquem e compartilhem. A lista dá um trabalhão pra fazer, mas um prazer enorme. 

10° lugar: O Babadook (The Babadook – Austrália) 

Película presente em diversos festivais de terror e com estreia em circuito restrito no Brasil, The Babadook é notavelmente um filme de pouco orçamento, mas feito com muita boa vontade. Na trama, Amalie leva uma vida problemática ao lado do filho hiperativo Samuel. É mais difícil para ela porque o filho é “responsável” pela morte do marido num acidente de carro enquanto ele a levava para dar a luz. A princípio parece clichê: ao ler um livro para o filho, Amalie se vê envolvida num terror psicológico em que não sabe definir se esta enlouquecendo ou se a entidade Babadook é real. E esse jogo que vai para o espectador é a melhor parte, porque o filme se torna imprevisível e prende a atenção para sabermos o que realmente está acontecendo. Esse terror é real afinal de contas? Destaque para a atuação do jovem Noah Wiseman, que é natural e nada forçada. 

9° lugar: O Garoto que Comia Alpiste (To agori troei to fagito tou pouliou – Grécia)

Filme altamente introspectivo, O Garoto que Comia Alpiste é uma autocrítica a um país que está à beira da falência apresentada através da vida do jovem Yorgos, que funciona como uma alegoria da crise financeira de toda a Europa. Yorgos é uma das facetas da depressão. Desempregado, sem família, amigos ou amores, está completamente fora de círculos sociais. Ele se alimenta do lixo dos outros e aos poucos vamos observando ele perder o pouco que ainda tem. O filme é quase um monólogo, são cerca de apenas 15 diálogos, não é para um grande público, mas é brilhante. A atuação assombrosa de seu protagonista causa uma imersão na catástrofe que é sua vida pessoal, que não possui nem mesmo uma perspectiva de melhora, nem meramente a de sobrevivência. É um filme que retrata a absoluta miséria e a falta de esperança em uma geração inteira de jovens europeus.

8° lugar: O Teorema Zero (The Zero Theorem – EUA) 

Ficção científica capaz de dar um nó no cérebro, O Teorema Zero, filme do mesmo diretor de Os 12 Macacos, não é para nos conectar com o presente (como a maioria das ficções científicas), mas com a religião. Qohen Leth é um operário modelo da Mancom, corporação que "dá sentido às coisas boas da vida". Mas Qohen vive atormentado à espera do Chamado, um telefonema que supostamente lhe dirá o sentido de SUA vida. Procurado pelo Comando da Mancom para desvendar o projeto Teorema Zero, o programador recebe, em troca, a promessa de ter seus dilemas existenciais respondidos. Mais que uma crítica genial a busca desenfreada pela felicidade plena e a infelicidade que isso gera no caminho, a distopia tem um trabalho de direção de arte e metáforas bizarras. Afinal, é um futuro, mas no trabalho se usam joysticks de Atari, o fruto proibido do paraíso é na verdade Mélanie Thierry com roupas bem justinhas e Deus nos vigia através de câmeras GoPro.

7° lugar: Coldwater (EUA)

Há poucas informações disponíveis acerca do filme Coldwater. O que se sabe é que a primeira versão do roteiro data de 1999, quando o roteirista Vincent Grashaw terminava o ensino médio. Talvez seja por isso que num primeiro olhar a ideia do acampamento de detenção para jovens problemáticos seja difícil de ser aceita hoje, mas era bem mais comum há pouco mais de uma década nos EUA. No filme, após uma série de eventos trágicos, o jovem Brad é internado pelos próprios pais em uma espécie de prisão juvenil isolada da civilização, chamada Coldwater. No local, ele sofre diversas agressões dos colegas e dos responsáveis pela direção, e começa a planejar a sua fuga. O filme parece fraco até que a fuga em si acontece e Brad fracassa, depois a obra toma um novo rumo quando Brad se vê fazendo parte do sistema que ele tanto quis estar longe. Coldwater é sobre jogos psicológicos, sobre situações de bater ou apanhar, sobreviver ou morrer. É sobre situações extremistas em que é impossível estar em cima do muro e a decisão certa é essencial, mesmo que ela não seja levada pela racionalidade. Com um final surpreendente, o filme é um pequeno achado acerca de como afinal devemos tratar os jovens que a própria sociedade torna em monstros para depois rejeitar. 

6° lugar: Rock the Casbah (Marrocos)

Quem conhece meu gosto cinematográfico sabe que eu adoro dramalhões familiares. Rock the Casbah não é exatamente o melhor deles. Aliás, é uma comédia agridoce bastante clichezenta, mas com um diferencial incontestável: mostra uma ponte de conflitos entre a tradicional cultura árabe e o processo de ocidentalização que países mais “liberais” como o Marrocos andam sofrendo. É uma mistureba doida: um filho contestador; a avó boazinha que apoia o rebelde; os pobres em confronto com os ricos; o filho bastardo; e até a velha história do irmão que se relaciona com uma mulher sem saber que, na verdade, ela é a sua própria irmã. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo devido a morte do patriarca da família, que obrigou a reunião de todos os seus parentes, inclusive a filha que foi embora para os EUA e que sofre tentando ser atriz, só conseguindo papéis de terrorista (e é dela a perspectiva que temos). Fotografia e cenografia bonitas. Música bem escolhida. Durante um passeio com um velho Mustang admirando a cidade, toca uma música brasileira. Rock the Casbah tem pequenos momentos deliciosos para admirar um mundo que não é o nosso. Peca imensamente em tentar nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo. Não consegue. Mas ainda assim nos deixa exatamente no meio da ponte. 

