segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Os 10 melhores filmes de 2016 que você NÃO assistiu

Mais um ano se passa e com ele um legado cinematográfico de qualidade marcante fica. Este ano, “os 10 melhores filmes que você Não assistiu” traz uma lista especial, pouco sortida em países e alguns até bem pop, mas com uma série de obras que realmente valem a pena serem vistas.

O único país estreante na lista é a Rússia, que hilariamente está com um filme em inglês. E embora seja os Estados Unidos o país com maior número de indicações este ano, é a Coréia do Sul que emplacou duas obras no pódio.

Ah, e vale a pena lembrar que o post não passa de uma brincadeira para trocar experiências sobre filmes não muito badalados pelo mundo.
Do mais, espero que curtam!

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2016, mas né, eu só assisti agora. 

10º lugar: Hardcore: Missão Extrema (Hardcore Henry – Rússia)
Financiado coletivamente e com alguns problemas para o lançamento, Hardcore Henry é uma experiência cinematográfica no mínimo diferente. A começar por ser todo em primeira pessoa, sob a perspectiva de um protagonista que não fala simplesmente nada. Pense no filme como um jogo de vídeo game. Um homem acorda sem memória num laboratório e descobre que seu corpo foi modificado para se tornar um ciborgue por sua própria namorada. Quando um grupo paramilitar (liderado por um cartunesco vilão com poderes telecinéticos) invade as instalações e sequestra sua garota, o protagonista começa a viver momentos completamente bizarros como as fases de um jogo, onde muita violência é alternada com momentos de uma história completamente sem noção e... absurdamente divertida. Por isso é um filmaço. Ele não exige nada da gente e nem se propõe a ser uma maravilha sobre a terra, cumprindo muito bem o papel de simplesmente entreter.

9º lugar: Green Room (mesmo título – EUA)
Marcado como um dos últimos filmes do ator Anton Yelchin (que morreu esmagado em um acidente bizarro), Green Room primeiro desagrada, para só depois de um certo tempo passarmos a gostar da ideia que ele nos traz. É um filme de terror, mas que não se enquadra nos conceitos atuais com entidades sobrenaturais ou assassinos psicopatas. Green Room é um filme de terror porque seu vilão é a ideologia de medo, e disse todos nós podemos ser vítimas. Uma banda de punk formada por jovens está em fim de turnê pela estrada, quando é contratada para tocar num evento de neonazistas. O problema vem quando, no improvisado camarim com luz esverdeada, a banda presencia um crime. A partir daí começa um jogo de gato e rato violento, cruel, frio... O filme sabe como criar um clima de tensão crescente, tanto que demora a apresentar Patrick Stewart (em atuação espetacular) como o vilão monstruoso e, o pior de tudo, como um vilão absurdamente real.

8º lugar: Kingsglave – Final Fantasy XV (mesmo título – Japão)
Ao levar dez anos produzindo o jogo Final Fantasy XV, a produtora Square Enix decidiu que como parte da ação de marketing, lançaria um filme em animação que funcionaria como prelúdio do jogo. E que ação de marketing... Kingsglaive: Final Fantasy XV é uma fantasia em ficção científica, nos apresentando um mundo em guerra. Com dois reinos em conflito há muito tempo, apenas um deles é capaz de usar a magia dos cristais, enquanto o outro aprimorou sua tecnologia militar. Quando o rei Lucius se vê obrigado a aceitar um tratado de paz com o Império de Niflheim, é a guarda Kingsglaive a responsável para que tudo saia certo. Infelizmente, Niflheim possui outros planos envolvendo caos e destruição. Sim, a trama é longa e confusa mesmo, mas prestando atenção a coisa flui de forma bela. Falando em beleza, poucas animações são tão exuberantes. Talvez a Square tenha nos presenteado com o melhor filme em animação até hoje. E o elenco de dublagem americana conta com Aaron Paul, Sean Bean e Lena Headey.

7º lugar: Hush – A Morte Ouve (Hush – EUA)
Hush é um daqueles casos magníficos no cinema em que com menos se faz mais. Sem inovar em absolutamente nada, temos aqui a história de Maddie, uma escritora que se isola em uma cabana no meio da floresta para tentar escrever seu novo romance. Numa noite, prestes a encerrar o livro, Maddie é surpreendida por um homem que a faz prisioneira em sua própria casa com um único e cruel objetivo: mata-la simplesmente por diversão. Ah, para deixar a situação ainda mais complicada, Maddie é surda muda. No hall dos filmes em que mulheres são protagonista, Hush se destaca muito com sua personagem, que mesmo aterrorizada pela situação a enfrenta com força e perspicácia. Inteligente, Maddie faz o possível para sobreviver, enquanto seu algoz perde pontos ao achar que devido a limitação da vítima, sua morte lhe daria pouco trabalho. Hush também é emocionante. À medida que vamos nos encantando com a protagonista, queremos apenas que ela sobreviva. A conversa que ela tem consigo mesma nos momentos finais e a mensagem escrita no computador chegam a marejar os olhos. Um filme de sobrevivência, mas acima de tudo, de garra.

6º lugar: Southbound (mesmo título – EUA)
Sendo uma antologia de terror apresentando cinco contos interligados, Southbound foi uma das maiores surpresas do ano no gênero. Cinco histórias diferentes cuja maior ligação entre elas é a estrada que os personagens cruzam durante os acontecimentos. E embora cada história comece exatamente quando termina a anterior, não ache que terá aqui um filme didático, com todos os suspenses explicados e respostas claras. A coletânea indie abre um universo de explicações para o universo extremamente sombrio do filme, mas são os segundo e terceiro contos os mais impressionantes, com destaque para o do hospital abandonado, cuja proposta soa melancólica e diabólica. O final também é bastante aberto, mesmo que encerre o ciclo de forma extremamente satisfatória junto a uma estrada que ninguém deveria cruzar.

