quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Os 10 melhores filmes de 2012 que você NÃO assistiu

Senhoras e senhores, é com imenso orgulho que eu aprensento a todos vocês queridos poucos leitores, mas seletos, a 5ª lista seguida dos dez melhores filmes de 2012 que você NÃO assistiu. Embora tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido algum desses filmes, é apenas uma brincadeira para divulgar filmes não comerciais de destaque internacional e obras que merecem ser vistas mas não tiveram lá tanto marketing.

E 2012 foi o ano da morte no meu gosto cinematográfico. Quase todos os filmes escolhidos para essa lista tem esse evento como um de seus principais momentos. A novidade é terem entrado países nunca antes imaginados na história dessa lista como África do Sul, Bélgica e Áustria. Uma nota necessária é que os dois filmes orientais presentes esse ano são relativamente mais antigos que o aceitável, mas não poderiam ficar de fora, seu sucesso no ocidente ainda é corrente.

A lista desse ano foi definitivamente mais fácil de fazer do que os anos anteriores. Ainda assim, vale ressaltar que ela é bastante pop, diferente de suas outras edições. Com a velocidade da internet, se os filmes são bons, eles simplesmente fazem sucesso não importa o país ou o quanto foram ocultos (beijo, Filmow). Simplesmente não ficam mais no anonimato. Ainda assim, divirtam-se, foi um prazer escrever!

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2012, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil, foi esse ano.

10º Lugar: Bullhead (Rundskop – Bélgica)
 É impressionante como esse filme mesmo cheio de defeitos é capaz de nos cativar por um único motivo: seu fascinante personagem principal. Jackie Vanmarsenille sofreu um grande trauma na infância, numa cena que por si só já faz valer todo o filme. Por causa disso, ele tem de tomar injeções de testosterona que passam a fazer parte de sua rotina, o que o transformaram num homem forte como um touro, mas agressivo, exausto e impulsivo. Com uma trama não linear recheada de flashbacks, Bullhead sofre da falta de identidade, não se sabe se é um filme sobre uma história pessoal, ou um filme sobre a máfia dos anabolizantes para animais de corte de carne (há uma abordagem policial de fato que conduz o filme). Ficamos intrigados com Jackie, e o filme consegue sim passar a premissa de que “o homem é o meio que vive”. Jackie é diferente de todos os homens, isso o fere, o destrói por dentro, mas também destrói quem está no seu caminho mesmo quando ele tenta concertar sua vida, inclusive o telespectador.

9º Lugar: Um Verão Escaldante (Un Ete Brulant – França)
 Há poucos exemplos de nouvelle vague vivos hoje em dia. O cinema de Philippe Garrel é um desses poucos exemplos e um dos poucos bons. Em seu trabalho com Um Verão Escaldante, temos um filme que tem seu deslize como uma pintura que está sendo formada pincelada por pincelada. O filme é, claro, um contraponto ao cinema moderno, com plano sequências mais longos, foco nos diálogos e sentimentos, ações e reações, sem parecer um roteiro pré-definido, como se a história estivesse correndo em tempo real, como se víssemos algo que esta acontecendo agora, não algo que foi filmado. No filme temos o fim do relacionamento entre uma atriz (Angéle) e seu marido (Frédéric), um pintor que tem nela a inspiração para seu trabalho e vida, narrado sob o ponto de vista de um amigo do casal, com quem convivem durante uma temporada de verão na Itália. Parece bobo, mas não é. O foco da nouvelle vague sempre foram relacionamentos e a influencia dos meios nele. Embalados com a música e os cenários lindos, mesmo que fechados, temos uma pintura bidimensional que se move, junto com notável autorreflexão sobre a própria criação artística.

8º Lugar: Breathing (Atmen – Aústria)
 Roman Kogler tem 18 anos e está preso em um centro de detenção juvenil por ter matado um homem. O filme tem o grande feito de pegar um tema pesado e dar a ele uma delicadeza textual, que também é mérito da excelente interpretação de seu ator principal, o que eu duvido que ele teria conquistado sem aqueles lindos olhos azuis. Roman esta em liberdade incondicional tentando se ajustar conseguindo um emprego, mas a verdade é que Roman é inajustável, ele parece não ter vontade de viver, de mudar, de respirar. No necrotério de Viena, Roman começa a se organizar, ate se deparar com o cadáver de uma mulher morta que leva o nome de sua família. A descoberta leva o rapaz a se interrogar sobre seu passado pela primeira vez e a iniciar uma busca por sua mãe. Com belas cenas, Breathing é um mergulho a uma realidade fria de que nem todos nasceram pra ser especiais, únicos, essenciais ao mundo. Muita vida é banal. Mas até uma vida banal pode sofrer um baque tão grande, que esse rótulo pode ser perder ao menos para si mesmo e assim dar valor a própria respiração.