5° lugar: O Pacto (Horns – EUA)

Primeira adaptação de um livro de Joe Hill, O Pacto não é um filme excelente, caindo nos velhos problemas de adaptações, mas tem uma ideia original e sensacional. O filme narra a história de Ig Perrish, que vivia feliz com a namorada, até ela ser morta e ele ser considerado o único suspeito. Determinado, Ig fará de tudo para saber quem é o verdadeiro assassino, até mesmo usar seu belo par de chifres que nasceu DO NADA em sua cabeça após, revoltado, mijar numa santa, lhe dando incríveis poderes de persuasão e controle. Na verdade os chifres são capazes de fazer com que pessoa fale a verdade e é daí que vem os melhores atos do filme, ao mesmo tempo que pensamos: “Jesus, não existe ninguém que não seja desprezível nessa cidade?”. Eu não sei se ia querer aqueles chifres. Ainda assim, o diretor não soube usar a temática ao seu favor, transformando o filme inteiro em uma investigação no começo confusa, depois previsível e com soluções fáceis. Ainda assim foi a melhor atuação do Daniel Radcliffe.

4° lugar: Garotos (Jongens – Holanda)

Quando me perguntaram por que eu achei o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho mais ou menos, a resposta é Jongens. Não gosto de criticar tendo que comparar, mas seguindo a temática da autodescoberta, a verdade é que o holandês é muito mais cativante que o brazuca. Temos a história de Sieger, um garoto de 15 anos que descobre o amor durante os intensos treinos de atletismo. Ele entra para o time de corrida, quando conhece o intrigante e imprevisível Marc. A amizade que se desenvolve não parece nada fora do comum, mas Sieger secretamente tem sentimentos mais fortes para Marc. Ele se envolve numa luta solitária, quando descobre que Marc também é apaixonado por ele e a rejeição aos próprios sentimentos aos poucos precisa ser superada (aliás, o Marc sabe muito bem o que quer e acaba levando a pior por se apaixonar por um Sieger confuso, mas ainda assim segue determinado). É só isso mesmo, simples, mas muito tocante, principalmente pela atuação bastante intensa dos garotos em si. O filme não se passa na cidade grande, mas sim no campo, o que gera um diferencial pelas belas paisagens e takes envolventes, ao mesmo tempo que sabemos que a diversidade sexual é uma coisa que nunca funciona muito bem fora dos grandes centros. 

3° lugar: Vidas ao Vento (Kaze Tachinu – Japão)

É difícil imaginar que o mestre da magia e fantasia japonesa, Hayao Miyazaki, que produziu A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado, tenha feito Vidas ao Vento, que mesmo sendo uma animação é um filme absurdamente adulto, romântico, mas acima de tudo, poético. Aqui temos a cinebiografia de Jiro Horikoshi, o designer que criou o famoso avião de combate japonês Mitsubishi A6M Zero, um dos mais mortíferos usados na Segunda Guerra Mundial, o que devastou Pearl Habor. E não se engane, Jiro criou um monstro, mas ele não era um monstro. Apaixonado pela aviação desde criança, ele foi responsável por tirar o Japão de um atraso de 20 anos no setor, mas o filme não foca essencialmente nisso, é sim uma fábula sobre superação, aceitação e acreditar no amor pleno, quando ao conhecer a mulher de sua vida, Jiro vive o dilema de que ela terá uma morte eminente. Tudo nesse filme é belíssimo e o resultado final é o mesmo de qualquer filme de Hayao: arrebatador.

2° lugar: Romeos (Alemanha)

Poucos filmes foram capazes de abordar o transexualismo de uma maneira tão leve e direta. A priori, é necessário entender que identidade de gênero não é a mesma coisa que identidade sexual. E Romeos vai na ferida do que é entender essa diferença. Lukas tem 20 anos e encontra-se na fase de mudanças bioquimicamente induzidas do feminino para o masculino – Lukas é um garoto trans –, mas os problemas começam quando no serviço cívico obrigatório ele tem que ficar no alojamento das meninas. E isso o filme retrata bem: ser transexual significa estar sempre preso no ambiente social errado. Para uma vida mais confusa, Lukas é apresentado pela amiga Ine ao gay atrevido, valente e muito atraente Fabio, por quem se apaixona. O filme tem apenas 94 minutos e é recheado de pequenas pérolas ousadas, como ver Lukas masculinizado, mas ainda com os seios fartos, ou quando ele ouve de Ine “Se era pra você se interessar por um rapaz, não precisava virar um”. Romeos propõe um olhar invulgar sobre o tema dos trans, e com humor e alguma ousadia procura quebrar convenções estabelecidas sobre estes indivíduos.