5º lugar: Yakuza Apocalypse (Gokudō Daisensō – Japão)
Que o diretor Takashi Miike gosta de bizarrices e surrealismo, isso é um fato, mas o nível do que ele nos entrega em Yakuza Apocalypse beira o insano. A começar porque é simplesmente impossível definir o gênero pelo qual o filme transborda. Temos aqui um conto de terror vampiresco, com criminalidade da máfia japonesa, junto a doses certeiras de comédia e kung fu. Numa vila controlada pela máfia, mas em grande harmonia com seu respeitado líder, as coisas mudam de figura com a chegada de um cartel inimigo. Kagayama, o guarda-costas do líder, não consegue salvá-lo, mas é na morte que ele descobre que o chefe é um vampiro e dá uma mordida no pescoço do jovem com o objetivo de transformá-lo no novo líder do cartel. O problema é que o rapaz não se deu muito bem com os poderes novos e... bem... bebeu o sangue de todo mundo da vila, transformando todos em membros da Yakuza. Ainda assim, o outro cartel não mede esforços para dar um jeito em Kagayama, invocando inclusive um mestre das artes marciais. Não importa o nível de nosense, é um filme extremamente bem dirigido e produzido, rico em detalhes capazes de nos tirar os mais diferentes tipos de emoção, até mesmo a raiva em seu (mais uma vez) bizarro final.

4º lugar: Kill Your Friends (mesmo título – Reino Unido)
Quando eu comecei a assistir Kill Your Friends, meio veio na cabeça logo o clássico Psicopata Americano. De fato, há uma estranha semelhança entre os filmes, mas à medida que Kill Your Friends cresce (e cresce muito, diga-se de passagem), a obra assume um tom gritante único. A história gira em torno de Steven, um produtor musical nos anos 90 que busca emplacar novos sucessos comerciais e assim crescer dentro da empresa. Tudo tranquilo se Steven não fosse um psicopata, maníaco, filho da puta, cretino e matado seu colega de trabalho logo no começo do filme na tentativa de conseguir uma promoção. O desenrolar do filme é simplesmente espantoso. Por vezes achamos que ele perderá força, mas sempre acontece o contrário. Steven se vê perseguido pela polícia, sua subalterna na empresa e, principalmente, pela música. O elenco está simplesmente sensacional, mas é Nicholas Hoult quem rouba a cena em uma atuação visceral, de um personagem que se comporta como uma fênix, independente da falta total de caráter.

3º lugar: Invasão Zumbi (Train to Busan – Coréia do Sul)
Difícil essa lista não ter pelo menos um filme de zumbi e esse é o da vez. Mas não se engane, Invasão Zumbi (que nome horrível para o Brasil) se destaca fácil como um dos melhores (talvez o melhor) filme de zumbis da década. Quando um pai decide viajar de trem com a pequena filha, ninguém contava que uma infecção zumbi se espalharia de forma incrivelmente rápida por toda a Coréia. Não há simplesmente nada de inovador no gênero aqui. O que temos é uma história muito bem contada e amarrada com os passageiros do trem sendo obrigados a enfrentar uma batalha sem precedentes se quiserem viver. Train to Busan tem personagens carismáticos, cenas de carnificina espetaculares (mesmo sem mostrar nenhuma tripa), reviravoltas sensacionais e até um vilão inesperado. Mas o que decide se um filme de zumbis é bom sempre será o que ele traz no campo das relações humanas e é nisso que este se destaca, porque o pior e o melhor do ser humano vêm nas catástrofes.

2º lugar: Demônio de Neon (The Neon Demon – EUA)
Numa época em que os padrões de beleza nunca foram tão discutidos e ao mesmo tempo tão idolatrados, Demônio de Neon nos traz a questão: seria a beleza perfeita alcançável? Um dos fatos mais interessantes sobre este filme é que você irá ou amá-lo ou odiá-lo pelos mesmos motivos. Na trama, somos apresentados a jovem Jesse, dona de uma beleza tão monumental, tão insuperável, que as portas de tudo se abrem para ela. De fato, temos aqui a velha e boa fábula da garota do interior inocente, que à medida que o mundo cai aos seus pés, vai se tornando outra pessoa. Mas o mesmo mundo que a ama é o mesmo mundo que a inveja e a deseja, fazendo do filme uma dura e visceral crítica aos padrões que nos são impostos. Particularmente, achei o filme uma obra prima. A trilha sonora causa uma imersão profunda, a fotografia é exuberante e seu ritmo, mesmo muito lento, é fluído. As atuações de todas as mulheres são hipnotizantes, enquanto os homens não passam de fracos coadjuvantes (inclusive um coadjuvante de luxo no caso de Keanu Reeves). Mas Elle Fanning não ganhou o papel principal à toa. Sua beleza é quase poética. E seu discurso à beira da piscina vazia é de longe o momento mais impressionante do filme, antes de seu aterrorizante final e o surgimento de um novo questionamento: Até aonde você seria capaz de ir para ser bela? Afinal, Demônio de Neon é uma prova de que o mundo da beleza é de fato o maior roteiro de horror que nossa sociedade produziu.

1º lugar: The Handmaiden (Agassi – Coréia do Sul)
É difícil para qualquer filme competir nos melhores do ano pra mim quando há o lançamento de uma obra de Park Chan-wook. E com este a regra não diverge. Esteticamente sublime, com um roteiro que você não está preparado para encarar e atuações monumentais, essa obra de 145 minutos te envolve tanto a ponto de querer começar de novo assim que termina-la. Dividido em três atos, The Handmaiden se passa numa pobre Coréia durante a ocupação japonesa. Sook-hee, uma jovem que vive de pequenos golpes com a família, aceita participar do grande plano do trambiqueiro Count Fujiwara de roubar a fortuna da japonesa Hideko, guardada a sete chaves por seu doentio tio. O plano funciona até que Sook percebe que está se apaixonando por Hideko e uma reviravolta monumental acontecer no romance entre as duas garotas. É um filme imersivo. A complexidade de seus personagens nos envolve muito na trama. A história também é recheada de um erotismo tanto atraente, ao focar no romance entre as duas protagonistas, como repulsivo, na figura do tio controlador que usa Hideko em leituras vulgares para magnatas. Não consigo dizer se é o melhor filme de Park Chan-wook, mas ao terminar The Handmaiden, fiquei com um sentimento grandioso no peito, refletido numa única palavra durante a passagem dos créditos finais: “Uau”.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Os 10 melhores filmes de 2015 que você NÃO assistiu

Demorou, mas saiu! A lista dos melhores filmes de 2015 que você NÃO assistiu está bem acessível esse ano, com obras que fizeram razoável sucesso mesmo fora de circuito e até uma superprodução. O único país estreante da lista esse ano é a Áustria, todos os outros são velhos conhecidos e vale a pena lembrar que o post não passa de uma brincadeira para trocar experiências sobre filmes não muito badalados pelo mundo.
Do mais, divirtam-se!