7º Lugar: Going Down in La La Land (mesmo título – EUA)
 Baseado no romance de Andy Zeffer, Going Down in LA-LA Land é um olhar sobre o lado mais gay de Hollywood. Embora muito romantizado e explicitando pouco a crueldade do meio, mergulhamos no mundo da pornografia, prostituição, drogas, mentiras e como as amizades certas podem nos sustentar e nos manter, tudo isso com um toque de humor divertido e um erotismo no nível certo. Adam chega a Los Angeles, terra das estrelas e sua pretensão é ser uma. Não consegue! Então, como um jovem belo e desejado, mas completamente sem dinheiro, começa a trilhar o caminho mais baixo daqueles que querem ser amados, adorados e idolatrados a qualquer custo. Em sua trajetória começa a fazer filmes pornôs e se prostituir. E é nesse ponto que o filme se sobressai, mostrando de uma forma não caricata esse mundo. É enquanto Adam percorre esse lado que o filme tem seus melhores momentos. Ele passa a desandar quando o rapaz se envolve no mundo das celebridades e Adam passa a ter um romance com um grande ator de novelas que vive no “armário”. As cenas finais parecem ate não condizer com o filme tendo em vista o romance que surge e toma tons clichês parecido com Uma Linda Mulher. Going Down é um conto que reflete a nossa cultura obcecada por celebridades e a era do entretenimento, onde todos os prazeres também possuem um preço, principalmente na terra de Hollywood.

6º Lugar: Three Extremes (三更2 – China, Coréia do Sul e Japão)
 É difícil fazer terror hoje em dia. Com a violência gratuita vendida pela TV e a falta de ideias originais para o gênero, tudo fica meio monótono, sem diferencial e pra piorar, não assusta. A obra trinacional Three Extremes é uma pequena pérola no meio desse mar de ostras vazias, com um terror mais psicológico e subliminar. Reunindo três diretores, o primeiro filme Dumplings (o melhor dos três), é o ‘terror da atitude’, conta como a obsessão de uma mulher com a estética contra o envelhecimento a faz ser influenciada pelos cuidados e elixires da juventude eterna fabricados por uma curandeira a base de fetos. O segundo filme Cult (do aclamado Park Chan-wook) é o ‘terror do desespero’, uma história de ciúmes e vingança que coloca um cineasta em um dilema que irá mudar sua vida depois que um louco sequestra ele e sua esposa e o obriga a jogar um jogo cruel, sádico com um final surpreendente. O terceiro (mais fraco, mas ainda bom) é Box, o ‘terror da culpa’, conta a história de uma jovem escritora, atormentada pela morte da irmã gêmea quando criança no circo em que viviam com o padastro. Os três são muito bons e saem um pouco do parâmetro de que terror oriental tem que ser feito na base dos espíritos malignos. Com temas polêmicos como pedofilia, aborto e canibalismo, Three Extremes mostra que o bom dos filmes de terror atuais é um ataque sutil sobre o nosso psicológico. Não causam realmente medo ou pânico, mas argumentam muitíssimo bem suas duas horas de duração.

5º Lugar: Beauty (Skoonheid – África do Sul)
Quando se termina Skoonheid, fica um gosto amargo na boca, um desprezo, uma vontade de vomitar de nojo. Nos anos que se discute tanto a aceitação gay em todo o mundo, esse filme leva a discussão pra outros aspectos, como a pressão de não poder se assumir gay nem para si mesmo e as consequências disso para a vida a longo prazo. Na obra, François, um homem casado, pai de 2 filhas, tem de lidar com a atração sentida por outros homens e o conflito que o sentimento desperta nele. É aquele tipo que fala mal dos gays, diz que odeia gays, faz questão de manter uma pose preconceituosa para se auto afirmar, mas na realidade vive uma perturbação mental. No casamento de sua filha, encontra-se com Christian, seu belo e jovem sobrinho que namora uma de suas filhas, e a atração que sente por ele logo torna-se obsessão doentia. François é frustrado sexualmente, educado no preconceito contra gays e negros, e o filme discute de modo geral como se desdobra este preconceito. Os temas são a repreensão sexual daqueles que não podem se assumir gays e a força da cultura africana branca do “varrer para de baixo do tapete”. Tem dois momentos “chocantes”, a “orgia gay da terceira idade” e um outro que não vale a pena dizer para não estragar. De fato, Skoonheid é indigesto, e por isso se torna um exemplo de porque o preconceito tem que realmente ser combatido.