1° lugar: Lesson Of The Evil (Aku no kyôten – Japão)

Quando o assunto é filmes de chacinas, violência que só parece gratuita e vingança, o Japão definitivamente está anos luz a frente do resto do mundo. Lesson of the Evil é um desses exemplos simplesmente sensacionais. Na trama, Hasumi é o professor mais popular da escola, faz sucesso entre os alunos com sua maneira de lidar com as situações adversas, conquistando a confiança inclusive da maioria do corpo docente. No desenrolar da trama, vamos conhecendo a fundo Hasumi e suas reais intenções: a cada ato nobre do professor, existe um interesse obscuro. Suas ações acabam por despertar a desconfiança de um professor de física e alguns alunos, porém Hasumi não hesitará em tirar do caminho quem ousar atrapalhar seu “plano”. É um filme diabólico, que pega um psicopata como protagonista e o eleva ao máximo do que pode ser “tirado” de um. E embora tenha um número gigantesco de personagens, todos são muito bem aproveitados na medida do possível. Para quem gosta de violência gráfica sem censura, o filme é um prato cheio. E os toques de humor negro e ironia presentes na obra são pra encher os olhos de quem gosta de contar esse tipo de situação. O ato final de Lesson Of The Evil, quando o professor coloca seu real plano em prática é longo, sensacional e para os fãs do gênero, não desperta o desejo por acabar. Na verdade o filme é poderoso por gerar um sentimento dúbio: Esse não é um daqueles filmes de terror adolescente em que queremos os jovens mortos pela falta de empatia, ao mesmo tempo que queremos saber o que realmente vai acontecer alí e para isso é necessário que o plano se concretize. O diretor, Takashi Miike, definitivamente está escrevendo seu nome na história do cinema.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os 10 melhores filmes de 2013 que você NÃO assistiu



Amantes de cinema do meu Brasil, é com felicidade (e atraso) que compartilho a 6ª lista seguida dos dez melhores filmes de 2013 que você NÃO assistiu. Embora tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido alguns. É apenas uma brincadeira para falar sobre filmes não tão comerciais de destaque e obras que merecem ser vistas, mas não tiveram lá tanto marketing.

2013 foi um ano bom para o cinema não blockbuster que tomou um fôlego novo, principalmente com o boca a boca das redes sociais. A novidade é terem entrado países nunca antes mencionados aqui como Chile, Holanda e Dinamarca. Filmes orientais também estão presentes, aliás, o cinema oriental só tem surpreendido.

Uma lista que esse ano foi fácil e gostosa de fazer, cheia de retoques. Com recursos como Filmow e IMDB, filme bom hoje em dia não fica mais no anonimato.  Divirtam-se, foi um prazer escrever cada linha!

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2012, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil foi esse ano.

10° lugar: Queda Livre (Freier Fall – Alemanha)

Não é exatamente um filme bom. Seu roteiro inconstante não faz com que seja dos mais carismáticos e nem sempre a química do casal convence. Ainda assim, esse romance gay alemão tem algo de tocante. Quando o recém graduado policial Marc acha que sua vida está perfeita, feliz no trabalho, casado e esperando o primeiro filho, as coisas tomam um novo rumo quando se aprofunda num relacionamento com seu colega de academia, Kay. Não é preciso muito pra adivinhar o quanto o romance dos dois será auto destrutivo. Não basta a cabeça de Marc virar de pernas pro ar, Kay está bem convencido do que quer e que vai lutar pelo que ama. É um filme questionador do ponto de vista de relacionamentos, sua complexidade, aquilo que achamos certo e aquilo que realmente queremos. No fim, Marc criou uma prisão para si mesmo e a única coisa que poderia lhe dar a liberdade é justamente aquilo que ele mais passou a ter medo.

9° lugar: Boven is het stil (mesmo título - Holanda)

É um filme contemplador, o que no mundo cinematográfico quer dizer: não acontece muita coisa. E não acontece mesmo, ainda assim nos faz se questionar bastante. Como o filme tem seu significado apresentado pelo todo, não vale falar muito, mas essa produção holandesa nos faz mergulhar na vida de Helmer, que vive uma vida desagradável numa fazenda. Seu pai está doente e não sai da cama, sendo Helmer responsável por dar banho, comida, limpar suas imundícies e o manter na cama, com um detalhe: eles se odeiam. Helmer é grosseiro, reservado e não consegue dialogar com ninguém. Ele traz no rosto a própria imagem de amargura, reclusão e de um sofrimento que parece que não vai acabar nunca. O filme retrata esse aspecto e possibilidade de Helmer mudar, mas para isso irá precisar de muito mais que querer, ele precisará se livrar de pesos que talvez nem ele reconheça quais são.