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2015, mas né, eu só assisti agora.

10º lugar: [REC] 4: Apocalipse ([REC] 4: Apocalypse – Espanha)
Depois da bosta que foi REC 3: Gênesis (sério, esse filme é muito ruim, evitem), os fãs do terror de zumbis espanhol (que ganhou ate uma fraca versão americana) voltaram suas atenções para Apocalipse, a verdadeira continuação da parte 2. E embora não tenha sido lá essas coisas, ao menos nos entregaram uma conclusão razoável. O filme volta a retratar os acontecimentos de Angela Vidal, que terminou sua participação em [REC] 2: Possuídos de uma forma bastante peculiar, garantindo assim, um gancho emocionante para uma sequência que teria tudo para fechar a história da franquia com chave de ouro. Se passando num navio cargueiro carregado de cientistas e soldados que garantam que nada de errado aconteça e a infecção zumbi volte a se espalhar, o filme tem umas sacadas ótimas. O ambiente claustrofóbico e medonho do navio é ótimo para as tomadas por si só, as cenas de ação são boas mesmo, mas a falta de reviravoltas e um clímax bem pouco empolgante botaram muito a perder. REC 4 vale a pena para os fãs terem uma conclusão e satisfaz, mas fica o gostinho de que acabaram mal algo que tinha muito potencial.

9º lugar: Saint Laurent (França)
A cinebiografia do estilista francês (segunda a tentar algum feito, tendo em vista que a primeira quis abraçar o mundo com as pernas e não conseguiu) foca a conturbada relação amorosa entre o artista e Pierre Bergé, “marido” e administrador de sua carreira. Com a diferença de que Saint-Laurent nasceu para subir, e Bergé para preparar a escada, a coisa fica mais pesada quando Jacques de Bascher (Louis Garrel) se torna amante do estilista, fazendo-o mergulhar em sua fase mais depreciativa, explodindo em casos de drogas, promiscuidade e quase levando ao fim o império da marca. Gaspard Ulliel está fascinante como YSL, assim como todo o elenco principal. E embora cheia de grandes nomes, o mundo da moda possui poucos revolucionários e Yves foi um deles, com uma história de vida e profissional grandiosa. Ainda assim o filme não consegue transmitir bem tudo isso. Ao focar apenas em uma parte de sua vida, nos faz perder o “começo” real. O filme brilha, mas não tanto quanto aquele que lhe deu vida.

8º lugar: Pasolini (França/Itália/Bélgica)
No dia de sua morte, Pasolini passa suas últimas horas com sua amada mãe e mais tarde com os seus amigos mais queridos, antes de finalmente sair para a noite em seu Alfa Romeo em busca de aventuras sexuais com os garotos que vendem seus corpos na Cidade Eterna. Ao amanhecer, Pasolini é encontrado morto em uma praia em Ostia, na periferia da cidade. Isso é Pasolini, filme que mistura os acontecimentos reais dos últimos momentos do polêmico diretor italiano com ficção baseada em suas ideias. É um filme curto, mas que gera um deleite sobre a criação do anarquista imaginário que gerou um de meus filmes favoritos: Salò ou Os 120 Dias de Sodoma. Willem Dafoe está magnânimo no papel, não entendo como passou batido por premiações.

7º lugar: A Centopeia Humana 3 (The Human Centipede 3: Final Sequence – EUA)
Gore, completamente sem sentido, machista, depreciativo, nojento e ainda assim divertidíssimo. A Centopeia Humana 3 joga pro alto a tentativa de ser um filme de terror sério e indigesto que tentou no capítulo 2 e aposta num gore de comédia em sua parte final. Na trama, o diretor de um grande presídio Bill Boss (Dieter Laser, excelente) precisa lidar com problemas como rebeliões, rotatividade e a falta de reconhecimento do governador (Eric Roberts, que só deus sabe porque aceitou esse papel). Vendo que Boss não tem nenhuma perspectiva de resolver esses problemas, Dwight (Laurence R. Harvey), seu braço-direito, surge com uma ideia capaz de revolucionar o sistema penitenciário americano: a criação de uma centopeia humana de 500 pessoas. O filme tem alguns pontos interessantes a serem notados, principalmente em como usa metalinguagem, já que em seu universo o 1 e 2 são realmente filmes que irão inspirá-los e o diretor do filme aparece como... diretor do filme. Sim, Tom Six aparece como diretor dos primeiros filmes e compartilha com o administrador penitenciário a ideia para botar em prática. É bizarro!

6º lugar: Mommy (Canadá)
Xavier Dolan criou uma legião de fãs ao lidar com problemas atuais, mas saindo dos óbvios, de uma juventude moderna. Com Eu Matei Minha Mãe e Amores Imaginários, trouxe fábulas que encantaram os jovens com visões romantizadas sobre situações em que se identificavam. E ao quebrar essa fórmula em Mommy, ele mesmo, sem parecer, se reinventa e traz seu mais belo e maduro filme. Se em Eu Matei Minha Mãe tínhamos a visão do jovem homossexual que não era aceito pela mãe, agora em Mommy a visão vem da mãe de um jovem rapaz que sofre de bipolaridade. É dramático, intenso, conflituoso e belo. Na trama, Die (Anne Dorval) diz que nunca vai abrir mão de cuidar de seu filho adolescente, Steve (Antoine-Olivier Pilon), mesmo que os acessos de fúria dele encontrem combustível no temperamento igualmente curto da mãe. O filme é todo projetado em janela 1:1, quadrada, com exceção de duas cenas (uma delas belíssima), o que dá um charme único típico das obras de Dolan. Tudo na tela é forte, até os momentos de felicidade do trio de protagonistas (a vizinha acaba fazendo parte). E mesmo com um ar amedrontador para o espectador de "isso vai dar merda uma hora ou outra", Dolan consegue a mágica de nos fazer respirar aliviados quando tudo terminar.