4º Lugar: Memories of Matsuko (嫌われ松子の一生 – Japão)
E se o caminho da felicidade plena não envolver a felicidade? Como um dos filmes mais aclamados dos últimos tempos no Japão, Memories of Matsuko nos faz questionar isso, de que o sacrifício é o único caminho da plenitude. Baseado no romance de Muñeki Yamada, o longa foi considerado uma mistura de Amelie Poulain + Dançando no Escuro, o que é injusto, pois é muito superior aos dois. O ótimo diretor Tetsuya Nakashima nos conta a história fascinante de sua personagem título, Matsuko. Na verdade a história é contada por Shou, um jovem músico que vive uma decadência forte em Tóquio dominado pelo álcool e pornografia, até o dia que seu pai pediu para limpar o apartamento de sua tia, assassinada aos 53 anos. Começa então um mergulho por uma vida que parece ter sido só mais uma, quando na verdade é uma das mais surpreendentes que presenciamos, uma história tão profunda, que nos desperta as mais conflitantes situações. Drama, comédia , suspense, animação, musical e tantos outros gêneros são encontrados nessa obra épica. E aos poucos que a história se aprofunda, vamos mergulhando num mundo romântico e triste, difícil de resistir. Matsuko morreu e viveu no anonimato, como muitos outros, mas é justamente o legado de sua vida que fez a diferença, como tantos poucos.

3º Lugar: Shame (mesmo título – Reino Unido)
Quando Sissy canta New York, New York no restaurante onde se apresenta, seu irmão, Brandon, termina a apresentação com uma lágrima no rosto. Nós também. A incrível sequência de seis minutos é um dos momentos mais poéticos do filme. É como uma rosa no meio de um grande lixão, embora Shame tenha o feito de fazer com que todo o lixão também seja atraente da mesma forma como a rosa. Brandon sofre de erotomania, um distúrbio psicológico que gera compulsão pelo ato sexual. E o problema ocupa uma parte gigante de sua vida, buscando mulheres no metrô, tendo o computador cheio de pornografia no trabalho, masturbando-se em banheiros públicos, no chuveiro, contratando prostitutas, as vezes até transando com homens. Mas é um sexo vazio, sem sentimentos, com a visível necessidade de uma satisfação que não podemos presenciar, que apenas o personagem pode sentir, mas que notavelmente não lhe traz felicidade. Shame não vem discutir o distúrbio, vem discutir o personagem, que tem a vida abalada quando a irmã reaparece e vê seu problema piorar. O filme foi criticado por parecer que “pouco acontece” na tela. Injusto. Acontece muito. Mas é um filme sem respostas. Poucas respostas do presente, quase nenhuma resposta do passado (afinal, o que aconteceu entre os dois irmãos?) e sem respostas do futuro (talvez nada seja realmente resolvido). O maior feito de Shame então? Justamente desejar que queiramos essas respostas, mas não nos importarmos em ficar sem elas.