8° lugar: Doomsday Book (인류멸망보고서 – Coréia do Sul)

A coletânea coreana de três filmes retrata de diferentes formas o que seria o fim do mundo. Mas não se engane, embora os diretores Kim Jee-woon e Yim Pil-Sung tenham feito obras interessantes, apenas uma realmente vale a pena, o segundo episódio: Heavenly Creature. A mais profunda das três partes, o média metragem é uma mistura da filosofia budista com um futuro distorcido onde uma grande corporação robótica se torna tão poderosa quanto o governo e influencia na vida e nos costumes de toda a população. Esteticamente, mesmo com pouquíssimos cenários, o filme é belo e a fotografia funcional. Na trama, o robô In-Myung deixa de ser um ajudante do templo e passa a ser um monge. Fascinados com o nível de consciência adquirido pelo robô, os outros monges o consideram o próprio Buda. Quando a corporação robótica descobre, um problema surge. A cada cena em que o robô In-Myung aparece, existem elementos da caminhada em busca da iluminação espiritual. Da flor de lótus, a diagramas, textos e o Buda Iluminado, vários símbolos são usados como contraponto em meio aos cenários. O questionamento é um só: a iluminação de deus só existe para os seres humanos ou isso é capaz de ir muito além?

7° lugar: Segredos de Sangue (Stoker – Estados Unidos) 

Quando Park Chan-wook foi convidado a realizar seu primeiro filme hollywoodiano, o mundo tremeu. E não tremeu tão desmerecidamente assim. Stoker é intrigante, charmoso, chega a ser fascinante. Mas a sensação de que falta algo permeia o filme o tempo todo. Para Park, sexo e sangue estão relacionados a ritos de passagem. E Mia é uma jovem que após a estranha morte do pai e o aparecimento de um tio até então desconhecido, irá passar por todo um ciclo de mudanças junto ao homem tão misterioso. O filme transita por gêneros, do terror ao suspense e o erotismo. A presença de Nicole Kidman como a mãe de mente perdida de Mia também ajuda muito. É belo e nos prende do começo ao fim, mas quando os mistérios são resolvidos, a impressão que dá é que mesmo esteticamente irrefutável, seria uma trama melhor se passada na Coréia do Sul mesmo.

6° lugar: Adeus, minha rainha (Les adieux à la Reine – França)

Superprodução francesa de época, Adeus, Minha Rainha é mais um filme a tentar nos levar a mente daquela que foi a mais intrigante personagem monárquica que o mundo ocidental produziu: Maria Antonieta. Diferente dos outros, temos aqui uma rainha mais real, apresentada pelo ponto de vista de sua criada, Sidonie. Começando exatamente um dia antes da queda da Bastilha, o filme mostra de forma magistral o desespero e os acontecimentos que tomaram conta da corte francesa no período seguinte. Sidonie é apaixonada por Maria Antonieta, a idolatra, a ponto de não ver a real face da doentia e descontrolada rainha. É apenas quando o romance da rainha com a duquesa Gabrielle de Polignac fica evidente, que Sidonie passa a fazer parte de um jogo cruel, que mostra de forma sutil como a falta de moral levou toda a corte francesa a uma derrocada que eles mesmos nunca foram capazes de prever. Filme de valor histórico sensacional.

5° lugar: Um Estranho no Lago (L'inconnu du lac – França)

Aclamado na França, chegando a ser considerado o filme do ano, Um Estranho no Lago é intrigante, mas primeiramente merece uma atenção: se mesmo não tendo nada contra a homossexualidade você não se sente a vontade vendo sexo gay, não o assista. O sexo entre homens é o elemento norteador desse thriller a moda antiga com tons hiticockianos. Na trama somos apresentados a Franck, um rapaz que assim como diversos outros homens se dirige a um belo lago no verão não apenas para se banhar, mas para conseguir sexo fácil, a famosa “pegação”. Ao se interessar perdidamente por um outro homem, passa a observá-lo ate presenciar um assassinato. Mas o que deveria ser um rumo natural para a situação toma outra forma quando Franck começa a se relacionar com o assassino. Filme a moda antiga, mistura o voyeur e o suspense. Há uma tensão considerável em sua maior parte, mas o final pode ser bastante frustrante. Uma experiência cinematográfica realmente diferente, como só os franceses são capazes de proporcionar.

4° lugar: A Caça (Jagten - Dinamarca)

Existe uma máxima de que crianças não mentem. Mentira! Crianças mentem sim. Seja por medo, por culpa, até mesmo por maldade, ou por mera inocência. O sensacional A Caça fala disso, como uma mentira inocente contada por uma criança é capaz de afundar completamente a vida de um ser humano. Na trama, um respeitadíssimo professor de jardim da infância de uma pequena comunidade tem sua vida virada do avesso quando Klara, uma menina de 8 anos, filha de seu melhor amigo, confunde seus sentimentos pelo professor e resolve repetir à diretora da escolinha uma frase que ouviu dos irmãos - algo que coloca a cidade inteira contra o professor, que é acusado gravemente de ter abusado sexualmente da menininha. É um filme angustiante. Com fotografia, roteiro e atuações surpreendentes, acompanhamos esse caso perturbador, quando mesmo sabendo da inocência do acusado, vemos seu mundo desmoronar, seu filho se perturbar, seus amigos odiá-lo e apenas uma certeza: mesmo que ele se livre da acuação, as marcas ficarão para sempre. É um filme crescente. Seus momentos finais (a cena na igreja, a caça em si) são de ficar sem ar. Porque o mundo se tornou imune ao impacto visual da violência por causa da mídia, mas a pedofilia não, nossas crianças são sagradas e o crime será sempre um dos mais condenáveis, mesmo que elas mintam.