5º lugar: O Expresso do Amanhã (Snowpiercer – Coréia do Sul/EUA)

Muito se tentou que o cinema oriental de fantasia convergisse com produção ocidental. E acreditem, é um desafio. Tanto que O Expresso do Amanhã é o que mais chega perto disso. Aliás, com direção coreana, produção americana e baseada em uma HQ francesa, é um dos elementos pops mais viajados que eu já vi. E é sensacional. Após um experimento para tentar controlar o aquecimento global, a Terra foi congelada e tudo fora do trem Perfuraneve morreu. Porém, o trem é autossuficiente, dá a a volta ao redor do mundo e gera energia, mas dentro dele as castas criadas pelo capitalismo continuam existindo. Os ricos e poderosos moram na ponta com todas as suas vantagens possíveis, os pobres e miseráveis no fundo, onde se alimentam porcamente e vez ou outra tem suas crianças roubadas. O resultado inevitável? Revolução. Com os debates cada vez mais acirrados no mundo sobre divisão de classes, mesmo Snowpiercer sendo uma obra de fantasia absurda, ele nos leva a reflexão de se colocar no lugar do outro. Mas são seus elementos pops orientais que mais me fascinaram, como a cena épica que precede a luta ao entrar num túnel. O final completamente inesperado e pessimista e a atuação atraente de Chris Evans e Tilda Swinton completam o poder de atração do filme.

4º lugar: Perseguição Virtual (Open Windows – EUA)
Muitos filmes procuraram aplicar o diferencial de usar aquilo que faz parte do mundo das pessoas reais para serem feitos. Eu lembro de anúncios de filmes feitos apenas com a câmera do celular e bem... a maioria é uma droga mesmo. Mas esse não. Esse é épico. Com um título medíocre no Brasil, Open Windows é um filme que busca ser documental e consegue na sua forma mais inesperada. Todas as imagens vem dos equipamentos usados pelos protagonistas. Desde as câmeras dos notebooks e celulares, até de carros, segurança ou simplesmente câmeras de mãos. A história de Nick, fã da atriz Jill, que acha que ganhou uma promoção para conhecê-la, mas na verdade cai numa teia diabólica de psicopatia e luta de hackers, parece simples e repulsiva a princípio, mas é divertidíssima, principalmente pela quantidade absurda de reviravoltas. É um experimentalismo sobre uma fórmula já batida, que nasceu com A Bruxa de Blair e aqui toma outros níveis.

3º lugar: Corrente do Mal (It Follows – EUA)
It Follows poderia terminar o ano como um dos mais brilhantes filmes de terror da década. Poderia... A premissa, a fotografia, a trilha sonora mínima e pontual com sintetizadores, o medo real que ele nos transmite, principalmente assistindo sozinho num quarto escuro... Tudo isso é incrível. E embora a ideia de uma jovem que é amaldiçoada após o sexo com uma entidade maligna que irá caçá-la para mata-la - se ela não transmitir a outra pessoa - pareça mais um teen movie de terror (Deus, como A Forca e Unfriended são horríveis), It Follows tem um porte único, elegância, produção caprichada e no fim se torna uma metáfora sobre o fim da inocência. O filme também bebe obviamente de fontes japonesas como O Chamado, afinal temos aqui uma maldição sem fim e sem sensação de esperança. Poderia ser perfeito... mas da metade pro final quebra uma magia danada ao tornar a entidade em algo “físico, mas invisível” e seu ápice é broxante, embora retome para um desfecho muito satisfatório. Vale a pena, ficará um tempo na sua memória lhe perturbando, mas dificilmente lhe marcará como um clássico.

2º lugar: O Predestinado (Predestination – Austrália)
Uma das ficções mais sensacionais que tive o prazer de assistir nesta vida, Predestination é pra pegar o seu cérebro e transformar num polenguinho. Na trama, que se revelar muito estraga, o ator Ethan Hawke vive um agente que viaja no tempo para garantir que grandes crimes não aconteçam. Em sua última missão, o agente deve perseguir o único criminoso temporal que continua foragido, o Detonador Sussurrante (olha que nome maravilhoso pra um vilão, com um nome desse não tem como o filme ser ruim). Ainda assim, sua última missão é mais complicada por necessitar que Hawke coloque pingos finais nas mudanças temporais que fez, precisando se encontrar inicialmente com um jovem no bar que carrega um grande sentimento de vingança dentro de si. Integra o elenco ainda Sarah Snook, que embora uma atriz novata, leva seu papel com capacidade de nos fazer se emocionar e surtar. O final também é pra fazer ficar sem ar.

1º lugar: Goodnight Mommy (Ich seh, ich she – Áustria)
Com a necessidade de reinvenção do terror no início do século, um novo estilo passou a ser o verdadeiro criador de mitos no gênero: o psicológico. Suas ramificações passaram então a ser infinitas se levarmos em consideração mentes geniais que souberam explorar esse estilo, por vezes ainda usando o sobrenatural (Os Outros), ou não (Martyrs). Goodnight Mommy segue essa cartilha e acerta brilhantemente. Comparado injustamente ao australiano The Babadook por ser um terror em família, o filme austríaco envereda por uma ramificação muito mais pesada, sombria e, principalmente, angustiante. No filme, os gêmeos Lukas e Elias estão simplesmente sozinhos numa bela casa de campo esperando sua mãe, Suzanne, retornar de uma cirurgia plástica na face. Com o retorno da mãe e um comportamento inesperado, os gêmeos levantam uma dúvida perturbadora: talvez aquela não seja sua mãe. Não se deve falar do desenrolar aqui. O filme é curto e cheio de surpresas, embelezado por paisagens nubladas e atuações brilhantes. Não espere sustos, medo ou terror como antigamente. Se prepare para ficar preso na cadeira, apertando o encosto e com bastante angústia e receio pelo caminho que o filme traça. No fim, Goodnight Mommy é um terror “minimamente real” por tratar em parte do abandono familiar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Os 10 melhores filmes de 2014 que você NÃO assistiu



A lista desse ano deveria na verdade se chamar “os 10 melhores filmes que eu assisti em 2014 e você não”, porque sendo bem sincero, tem obras datadas de lançamento em 2013, 2012 e... 2011. Para os de 2012 e 2013 eu tenho até a desculpa de que no Brasil eles estiveram disponíveis apenas este ano para apreciação fora de circuitos (acreditem, não é fácil encontrar alguns filmes na internet e você precisa de paciência de Jedi pra ter uma boa cópia legendada). Já esse de 2011 foi resultado de notável lapso por ele ser bem desconhecido mesmo. 