2º Lugar: Amor (Amour – França)
Existe uma máxima da auto ajuda de Facebook que diz “Hoje em dia as pessoas tratam relacionamentos assim: ao invés de tentar concertar, querem logo trocar por um novo”. Tem também aquela deliciosa música que sussurra “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Amour me fez lembrar dessas duas frases durante o longo momento de reflexão que me fez ter. Georges e Anne são um casal de aposentados que costumava dar aulas de música. Mesmo com uma filha distante, os dois levam uma vida feliz a dois, se amando bastante mesmo após muito tempo juntos. Eles vivem um para o outro. Até que certo dia, Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo paralisado. Ambos passam então a ter que conviver com o começo do fim. Não sei se é exagero da minha parte, mas de todos os filmes que assisti, esse foi justamente o que me pareceu o mais irreal de todos. Talvez porque eu ainda seja jovem e amor sempre me pareceu uma coisa com data de validade. Mas esse filme não, ele retrata o amor como algo absurdamente profundo. Num nível que eu talvez demore uma vida para entender. O arrebatador filme nos faz mergulhar na dificuldade que é a solidão, no desespero da morte, no medo de perdermos as pilastras daquilo que sustenta nossas vidas. Se passando inteiramente dentro de um apartamento, tem uma estética bela como apenas o cinema francês é capaz de causar. Não é apenas uma histórica sobre um casal de velhinhos cujo esposo cuida da esposa adoecida (atuações assombrosas de tão boas). É mais um filme sobre ritos de passagem, só que o rito de passagem final. É o esforço do prolongamento da vida, a luta, a derrota e a aceitação. Falar mais estraga as surpresas e sensações. Mas é uma obra tocante, que nos faz frear um pouco a velocidade de pensamento quase da luz que temos hoje e raciocinar um pouco sobre o que queremos de verdade para nossas vidas.

1º Lugar: O Abrigo (The Divide – EUA)
Nunca tivemos um fascínio tão grande pelo fim do mundo como nos últimos anos. O apocalipse de várias formas tem moldado nossa imaginação. E os filmes do gênero se destacam imensamente, principalmente por suas produções, grandes cenários, histórias épicas e efeitos especiais. Não é o caso de O Abrigo e é esse seu diferencial, um viés diferente do apocalipse, que faz com que ele se sobressaia bastante aos tantos outros do estilo. Durante uma visível terceira guerra mundial, Nova York recebe um ataque nuclear. Num prédio residencial, sete pessoas e uma criança conseguem se refugiar no porão junto ao zelador, que já se preparava para o possível ataque, mas não para ter que se isolar com mais pessoas. Ficar nesse espaço é a única forma de se manter alheio as conseqüências dessa catástrofe, como a radiação, mas outro problema surge: como conviver em harmonia sem alimento, água ou qualquer tipo de estrutura num grupo de pessoas tão diferentes e algumas perigosas? É aí que o filme se torna incrível, explorando o limite racional dos seres humanos. Todos os atores estão absurdamente bem na tela com atuações que enchem os olhos e o roteiro tem tantas viradas que suas quase duas horas passam muito rápido. A medida que as coisas vão piorando tudo passa a desandar rápido, ainda mais depois de uma visita rápida dos “inimigos”. No terço final, tudo já esta tão desesperador e imprevisível que começamos a entregar nas mãos de Deus e nos preocupar unicamente com o destino da “mocinha”. O final? As atitudes no desfecho e seu encerramento são surpreendentes num nível alto e que joga um choque de realidade: Se o mundo um dia acabar ou por guerra, ataque zumbi, profecia religiosa, qualquer motivo, não haverá nada de fascinante nisso.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Vamos falar de pornografia, mas de um jeito socialmente aceito e classificação Livre


Os novos heróis, por André Dahmer

Aquele que nunca teve contato com a pornografia que atire a primeira VHS da Brasileirinhas. Eu tive, você teve. Querendo ou não, se pararmos pra analisar, a pornografia audiovisual, por exemplo, acaba tendo um papel importante na descoberta sexual da maioria dos jovens principalmente do sexo masculino, devido às “necessidades” que surgem pelo corpo. Nas garotas, embora algumas tenham os mesmos objetivos dos rapazes, a pornografia acaba sendo também uma curiosidade.

Há quem tenha uma verdadeira fascínio pelo mundo da pornografia. E esses podem ser divididos em dois grupos: os mais afoitos (vulgarmente chamados de tarados), e aqueles que realmente encaram a produção como uma forma de arte e liberdade de expressão. E eu realmente tenho uma admiração pela pornografia/erotismo a ponto de pertencer ao segundo grupo.

E existem vários tipos de pornografia. A audiovisual é a mais famosa obviamente, ainda mais pela possibilidade mercadológica atual de se ter pornografia 24 horas por dia, 7 dias por semana, de graça, na internet. Já a literária é a mais “sofisticada”, chamada mais comumente de erótica. E existe aquela diferença drástica de que no audiovisual somos passivos e na literatura somos ativos. No vídeo só estamos vendo e “apreciando”, na literatura somos obrigado a fazer parte. Qual meu tipo favorito? Os dois sem predileção. Mas tenho um interesse um tanto quanto mais raro na visão por trás (ui!) do mundo pornográfico, aquilo que existe junto a um mundo que todos tem contato, mas quase ninguém admite.