3° lugar: Traga-me a cabeça da mulher metralhadora (Tráiganme la cabeza de la mujer metralleta – Chile)

Sou um apaixonado pelo estilo grindhouse. Quem me conhece sabe disso. E como o estilo não é mais produzido, sobram as homenagens. Pra piorar, a grande promessa do ano, Machete Kills, foi um grande fiasco. Mas é do Chile que vem um dos filmes mais divertidos de 2013, esse sim uma verdadeira homenagem ao grindhouse. O filme conta a história de DJ, o azarado músico que estava no lugar errado, na hora errada, quando se vê obrigado a caçar a Mulher Metralhadora, maior assassina de aluguel do país, que prometeu matar o maior gangster do país, que por ventura é o chefe do DJ e ex marido da própria Mulher Metralhadora. Engraçado como poucos que eu vi esse ano, o filme é tosco, bizarro, cheio de personagens caricatos, roteiro pífio e atuações exageradas. Ou seja, só amor. Há uma série de referências também e a mais marcante é ao jogo GTA, com o filme roubando caracteres e o sistema de missões.

2° lugar: Evangelion 3.3 – You can (not) redo (ヱヴァンゲリヲン新劇場版Q – Japão)

É difícil demais falar desse filme sem ter que se relatar a seu legado homérico de mais de 20 anos de criação e que existe até hoje. Terceiro filme do remake (?) da série original, essa obra prima japonesa teve um ano de atraso em seu lançamento, mas só de lembrar, perco o ar. Depois do mega impactante 2.0, 3.0 nos traz um mundo completamente diferente de tudo o que imaginávamos, 14 anos após os acontecimentos do último filme, num planeta quase morto devido a um Impacto pela metade. Todos estão diferentes, menos Shinji, que precisou desse tempo todo para ter seu corpo reconstituído. Não importa a dezena de novos personagens, é um filme precisamente focado em Shinji, pois o mundo mudou, ele não. E esse conflito de mudanças tão drásticas destrói Shinji por dentro de maneira crescente, até ele encontrar conforto e esperança no único que lhe estendeu a mão, Kaworu, aquele que todos nós sabemos ser na verdade Tabris, o anjo do livre arbítrio. E não importa as intenções divergentes de todos ali, 3.0 é um jogo, o mais cruel de todos, planejado e arquitetado por alguém que deseja tanto uma ressureição, que é capaz de matar o planeta inteiro por isso, inclusive seu próprio filho. Um filme perturbador para quem entende do universo de Evangelion, que nos faz descobrir que nem a redenção é o suficiente para a salvação.  

1° lugar: Antes da Meia Noite (Before Midnight – Estados Unidos)

Há cerca de 20 anos, jovens românticos de todo o mundo foram maravilhados pelo romance Antes do Amanhecer. A trajetória do casal que se conhece em um trem durante uma eurotrip e em 24 horas vive uma belíssima história de amor inspirou centenas de jovens a procurarem o mesmo nas estações de trens europeus. Alguns anos depois o casal se reencontra no divergente Antes do Por do Sol, num belo reencontro lírico de pessoas que se amaram como nunca antes por apenas um dia e passaram anos sem se ver e saber nada um do outro. Antes da Meia Noite é a conclusão da trilogia desse casal, que agora encontramos casados e com gêmeas de sete anos. Passando férias na Grécia junto a um grupo de amigos entre escritores e poetas, o filme é um marco assim como Antes do Por do Sol, por manter a mágica de sua origem, mesmo que cada um traga momentos tao distintos da vida. Jesse e Celine não são mais jovens apaixonados, são adultos vivendo num mundo adulto, onde o peso das responsabilidades da vida tomam proporções completamente diferentes. Falar muito estraga. O grande trunfo são seus diálogos profundos em planos sequências sensacionais nas regiões banhadas pelo Mediterrâneo. Não importa a idade ou a fase que nos encontramos, Antes da Meia Noite nos mostra que alguns sentimentos simplesmente são os mesmos indiferentes a metamorfose do amor. Se mudam, talvez nunca tenham sido reais.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Os 10 melhores filmes de 2012 que você NÃO assistiu

Senhoras e senhores, é com imenso orgulho que eu aprensento a todos vocês queridos poucos leitores, mas seletos, a 5ª lista seguida dos dez melhores filmes de 2012 que você NÃO assistiu. Embora tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido algum desses filmes, é apenas uma brincadeira para divulgar filmes não comerciais de destaque internacional e obras que merecem ser vistas mas não tiveram lá tanto marketing.