Esse ano temos países estreantes na lista como Austrália, Grécia, Marrocos (é, naveguei pelos árabes) e Holanda. Mas não deu outra, mais uma vez os japoneses ficaram no pódio (e olha que nem teve Evangelion em 2014). 

Embora a lista tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido alguns. É apenas uma brincadeira para falar sobre filmes não tão comerciais de destaque e obras que merecem ser vistas, mas não tiveram lá tanto marketing. Ademais, espero que apreciem, curtam, critiquem e compartilhem. A lista dá um trabalhão pra fazer, mas um prazer enorme. 

10° lugar: O Babadook (The Babadook – Austrália) 

Película presente em diversos festivais de terror e com estreia em circuito restrito no Brasil, The Babadook é notavelmente um filme de pouco orçamento, mas feito com muita boa vontade. Na trama, Amalie leva uma vida problemática ao lado do filho hiperativo Samuel. É mais difícil para ela porque o filho é “responsável” pela morte do marido num acidente de carro enquanto ele a levava para dar a luz. A princípio parece clichê: ao ler um livro para o filho, Amalie se vê envolvida num terror psicológico em que não sabe definir se esta enlouquecendo ou se a entidade Babadook é real. E esse jogo que vai para o espectador é a melhor parte, porque o filme se torna imprevisível e prende a atenção para sabermos o que realmente está acontecendo. Esse terror é real afinal de contas? Destaque para a atuação do jovem Noah Wiseman, que é natural e nada forçada. 

9° lugar: O Garoto que Comia Alpiste (To agori troei to fagito tou pouliou – Grécia)

Filme altamente introspectivo, O Garoto que Comia Alpiste é uma autocrítica a um país que está à beira da falência apresentada através da vida do jovem Yorgos, que funciona como uma alegoria da crise financeira de toda a Europa. Yorgos é uma das facetas da depressão. Desempregado, sem família, amigos ou amores, está completamente fora de círculos sociais. Ele se alimenta do lixo dos outros e aos poucos vamos observando ele perder o pouco que ainda tem. O filme é quase um monólogo, são cerca de apenas 15 diálogos, não é para um grande público, mas é brilhante. A atuação assombrosa de seu protagonista causa uma imersão na catástrofe que é sua vida pessoal, que não possui nem mesmo uma perspectiva de melhora, nem meramente a de sobrevivência. É um filme que retrata a absoluta miséria e a falta de esperança em uma geração inteira de jovens europeus.

8° lugar: O Teorema Zero (The Zero Theorem – EUA) 

Ficção científica capaz de dar um nó no cérebro, O Teorema Zero, filme do mesmo diretor de Os 12 Macacos, não é para nos conectar com o presente (como a maioria das ficções científicas), mas com a religião. Qohen Leth é um operário modelo da Mancom, corporação que "dá sentido às coisas boas da vida". Mas Qohen vive atormentado à espera do Chamado, um telefonema que supostamente lhe dirá o sentido de SUA vida. Procurado pelo Comando da Mancom para desvendar o projeto Teorema Zero, o programador recebe, em troca, a promessa de ter seus dilemas existenciais respondidos. Mais que uma crítica genial a busca desenfreada pela felicidade plena e a infelicidade que isso gera no caminho, a distopia tem um trabalho de direção de arte e metáforas bizarras. Afinal, é um futuro, mas no trabalho se usam joysticks de Atari, o fruto proibido do paraíso é na verdade Mélanie Thierry com roupas bem justinhas e Deus nos vigia através de câmeras GoPro.

7° lugar: Coldwater (EUA)

Há poucas informações disponíveis acerca do filme Coldwater. O que se sabe é que a primeira versão do roteiro data de 1999, quando o roteirista Vincent Grashaw terminava o ensino médio. Talvez seja por isso que num primeiro olhar a ideia do acampamento de detenção para jovens problemáticos seja difícil de ser aceita hoje, mas era bem mais comum há pouco mais de uma década nos EUA. No filme, após uma série de eventos trágicos, o jovem Brad é internado pelos próprios pais em uma espécie de prisão juvenil isolada da civilização, chamada Coldwater. No local, ele sofre diversas agressões dos colegas e dos responsáveis pela direção, e começa a planejar a sua fuga. O filme parece fraco até que a fuga em si acontece e Brad fracassa, depois a obra toma um novo rumo quando Brad se vê fazendo parte do sistema que ele tanto quis estar longe. Coldwater é sobre jogos psicológicos, sobre situações de bater ou apanhar, sobreviver ou morrer. É sobre situações extremistas em que é impossível estar em cima do muro e a decisão certa é essencial, mesmo que ela não seja levada pela racionalidade. Com um final surpreendente, o filme é um pequeno achado acerca de como afinal devemos tratar os jovens que a própria sociedade torna em monstros para depois rejeitar. 

6° lugar: Rock the Casbah (Marrocos)

Quem conhece meu gosto cinematográfico sabe que eu adoro dramalhões familiares. Rock the Casbah não é exatamente o melhor deles. Aliás, é uma comédia agridoce bastante clichezenta, mas com um diferencial incontestável: mostra uma ponte de conflitos entre a tradicional cultura árabe e o processo de ocidentalização que países mais “liberais” como o Marrocos andam sofrendo. É uma mistureba doida: um filho contestador; a avó boazinha que apoia o rebelde; os pobres em confronto com os ricos; o filho bastardo; e até a velha história do irmão que se relaciona com uma mulher sem saber que, na verdade, ela é a sua própria irmã. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo devido a morte do patriarca da família, que obrigou a reunião de todos os seus parentes, inclusive a filha que foi embora para os EUA e que sofre tentando ser atriz, só conseguindo papéis de terrorista (e é dela a perspectiva que temos). Fotografia e cenografia bonitas. Música bem escolhida. Durante um passeio com um velho Mustang admirando a cidade, toca uma música brasileira. Rock the Casbah tem pequenos momentos deliciosos para admirar um mundo que não é o nosso. Peca imensamente em tentar nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo. Não consegue. Mas ainda assim nos deixa exatamente no meio da ponte. 