Me lembro que quando criança mesmo eu assisti o polêmico filme O Povo Contra Larry Flynt (1996). Na excelente cinebiografia ambientada nos anos 70, temos Larry Flynt, dono de uma boate de strip tease que um dia lendo uma Playboy pensou: “As pessoas não compram essa revista para aprender a fazer martines, mas para ver mulheres nuas”.  Então ele criou a revista Hustler que foi um sucesso, onde expunha pornografia explícita. Resultado: Flynt se tornou um dos homens mais bem sucedidos do mercado editorial dos EUA vendendo aquilo que seu povo mais fingia odiar, pornô.

Obviamente, a história de vida de Flynt se torna mais incrível a partir do momento que ele teve que enfrentar a poderosa sociedade conservadora norte americana e mostrar que pornografia não é colocar homens e mulheres simplesmente fazendo sexo, mas é uma forma de liberdade de expressão. Se nos dias atuais a sociedade norte-americana ainda é vista como uma das mais (falsa) puritanas, imaginem só 40 anos atrás.

Mas ok, Flynt foi o cara e se hoje a indústria norte americana de pornografia rende 50 bilhões de dólares por ano (é muita foda, não?). Temos que dar parte do mérito pra ele, mas e os atores e atrizes? Eu sempre me questionei um pouco a vida de ator pornô e encaremos os fatos, a maioria dos homens ocidentais já se imaginou como um, é um fetiche. O filme Boogie Nights (que no Brasil ganhou o estranho título de Prazer Sem Limites) traz isso, a trajetória de um grupo de atores pornôs nos anos 70 e 80.

Mark Wahlberg, em seu primeiro papel de destaque, interpreta Eddie Addams que, devido ao tamanho avantajado de seu pênis, torna-se a estrela maior dos filmes de Jack Horner (Burt Reynolds), especialista nos chamados “filmes para adultos”. Só por aí já dá pra se mensurar o mérito de Anderson. Em momento algum, o filme faz qualquer gracejo ou lança um olhar nítido de censura sobre o mundo que está retratando. É um retrato dividido, que mistura o lado glamour, dinheiro, drogas e diversão com o mundo decadência, crise de identidade e desrespeito.

Boogie Nights é isso, uma forma de mostrar que escolher ser um ator pornô é na verdade uma profissão como qualquer outra, mas com uma verdade, uma cicatriz que será carregada pra vida inteira.

“Ah, mas você ta falando só de pornografia ficcional”, deve estar se questionando o querido leitor. Bem, indo um pouco pro campo da realidade (e melhor ainda, campo da realidade nacional), o minidocumentário Pornô dos Outros é simplesmente sensacional. Ele reúne alguns dos grandes nomes do pornô nacional em um banho de realidade. Dá pra tirar algumas frases sensacionais como: “Tá ali o iluminador com uma luz quente no seu rabo”, “Ai, foi tão bom apanhar, vocês nem imaginam”. Saca só!


Marcia Imperator (diva), Rogê Ferro, Vivi Fernandez, Victor Gaúcho (suspiro), Kim Mello e Pâmela Butt são um grupo a parte. Eles foram eles de verdade naquilo que fizeram. Fizeram porque precisavam, alguns fizeram porque gostaram, mas eles não querer mudar sua trajetória, não se tornaram pessoas piores ou melhores, e hoje, mesmo a maioria “aposentados” (encaremos os fatos, é uma profissão mais curta que jogador de futebol), estão aí seguindo suas vidas normalmente.

Já o mercado editorial pornográfico foi reaquecido recentemente por um best seller. A trilogia dos Cinquenta Tons de Cinza traz uma garota inocente, cheia de moral e ética que do nada vira o objeto de prazer sadomasoquista e bestial de um jovem sedutor bilionário. Embora válido na questão da libertação do pudor pela busca do prazer, 50 Tons é uma obra de baixo valor literário, que não dignifica de verdade o gênero, não a toa chamado de “Crepúsculo para mulheres de meia idade”.