E 2012 foi o ano da morte no meu gosto cinematográfico. Quase todos os filmes escolhidos para essa lista tem esse evento como um de seus principais momentos. A novidade é terem entrado países nunca antes imaginados na história dessa lista como África do Sul, Bélgica e Áustria. Uma nota necessária é que os dois filmes orientais presentes esse ano são relativamente mais antigos que o aceitável, mas não poderiam ficar de fora, seu sucesso no ocidente ainda é corrente.

A lista desse ano foi definitivamente mais fácil de fazer do que os anos anteriores. Ainda assim, vale ressaltar que ela é bastante pop, diferente de suas outras edições. Com a velocidade da internet, se os filmes são bons, eles simplesmente fazem sucesso não importa o país ou o quanto foram ocultos (beijo, Filmow). Simplesmente não ficam mais no anonimato. Ainda assim, divirtam-se, foi um prazer escrever!

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2012, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil, foi esse ano.

10º Lugar: Bullhead (Rundskop – Bélgica)
 É impressionante como esse filme mesmo cheio de defeitos é capaz de nos cativar por um único motivo: seu fascinante personagem principal. Jackie Vanmarsenille sofreu um grande trauma na infância, numa cena que por si só já faz valer todo o filme. Por causa disso, ele tem de tomar injeções de testosterona que passam a fazer parte de sua rotina, o que o transformaram num homem forte como um touro, mas agressivo, exausto e impulsivo. Com uma trama não linear recheada de flashbacks, Bullhead sofre da falta de identidade, não se sabe se é um filme sobre uma história pessoal, ou um filme sobre a máfia dos anabolizantes para animais de corte de carne (há uma abordagem policial de fato que conduz o filme). Ficamos intrigados com Jackie, e o filme consegue sim passar a premissa de que “o homem é o meio que vive”. Jackie é diferente de todos os homens, isso o fere, o destrói por dentro, mas também destrói quem está no seu caminho mesmo quando ele tenta concertar sua vida, inclusive o telespectador.

9º Lugar: Um Verão Escaldante (Un Ete Brulant – França)
 Há poucos exemplos de nouvelle vague vivos hoje em dia. O cinema de Philippe Garrel é um desses poucos exemplos e um dos poucos bons. Em seu trabalho com Um Verão Escaldante, temos um filme que tem seu deslize como uma pintura que está sendo formada pincelada por pincelada. O filme é, claro, um contraponto ao cinema moderno, com plano sequências mais longos, foco nos diálogos e sentimentos, ações e reações, sem parecer um roteiro pré-definido, como se a história estivesse correndo em tempo real, como se víssemos algo que esta acontecendo agora, não algo que foi filmado. No filme temos o fim do relacionamento entre uma atriz (Angéle) e seu marido (Frédéric), um pintor que tem nela a inspiração para seu trabalho e vida, narrado sob o ponto de vista de um amigo do casal, com quem convivem durante uma temporada de verão na Itália. Parece bobo, mas não é. O foco da nouvelle vague sempre foram relacionamentos e a influencia dos meios nele. Embalados com a música e os cenários lindos, mesmo que fechados, temos uma pintura bidimensional que se move, junto com notável autorreflexão sobre a própria criação artística.

8º Lugar: Breathing (Atmen – Aústria)
 Roman Kogler tem 18 anos e está preso em um centro de detenção juvenil por ter matado um homem. O filme tem o grande feito de pegar um tema pesado e dar a ele uma delicadeza textual, que também é mérito da excelente interpretação de seu ator principal, o que eu duvido que ele teria conquistado sem aqueles lindos olhos azuis. Roman esta em liberdade incondicional tentando se ajustar conseguindo um emprego, mas a verdade é que Roman é inajustável, ele parece não ter vontade de viver, de mudar, de respirar. No necrotério de Viena, Roman começa a se organizar, ate se deparar com o cadáver de uma mulher morta que leva o nome de sua família. A descoberta leva o rapaz a se interrogar sobre seu passado pela primeira vez e a iniciar uma busca por sua mãe. Com belas cenas, Breathing é um mergulho a uma realidade fria de que nem todos nasceram pra ser especiais, únicos, essenciais ao mundo. Muita vida é banal. Mas até uma vida banal pode sofrer um baque tão grande, que esse rótulo pode ser perder ao menos para si mesmo e assim dar valor a própria respiração.

7º Lugar: Going Down in La La Land (mesmo título – EUA)
 Baseado no romance de Andy Zeffer, Going Down in LA-LA Land é um olhar sobre o lado mais gay de Hollywood. Embora muito romantizado e explicitando pouco a crueldade do meio, mergulhamos no mundo da pornografia, prostituição, drogas, mentiras e como as amizades certas podem nos sustentar e nos manter, tudo isso com um toque de humor divertido e um erotismo no nível certo. Adam chega a Los Angeles, terra das estrelas e sua pretensão é ser uma. Não consegue! Então, como um jovem belo e desejado, mas completamente sem dinheiro, começa a trilhar o caminho mais baixo daqueles que querem ser amados, adorados e idolatrados a qualquer custo. Em sua trajetória começa a fazer filmes pornôs e se prostituir. E é nesse ponto que o filme se sobressai, mostrando de uma forma não caricata esse mundo. É enquanto Adam percorre esse lado que o filme tem seus melhores momentos. Ele passa a desandar quando o rapaz se envolve no mundo das celebridades e Adam passa a ter um romance com um grande ator de novelas que vive no “armário”. As cenas finais parecem ate não condizer com o filme tendo em vista o romance que surge e toma tons clichês parecido com Uma Linda Mulher. Going Down é um conto que reflete a nossa cultura obcecada por celebridades e a era do entretenimento, onde todos os prazeres também possuem um preço, principalmente na terra de Hollywood.