5° lugar: O Pacto (Horns – EUA)

Primeira adaptação de um livro de Joe Hill, O Pacto não é um filme excelente, caindo nos velhos problemas de adaptações, mas tem uma ideia original e sensacional. O filme narra a história de Ig Perrish, que vivia feliz com a namorada, até ela ser morta e ele ser considerado o único suspeito. Determinado, Ig fará de tudo para saber quem é o verdadeiro assassino, até mesmo usar seu belo par de chifres que nasceu DO NADA em sua cabeça após, revoltado, mijar numa santa, lhe dando incríveis poderes de persuasão e controle. Na verdade os chifres são capazes de fazer com que pessoa fale a verdade e é daí que vem os melhores atos do filme, ao mesmo tempo que pensamos: “Jesus, não existe ninguém que não seja desprezível nessa cidade?”. Eu não sei se ia querer aqueles chifres. Ainda assim, o diretor não soube usar a temática ao seu favor, transformando o filme inteiro em uma investigação no começo confusa, depois previsível e com soluções fáceis. Ainda assim foi a melhor atuação do Daniel Radcliffe.

4° lugar: Garotos (Jongens – Holanda)

Quando me perguntaram por que eu achei o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho mais ou menos, a resposta é Jongens. Não gosto de criticar tendo que comparar, mas seguindo a temática da autodescoberta, a verdade é que o holandês é muito mais cativante que o brazuca. Temos a história de Sieger, um garoto de 15 anos que descobre o amor durante os intensos treinos de atletismo. Ele entra para o time de corrida, quando conhece o intrigante e imprevisível Marc. A amizade que se desenvolve não parece nada fora do comum, mas Sieger secretamente tem sentimentos mais fortes para Marc. Ele se envolve numa luta solitária, quando descobre que Marc também é apaixonado por ele e a rejeição aos próprios sentimentos aos poucos precisa ser superada (aliás, o Marc sabe muito bem o que quer e acaba levando a pior por se apaixonar por um Sieger confuso, mas ainda assim segue determinado). É só isso mesmo, simples, mas muito tocante, principalmente pela atuação bastante intensa dos garotos em si. O filme não se passa na cidade grande, mas sim no campo, o que gera um diferencial pelas belas paisagens e takes envolventes, ao mesmo tempo que sabemos que a diversidade sexual é uma coisa que nunca funciona muito bem fora dos grandes centros. 

3° lugar: Vidas ao Vento (Kaze Tachinu – Japão)

É difícil imaginar que o mestre da magia e fantasia japonesa, Hayao Miyazaki, que produziu A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado, tenha feito Vidas ao Vento, que mesmo sendo uma animação é um filme absurdamente adulto, romântico, mas acima de tudo, poético. Aqui temos a cinebiografia de Jiro Horikoshi, o designer que criou o famoso avião de combate japonês Mitsubishi A6M Zero, um dos mais mortíferos usados na Segunda Guerra Mundial, o que devastou Pearl Habor. E não se engane, Jiro criou um monstro, mas ele não era um monstro. Apaixonado pela aviação desde criança, ele foi responsável por tirar o Japão de um atraso de 20 anos no setor, mas o filme não foca essencialmente nisso, é sim uma fábula sobre superação, aceitação e acreditar no amor pleno, quando ao conhecer a mulher de sua vida, Jiro vive o dilema de que ela terá uma morte eminente. Tudo nesse filme é belíssimo e o resultado final é o mesmo de qualquer filme de Hayao: arrebatador.

2° lugar: Romeos (Alemanha)

Poucos filmes foram capazes de abordar o transexualismo de uma maneira tão leve e direta. A priori, é necessário entender que identidade de gênero não é a mesma coisa que identidade sexual. E Romeos vai na ferida do que é entender essa diferença. Lukas tem 20 anos e encontra-se na fase de mudanças bioquimicamente induzidas do feminino para o masculino – Lukas é um garoto trans –, mas os problemas começam quando no serviço cívico obrigatório ele tem que ficar no alojamento das meninas. E isso o filme retrata bem: ser transexual significa estar sempre preso no ambiente social errado. Para uma vida mais confusa, Lukas é apresentado pela amiga Ine ao gay atrevido, valente e muito atraente Fabio, por quem se apaixona. O filme tem apenas 94 minutos e é recheado de pequenas pérolas ousadas, como ver Lukas masculinizado, mas ainda com os seios fartos, ou quando ele ouve de Ine “Se era pra você se interessar por um rapaz, não precisava virar um”. Romeos propõe um olhar invulgar sobre o tema dos trans, e com humor e alguma ousadia procura quebrar convenções estabelecidas sobre estes indivíduos.

1° lugar: Lesson Of The Evil (Aku no kyôten – Japão)

Quando o assunto é filmes de chacinas, violência que só parece gratuita e vingança, o Japão definitivamente está anos luz a frente do resto do mundo. Lesson of the Evil é um desses exemplos simplesmente sensacionais. Na trama, Hasumi é o professor mais popular da escola, faz sucesso entre os alunos com sua maneira de lidar com as situações adversas, conquistando a confiança inclusive da maioria do corpo docente. No desenrolar da trama, vamos conhecendo a fundo Hasumi e suas reais intenções: a cada ato nobre do professor, existe um interesse obscuro. Suas ações acabam por despertar a desconfiança de um professor de física e alguns alunos, porém Hasumi não hesitará em tirar do caminho quem ousar atrapalhar seu “plano”. É um filme diabólico, que pega um psicopata como protagonista e o eleva ao máximo do que pode ser “tirado” de um. E embora tenha um número gigantesco de personagens, todos são muito bem aproveitados na medida do possível. Para quem gosta de violência gráfica sem censura, o filme é um prato cheio. E os toques de humor negro e ironia presentes na obra são pra encher os olhos de quem gosta de contar esse tipo de situação. O ato final de Lesson Of The Evil, quando o professor coloca seu real plano em prática é longo, sensacional e para os fãs do gênero, não desperta o desejo por acabar. Na verdade o filme é poderoso por gerar um sentimento dúbio: Esse não é um daqueles filmes de terror adolescente em que queremos os jovens mortos pela falta de empatia, ao mesmo tempo que queremos saber o que realmente vai acontecer alí e para isso é necessário que o plano se concretize. O diretor, Takashi Miike, definitivamente está escrevendo seu nome na história do cinema.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os 10 melhores filmes de 2013 que você NÃO assistiu



Amantes de cinema do meu Brasil, é com felicidade (e atraso) que compartilho a 6ª lista seguida dos dez melhores filmes de 2013 que você NÃO assistiu. Embora tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido alguns. É apenas uma brincadeira para falar sobre filmes não tão comerciais de destaque e obras que merecem ser vistas, mas não tiveram lá tanto marketing.