Para os amantes de uma boa literatura que envolve a pornografia, eu recomendaria o clássico Fanny Hill, também conhecido como "Memórias de uma Mulher de Prazer" (gosto mais desse título). Clássico da literatura erótica, Fanny Hill tem amoralidade latente, fino senso de humor e ironia, e é uma divertida experiência literária cuja narrativa parece brincar com a moral e pensamento burguês de 1800, revelando certos aspectos marginais do Iluminismo. Viram como a chamada “putaria” pode se revelar uma forma de crítica social surpreendente? E vocês aí só imaginando sacanagem...

Outra obra que eu recomendo bastante é Os Sete Minutos, de Irving Wallace. Mas Os Sete não é uma obra realmente erótica, e sim uma grande discussão sobre o valor social e moral das obras eróticas. Com um estilo meio suspense/policial, traz a história de Michael Barret, advogado que assume a defesa de um livro considerado “obsceno” e alvo de um processo de censura por contrariar a lei penal da Califórnia. Pra piorar, um jovem chamado Jerry Griffith, cometeu um estupro supostamente influenciado pela leitura. Assim, estabelece-se a batalha na justiça, com Barret, brigando (em desvantagem, evidentemente) pela livre comercialização do livro. Com várias passagens sexuais e o aumento do suspense em sua parte final, Os Sete Minutos virou uma obra clássica.

Eu poderia parar pra recomendar também o livro Os Sonhos Morrem Primeiro, de Harold Robbins, mas encaremos os fatos, mesmo com forte status, esse foi um livro praticamente 50 Tons de Cinza na época. Embora eu considere a jornada do personagem Gareth pelo submundo obscuro dos prazeres proibidos e pela forma de ganhar dinheiro com pornografia infinitamente superior a obra do momento. Cada geração tem a obra erótica que merece pelo visto, mas me alegra que mesmo com a baixa qualidade, o erotismo/pornografia continua aí, firme e forte, porque se tem uma coisa que nunca sairá de moda entre os seres humanos, essa coisa se chama sexo.

Não, Dahmer, não...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Homenagem é na verdade a desculpa que você usa para ganhar algum lucro sobre algo que já esta consagrado

Pra vocês terem uma ideia, o último filme que eu assisti no cinema foi aquele A Filha do Mal. E eu fico muito feliz que minha mãe tenha pago o ingresso e meu sanduiche no Subway pelo simples fato de querer minha companhia. Sim, eu sou desses que se vende, to quase colocando uma placa nesse blog de: “Vendo opiniões. Preço barato!”, mas esse não é o objetivo desse texto. Enfim, fiquei feliz de não ter tido gastos porque eu odeio ter que gastar dinheiro com algo que eu já sei que não vou gostar e eu acertei em cheio. Mais um filme de exorcismo, mas um filme falso documentário, mais um filme ficcional que tenta vender a imagem de que é real. Enfim, ruim de doer.

Encaremos os fatos: criatividade é algo que anda em baixa hoje em dia quando o assunto é alguns dos elementos da cultura pop. Eu mesmo quase não vou mais ao cinema. Tem sido difícil acompanhar as superproduções tipo blockbuster porque a grande maioria virou uma sopa de mais do mesmo. De fato, a experimentação anda em baixa e o que faz sucesso ou já é algo pré-consagrado (os filmes mais aguardados de 2012 são Os Vingadores, o novo Batman e O Hobbit) ou algo que pega carona no sucesso, tanto faz se com a desculpa de homenagem, paródia ou plágio descarado (existe a produção de um filme bem idiota chamado Poder Sem Limites sobre adolescentes que ganham super poderes e que vão de heróis a bandidos em pouco tempo. Um beijo pra X-men).

E sabe o que mais surpreende hoje em dia? A audácia esta em um lugar que só vem a crescer depois de uma razoável queda: a TV.

A TV precisou se reinventar tanto, que hoje é a melhor produção de conteúdo audiovisual pop da atualidade. E não, nem a internet tem chegado perto do que a TV tem produzido, apenas pirateia seu conteúdo. Supere isso, o congresso americano superou. Ah, e pelo amor de Deus, se você desconfiou que eu to falando da TV brasileira, toma vergonha na cara. Obviamente eu estou falando das séries das TVs americanas e inglesas. Tem muita coisa boa no ar, novidades, mas hoje eu quero falar apenas especificamente de um ponto, de uma homenagem, a um dos personagens mais incríveis da literatura e que existe há mais de um século: Sherlock Holmes.