6º Lugar: Three Extremes (三更2 – China, Coréia do Sul e Japão)
 É difícil fazer terror hoje em dia. Com a violência gratuita vendida pela TV e a falta de ideias originais para o gênero, tudo fica meio monótono, sem diferencial e pra piorar, não assusta. A obra trinacional Three Extremes é uma pequena pérola no meio desse mar de ostras vazias, com um terror mais psicológico e subliminar. Reunindo três diretores, o primeiro filme Dumplings (o melhor dos três), é o ‘terror da atitude’, conta como a obsessão de uma mulher com a estética contra o envelhecimento a faz ser influenciada pelos cuidados e elixires da juventude eterna fabricados por uma curandeira a base de fetos. O segundo filme Cult (do aclamado Park Chan-wook) é o ‘terror do desespero’, uma história de ciúmes e vingança que coloca um cineasta em um dilema que irá mudar sua vida depois que um louco sequestra ele e sua esposa e o obriga a jogar um jogo cruel, sádico com um final surpreendente. O terceiro (mais fraco, mas ainda bom) é Box, o ‘terror da culpa’, conta a história de uma jovem escritora, atormentada pela morte da irmã gêmea quando criança no circo em que viviam com o padastro. Os três são muito bons e saem um pouco do parâmetro de que terror oriental tem que ser feito na base dos espíritos malignos. Com temas polêmicos como pedofilia, aborto e canibalismo, Three Extremes mostra que o bom dos filmes de terror atuais é um ataque sutil sobre o nosso psicológico. Não causam realmente medo ou pânico, mas argumentam muitíssimo bem suas duas horas de duração.

5º Lugar: Beauty (Skoonheid – África do Sul)
Quando se termina Skoonheid, fica um gosto amargo na boca, um desprezo, uma vontade de vomitar de nojo. Nos anos que se discute tanto a aceitação gay em todo o mundo, esse filme leva a discussão pra outros aspectos, como a pressão de não poder se assumir gay nem para si mesmo e as consequências disso para a vida a longo prazo. Na obra, François, um homem casado, pai de 2 filhas, tem de lidar com a atração sentida por outros homens e o conflito que o sentimento desperta nele. É aquele tipo que fala mal dos gays, diz que odeia gays, faz questão de manter uma pose preconceituosa para se auto afirmar, mas na realidade vive uma perturbação mental. No casamento de sua filha, encontra-se com Christian, seu belo e jovem sobrinho que namora uma de suas filhas, e a atração que sente por ele logo torna-se obsessão doentia. François é frustrado sexualmente, educado no preconceito contra gays e negros, e o filme discute de modo geral como se desdobra este preconceito. Os temas são a repreensão sexual daqueles que não podem se assumir gays e a força da cultura africana branca do “varrer para de baixo do tapete”. Tem dois momentos “chocantes”, a “orgia gay da terceira idade” e um outro que não vale a pena dizer para não estragar. De fato, Skoonheid é indigesto, e por isso se torna um exemplo de porque o preconceito tem que realmente ser combatido.

4º Lugar: Memories of Matsuko (嫌われ松子の一生 – Japão)
E se o caminho da felicidade plena não envolver a felicidade? Como um dos filmes mais aclamados dos últimos tempos no Japão, Memories of Matsuko nos faz questionar isso, de que o sacrifício é o único caminho da plenitude. Baseado no romance de Muñeki Yamada, o longa foi considerado uma mistura de Amelie Poulain + Dançando no Escuro, o que é injusto, pois é muito superior aos dois. O ótimo diretor Tetsuya Nakashima nos conta a história fascinante de sua personagem título, Matsuko. Na verdade a história é contada por Shou, um jovem músico que vive uma decadência forte em Tóquio dominado pelo álcool e pornografia, até o dia que seu pai pediu para limpar o apartamento de sua tia, assassinada aos 53 anos. Começa então um mergulho por uma vida que parece ter sido só mais uma, quando na verdade é uma das mais surpreendentes que presenciamos, uma história tão profunda, que nos desperta as mais conflitantes situações. Drama, comédia , suspense, animação, musical e tantos outros gêneros são encontrados nessa obra épica. E aos poucos que a história se aprofunda, vamos mergulhando num mundo romântico e triste, difícil de resistir. Matsuko morreu e viveu no anonimato, como muitos outros, mas é justamente o legado de sua vida que fez a diferença, como tantos poucos.