2013 foi um ano bom para o cinema não blockbuster que tomou um fôlego novo, principalmente com o boca a boca das redes sociais. A novidade é terem entrado países nunca antes mencionados aqui como Chile, Holanda e Dinamarca. Filmes orientais também estão presentes, aliás, o cinema oriental só tem surpreendido.

Uma lista que esse ano foi fácil e gostosa de fazer, cheia de retoques. Com recursos como Filmow e IMDB, filme bom hoje em dia não fica mais no anonimato.  Divirtam-se, foi um prazer escrever cada linha!

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2012, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil foi esse ano.

10° lugar: Queda Livre (Freier Fall – Alemanha)

Não é exatamente um filme bom. Seu roteiro inconstante não faz com que seja dos mais carismáticos e nem sempre a química do casal convence. Ainda assim, esse romance gay alemão tem algo de tocante. Quando o recém graduado policial Marc acha que sua vida está perfeita, feliz no trabalho, casado e esperando o primeiro filho, as coisas tomam um novo rumo quando se aprofunda num relacionamento com seu colega de academia, Kay. Não é preciso muito pra adivinhar o quanto o romance dos dois será auto destrutivo. Não basta a cabeça de Marc virar de pernas pro ar, Kay está bem convencido do que quer e que vai lutar pelo que ama. É um filme questionador do ponto de vista de relacionamentos, sua complexidade, aquilo que achamos certo e aquilo que realmente queremos. No fim, Marc criou uma prisão para si mesmo e a única coisa que poderia lhe dar a liberdade é justamente aquilo que ele mais passou a ter medo.

9° lugar: Boven is het stil (mesmo título - Holanda)

É um filme contemplador, o que no mundo cinematográfico quer dizer: não acontece muita coisa. E não acontece mesmo, ainda assim nos faz se questionar bastante. Como o filme tem seu significado apresentado pelo todo, não vale falar muito, mas essa produção holandesa nos faz mergulhar na vida de Helmer, que vive uma vida desagradável numa fazenda. Seu pai está doente e não sai da cama, sendo Helmer responsável por dar banho, comida, limpar suas imundícies e o manter na cama, com um detalhe: eles se odeiam. Helmer é grosseiro, reservado e não consegue dialogar com ninguém. Ele traz no rosto a própria imagem de amargura, reclusão e de um sofrimento que parece que não vai acabar nunca. O filme retrata esse aspecto e possibilidade de Helmer mudar, mas para isso irá precisar de muito mais que querer, ele precisará se livrar de pesos que talvez nem ele reconheça quais são.

8° lugar: Doomsday Book (인류멸망보고서 – Coréia do Sul)

A coletânea coreana de três filmes retrata de diferentes formas o que seria o fim do mundo. Mas não se engane, embora os diretores Kim Jee-woon e Yim Pil-Sung tenham feito obras interessantes, apenas uma realmente vale a pena, o segundo episódio: Heavenly Creature. A mais profunda das três partes, o média metragem é uma mistura da filosofia budista com um futuro distorcido onde uma grande corporação robótica se torna tão poderosa quanto o governo e influencia na vida e nos costumes de toda a população. Esteticamente, mesmo com pouquíssimos cenários, o filme é belo e a fotografia funcional. Na trama, o robô In-Myung deixa de ser um ajudante do templo e passa a ser um monge. Fascinados com o nível de consciência adquirido pelo robô, os outros monges o consideram o próprio Buda. Quando a corporação robótica descobre, um problema surge. A cada cena em que o robô In-Myung aparece, existem elementos da caminhada em busca da iluminação espiritual. Da flor de lótus, a diagramas, textos e o Buda Iluminado, vários símbolos são usados como contraponto em meio aos cenários. O questionamento é um só: a iluminação de deus só existe para os seres humanos ou isso é capaz de ir muito além?

7° lugar: Segredos de Sangue (Stoker – Estados Unidos) 

Quando Park Chan-wook foi convidado a realizar seu primeiro filme hollywoodiano, o mundo tremeu. E não tremeu tão desmerecidamente assim. Stoker é intrigante, charmoso, chega a ser fascinante. Mas a sensação de que falta algo permeia o filme o tempo todo. Para Park, sexo e sangue estão relacionados a ritos de passagem. E Mia é uma jovem que após a estranha morte do pai e o aparecimento de um tio até então desconhecido, irá passar por todo um ciclo de mudanças junto ao homem tão misterioso. O filme transita por gêneros, do terror ao suspense e o erotismo. A presença de Nicole Kidman como a mãe de mente perdida de Mia também ajuda muito. É belo e nos prende do começo ao fim, mas quando os mistérios são resolvidos, a impressão que dá é que mesmo esteticamente irrefutável, seria uma trama melhor se passada na Coréia do Sul mesmo.

6° lugar: Adeus, minha rainha (Les adieux à la Reine – França)

Superprodução francesa de época, Adeus, Minha Rainha é mais um filme a tentar nos levar a mente daquela que foi a mais intrigante personagem monárquica que o mundo ocidental produziu: Maria Antonieta. Diferente dos outros, temos aqui uma rainha mais real, apresentada pelo ponto de vista de sua criada, Sidonie. Começando exatamente um dia antes da queda da Bastilha, o filme mostra de forma magistral o desespero e os acontecimentos que tomaram conta da corte francesa no período seguinte. Sidonie é apaixonada por Maria Antonieta, a idolatra, a ponto de não ver a real face da doentia e descontrolada rainha. É apenas quando o romance da rainha com a duquesa Gabrielle de Polignac fica evidente, que Sidonie passa a fazer parte de um jogo cruel, que mostra de forma sutil como a falta de moral levou toda a corte francesa a uma derrocada que eles mesmos nunca foram capazes de prever. Filme de valor histórico sensacional.