O personagem criado pelo médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle é famoso mundialmente por ser apenas um grande investigador. Mas é sua personalidade aquilo que sempre mais me atraiu em sua concepção: arrogante, prepotente, frio, insensível e absurdamente genial, o que lhe transforma num alguém fascinante e irritante. E encaremos os fatos, nunca uma obra fora do seu próprio universo literário retratou Sherlock em sua exatidão (ate a famosa frase “Elementar, meu caro Watson”, nunca foi citada em um único livro, ela foi criada no teatro). Porém, um dia, a BBC resolveu produzir uma série para o personagem chamada Sherlock, com um diferencial que era o grande risco de tudo, trazer seus casos para o mundo contemporâneo. E quer saber o mais incrível? Deu certo como ninguém imaginou que iria dar.

A primeira temporada de Sherlock foi exibida pela BBC em julho de 2010, com apenas três episódios de 1h30 cada um. Monstruosamente, a segunda temporada só foi exibida em janeiro de 2012, longos 18 meses de espera. Pessoalmente, foi uma tortura esperar tanto. A superprodução britânica traz Benedict Cumberbatch no papel de um Sherlock tão bem personificado que ficamos entregues a atuação. Mas é a adaptação para os dias contemporâneos das história que mais nos surpreende, principalmente em seus detalhes. Dr. Watson como médico de guerra vindo do Afeganistão: confere. O irmão genial que trabalha para o Ministério da Defesa: confere. A rua, a casa e a locatária: confere. James Moriarty, consultor criminal e terrorista, o primeiro super vilão da literatura ocidental: confere.

Tudo é rondondinho em Sherlock, a trama, as revelações, as ligações, as amarras. Ate as piadas são boas, em particular as que fazem referência a Sherlock e Watson como casal gay. O cinismo do personagem esta sempre claro e chegar a irritar o telespectador. O gimmick envolvendo SMS é bem original, aliás, a paixão pela telefonia móvel é bem nítida pelo personagem. Os momentos forçados, e eles existem aos montes, são compensados pelas maestrias do roteiro e a dinâmica que nos faz precisar usar muita atenção para acompanhar tudo. Nunca considerei nenhuma série perfeita, mas Sherlock beira isso, a melhor já feita para a TV em minha opinião. Vem, deixa sua marca e vai embora, causando uma sede por mais que quase sufoca. A terceira temporada esta confirmada.


Em seus poucos seis episódios, dois são os que mais se destacam: A Scandal in Belgravia e The Reichenbach Fall, que respectivamente falam do caso de Sherlock envolvendo a única mulher que derrotou o detetive, a sensacional Irene Adler, interpretada com louvor por Laura Pulver, e o seguinte sobre o Desafio Final, proposto por Moriarty, que na série foi transformado num antagonista caricato, a versão maligna do próprio Sherlock, tão inteligente quanto doente mental. O final é marcante, pois assim como na literatura, o maior feito de Moriarty não é ser genial, maquiavélico e monstruoso, mas sim usar tudo isso para fazer de Sherlock um patinho e simplesmente superá-lo, a verdadeira queda.

Sherlock nunca foi tão bem homenageado como pela BBC. O mesmo não se pode dizer dos filmes...

O simples fato de Guy Ritchie querer transformar Sherlock Holmes em um super herói de ação que usa pancadaria praticamente o tempo inteiro fez seus dois filmes baseados no personagem darem errado e não foi pouco. O filme é bem mala, feito para divertir, e não usa muito daquilo que é o real potencial do personagem. Aliás, esse Sherlock tenta ser ate cativante e o Watson em questão é menos “passivo” do que o da literatura, já perdeu meu respeito aí. Mero entretenimento para se ganhar dinheiro na bilheteria, não uma homenagem.

Vale lembrar que até o Jô Soares tentou se dar bem com o detetive mais famoso do mundo e escreveu o livro, O Xangô de Baker Street, que é ruim de doer. Seria bom se fosse qualquer outro detetive, mas se apropriar da imagem de Sherlock sem realmente usar essa imagem não deu certo. Completamente surreal essa ideia da vinda de Sherlock e Watson para o Brasil na época do império para resolver um caso e enfrentar grandes inimigos: feijoadas, caipirinhas, vatapás, pais de santo e o poder de sedução das mulatas locais.