3º Lugar: Shame (mesmo título – Reino Unido)
Quando Sissy canta New York, New York no restaurante onde se apresenta, seu irmão, Brandon, termina a apresentação com uma lágrima no rosto. Nós também. A incrível sequência de seis minutos é um dos momentos mais poéticos do filme. É como uma rosa no meio de um grande lixão, embora Shame tenha o feito de fazer com que todo o lixão também seja atraente da mesma forma como a rosa. Brandon sofre de erotomania, um distúrbio psicológico que gera compulsão pelo ato sexual. E o problema ocupa uma parte gigante de sua vida, buscando mulheres no metrô, tendo o computador cheio de pornografia no trabalho, masturbando-se em banheiros públicos, no chuveiro, contratando prostitutas, as vezes até transando com homens. Mas é um sexo vazio, sem sentimentos, com a visível necessidade de uma satisfação que não podemos presenciar, que apenas o personagem pode sentir, mas que notavelmente não lhe traz felicidade. Shame não vem discutir o distúrbio, vem discutir o personagem, que tem a vida abalada quando a irmã reaparece e vê seu problema piorar. O filme foi criticado por parecer que “pouco acontece” na tela. Injusto. Acontece muito. Mas é um filme sem respostas. Poucas respostas do presente, quase nenhuma resposta do passado (afinal, o que aconteceu entre os dois irmãos?) e sem respostas do futuro (talvez nada seja realmente resolvido). O maior feito de Shame então? Justamente desejar que queiramos essas respostas, mas não nos importarmos em ficar sem elas.

2º Lugar: Amor (Amour – França)
Existe uma máxima da auto ajuda de Facebook que diz “Hoje em dia as pessoas tratam relacionamentos assim: ao invés de tentar concertar, querem logo trocar por um novo”. Tem também aquela deliciosa música que sussurra “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Amour me fez lembrar dessas duas frases durante o longo momento de reflexão que me fez ter. Georges e Anne são um casal de aposentados que costumava dar aulas de música. Mesmo com uma filha distante, os dois levam uma vida feliz a dois, se amando bastante mesmo após muito tempo juntos. Eles vivem um para o outro. Até que certo dia, Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo paralisado. Ambos passam então a ter que conviver com o começo do fim. Não sei se é exagero da minha parte, mas de todos os filmes que assisti, esse foi justamente o que me pareceu o mais irreal de todos. Talvez porque eu ainda seja jovem e amor sempre me pareceu uma coisa com data de validade. Mas esse filme não, ele retrata o amor como algo absurdamente profundo. Num nível que eu talvez demore uma vida para entender. O arrebatador filme nos faz mergulhar na dificuldade que é a solidão, no desespero da morte, no medo de perdermos as pilastras daquilo que sustenta nossas vidas. Se passando inteiramente dentro de um apartamento, tem uma estética bela como apenas o cinema francês é capaz de causar. Não é apenas uma histórica sobre um casal de velhinhos cujo esposo cuida da esposa adoecida (atuações assombrosas de tão boas). É mais um filme sobre ritos de passagem, só que o rito de passagem final. É o esforço do prolongamento da vida, a luta, a derrota e a aceitação. Falar mais estraga as surpresas e sensações. Mas é uma obra tocante, que nos faz frear um pouco a velocidade de pensamento quase da luz que temos hoje e raciocinar um pouco sobre o que queremos de verdade para nossas vidas.

1º Lugar: O Abrigo (The Divide – EUA)
Nunca tivemos um fascínio tão grande pelo fim do mundo como nos últimos anos. O apocalipse de várias formas tem moldado nossa imaginação. E os filmes do gênero se destacam imensamente, principalmente por suas produções, grandes cenários, histórias épicas e efeitos especiais. Não é o caso de O Abrigo e é esse seu diferencial, um viés diferente do apocalipse, que faz com que ele se sobressaia bastante aos tantos outros do estilo. Durante uma visível terceira guerra mundial, Nova York recebe um ataque nuclear. Num prédio residencial, sete pessoas e uma criança conseguem se refugiar no porão junto ao zelador, que já se preparava para o possível ataque, mas não para ter que se isolar com mais pessoas. Ficar nesse espaço é a única forma de se manter alheio as conseqüências dessa catástrofe, como a radiação, mas outro problema surge: como conviver em harmonia sem alimento, água ou qualquer tipo de estrutura num grupo de pessoas tão diferentes e algumas perigosas? É aí que o filme se torna incrível, explorando o limite racional dos seres humanos. Todos os atores estão absurdamente bem na tela com atuações que enchem os olhos e o roteiro tem tantas viradas que suas quase duas horas passam muito rápido. A medida que as coisas vão piorando tudo passa a desandar rápido, ainda mais depois de uma visita rápida dos “inimigos”. No terço final, tudo já esta tão desesperador e imprevisível que começamos a entregar nas mãos de Deus e nos preocupar unicamente com o destino da “mocinha”. O final? As atitudes no desfecho e seu encerramento são surpreendentes num nível alto e que joga um choque de realidade: Se o mundo um dia acabar ou por guerra, ataque zumbi, profecia religiosa, qualquer motivo, não haverá nada de fascinante nisso.