5° lugar: Um Estranho no Lago (L'inconnu du lac – França)

Aclamado na França, chegando a ser considerado o filme do ano, Um Estranho no Lago é intrigante, mas primeiramente merece uma atenção: se mesmo não tendo nada contra a homossexualidade você não se sente a vontade vendo sexo gay, não o assista. O sexo entre homens é o elemento norteador desse thriller a moda antiga com tons hiticockianos. Na trama somos apresentados a Franck, um rapaz que assim como diversos outros homens se dirige a um belo lago no verão não apenas para se banhar, mas para conseguir sexo fácil, a famosa “pegação”. Ao se interessar perdidamente por um outro homem, passa a observá-lo ate presenciar um assassinato. Mas o que deveria ser um rumo natural para a situação toma outra forma quando Franck começa a se relacionar com o assassino. Filme a moda antiga, mistura o voyeur e o suspense. Há uma tensão considerável em sua maior parte, mas o final pode ser bastante frustrante. Uma experiência cinematográfica realmente diferente, como só os franceses são capazes de proporcionar.

4° lugar: A Caça (Jagten - Dinamarca)

Existe uma máxima de que crianças não mentem. Mentira! Crianças mentem sim. Seja por medo, por culpa, até mesmo por maldade, ou por mera inocência. O sensacional A Caça fala disso, como uma mentira inocente contada por uma criança é capaz de afundar completamente a vida de um ser humano. Na trama, um respeitadíssimo professor de jardim da infância de uma pequena comunidade tem sua vida virada do avesso quando Klara, uma menina de 8 anos, filha de seu melhor amigo, confunde seus sentimentos pelo professor e resolve repetir à diretora da escolinha uma frase que ouviu dos irmãos - algo que coloca a cidade inteira contra o professor, que é acusado gravemente de ter abusado sexualmente da menininha. É um filme angustiante. Com fotografia, roteiro e atuações surpreendentes, acompanhamos esse caso perturbador, quando mesmo sabendo da inocência do acusado, vemos seu mundo desmoronar, seu filho se perturbar, seus amigos odiá-lo e apenas uma certeza: mesmo que ele se livre da acuação, as marcas ficarão para sempre. É um filme crescente. Seus momentos finais (a cena na igreja, a caça em si) são de ficar sem ar. Porque o mundo se tornou imune ao impacto visual da violência por causa da mídia, mas a pedofilia não, nossas crianças são sagradas e o crime será sempre um dos mais condenáveis, mesmo que elas mintam.

3° lugar: Traga-me a cabeça da mulher metralhadora (Tráiganme la cabeza de la mujer metralleta – Chile)

Sou um apaixonado pelo estilo grindhouse. Quem me conhece sabe disso. E como o estilo não é mais produzido, sobram as homenagens. Pra piorar, a grande promessa do ano, Machete Kills, foi um grande fiasco. Mas é do Chile que vem um dos filmes mais divertidos de 2013, esse sim uma verdadeira homenagem ao grindhouse. O filme conta a história de DJ, o azarado músico que estava no lugar errado, na hora errada, quando se vê obrigado a caçar a Mulher Metralhadora, maior assassina de aluguel do país, que prometeu matar o maior gangster do país, que por ventura é o chefe do DJ e ex marido da própria Mulher Metralhadora. Engraçado como poucos que eu vi esse ano, o filme é tosco, bizarro, cheio de personagens caricatos, roteiro pífio e atuações exageradas. Ou seja, só amor. Há uma série de referências também e a mais marcante é ao jogo GTA, com o filme roubando caracteres e o sistema de missões.

2° lugar: Evangelion 3.3 – You can (not) redo (ヱヴァンゲリヲン新劇場版Q – Japão)

É difícil demais falar desse filme sem ter que se relatar a seu legado homérico de mais de 20 anos de criação e que existe até hoje. Terceiro filme do remake (?) da série original, essa obra prima japonesa teve um ano de atraso em seu lançamento, mas só de lembrar, perco o ar. Depois do mega impactante 2.0, 3.0 nos traz um mundo completamente diferente de tudo o que imaginávamos, 14 anos após os acontecimentos do último filme, num planeta quase morto devido a um Impacto pela metade. Todos estão diferentes, menos Shinji, que precisou desse tempo todo para ter seu corpo reconstituído. Não importa a dezena de novos personagens, é um filme precisamente focado em Shinji, pois o mundo mudou, ele não. E esse conflito de mudanças tão drásticas destrói Shinji por dentro de maneira crescente, até ele encontrar conforto e esperança no único que lhe estendeu a mão, Kaworu, aquele que todos nós sabemos ser na verdade Tabris, o anjo do livre arbítrio. E não importa as intenções divergentes de todos ali, 3.0 é um jogo, o mais cruel de todos, planejado e arquitetado por alguém que deseja tanto uma ressureição, que é capaz de matar o planeta inteiro por isso, inclusive seu próprio filho. Um filme perturbador para quem entende do universo de Evangelion, que nos faz descobrir que nem a redenção é o suficiente para a salvação.  

1° lugar: Antes da Meia Noite (Before Midnight – Estados Unidos)

Há cerca de 20 anos, jovens românticos de todo o mundo foram maravilhados pelo romance Antes do Amanhecer. A trajetória do casal que se conhece em um trem durante uma eurotrip e em 24 horas vive uma belíssima história de amor inspirou centenas de jovens a procurarem o mesmo nas estações de trens europeus. Alguns anos depois o casal se reencontra no divergente Antes do Por do Sol, num belo reencontro lírico de pessoas que se amaram como nunca antes por apenas um dia e passaram anos sem se ver e saber nada um do outro. Antes da Meia Noite é a conclusão da trilogia desse casal, que agora encontramos casados e com gêmeas de sete anos. Passando férias na Grécia junto a um grupo de amigos entre escritores e poetas, o filme é um marco assim como Antes do Por do Sol, por manter a mágica de sua origem, mesmo que cada um traga momentos tao distintos da vida. Jesse e Celine não são mais jovens apaixonados, são adultos vivendo num mundo adulto, onde o peso das responsabilidades da vida tomam proporções completamente diferentes. Falar muito estraga. O grande trunfo são seus diálogos profundos em planos sequências sensacionais nas regiões banhadas pelo Mediterrâneo. Não importa a idade ou a fase que nos encontramos, Antes da Meia Noite nos mostra que alguns sentimentos simplesmente são os mesmos indiferentes a metamorfose do amor. Se mudam, talvez nunca tenham sido reais.