Quer um filme maravilhoso de Sherlock Holmes? Assista, O Enigma da Pirâmide que tem todos os ingredientes de uma aventura despretensiosa, divertida e inteligente para o público jovem, diferente das bostas produzidas pra juventudes hoje em dia (e olha que Crepúsculo deixou de ser alvo do meu ódio para mirar em Jogos Vorazes). O filme, uma fantasia que deu certo, mostra como o detetive Sherlock Holmes e o fiel escudeiro Watson teriam se conhecido no colégio interno, quando ambos eram estudantes (coisas que NÃO existe na literatura). Já no primeiro encontro entre eles temos a cena de Holmes dando uma amostra vívida do seu famoso raciocínio lógico, descobrindo não apenas o nome do novo colega de classe, mas também a origem do rapaz, a profissão do pai dele e até os gostos culinários. Uma trama de mistério muito bacana e ambientada belamente na Londres vitoriana com o selo Steven Spielberg de qualidade.


É interessante ver como um personagem de 150 anos ainda mexe tanto com o imaginário popular. Os livros e contos podem parecer um pouco defasados se vistos pela lógica dos dias atuais, mas a capacidade de dedução de Sherlock sempre foi apaixonante e contaminou o mundo, resultando num momento máximo de homenagens, mesmo que algumas sejam simplesmente oportunismo barato... que gera uma boa grana em bilheterias, mas barato do mesmo jeito.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os 10 melhores filmes de 2011 que você NÃO assistiu

E pelo quarto ano consecutivo, esse que vos escreve encerra mais uma temporada (ultra fraca, to pior que Dexter) desse humilde blog, com a tradicional lista dos 10 melhores filmes de 2011 que você na verdade não assistiu. Embora tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido algum desses filmes, é apenas uma brincadeira para divulgar filmes não comerciais de destaque internacional e obras que merecem ser vistas mas não tiveram lá tanto marketing.

E 2011 foi definitivamente o ano do drama. Não to falando do típico drama que se faz no Twitter e Facebook, mas realmente do gênero cinematográfico que era um dos mais caídos nos últimos anos de tão desgastados. Agora, a lista desse ano encabeça simplesmente oito dramas, sendo que a novidade é de pela primeira vez termos uma comédia em quatro anos.

Foi definitivamente um ano fraco para o cinema experimental, obras que ousassem sair dos padrões contemporâneos. Os diretores simplesmente se acomodaram, resolveram apostar no certo e passar longe do duvidoso. Assim, o cinema se perde um pouco mais, mas ainda se encontra, nesse eterno processo de realizações. Foi uma lista difícil de fazer (esta ficando pior a cada ano), portanto, divirtam-se.

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2011, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil, foi esse ano.

10° Lugar: Feliz que minha mãe esta viva (Je suis heureux que ma mère soit vivante – França)
A família é uma estrutura. E como toda estrutura emocional, existem pessoas que não são capazes de suportá-la. Talvez essa seja a premissa de Feliz que minha mãe este viva, filme francês baseado em fatos reais que conta a história de Thomas, jovem abandonado pela mãe, adotado junto com o irmão mais novo por um casal, mas que nunca superou esse trauma. A primeira cena do filme é uma metáfora, temos ali na praia Thomas nadando e o pai adotivo atrás, que não consegue alcança-lo. Será assim a vida inteira. Descontrói-se a história fofinha do amor pelos filhos adotivos, não é bem assim. Thomas é um inconformado e por isso vai atrás de sua mãe verdadeira, ate encontra-la e descobrir que ela é tão inconformada quanto ele, não por ter abandonado os filhos, mas pela vida que sempre teve. É um filme sobre a família, mas é um filme frio. Não porque é ruim, mas a frieza é seu estilo. A única felicidade na vida de Thomas foi descobrir que sua mãe esta viva, mas o que torna o filme inesquecível é justamente o momento em que Thomas percebe que a vida dela é justamente aquilo que prejudica a sua.

9° Lugar: Tarde Demais (Beautiful Boy – Estados Unidos)
Os eventos monstruosos que aconteceram em Columbine, nos Estados Unidos, geraram duas coisas: 1) uma série de novos eventos inspirados no mesmo, e 2) uma série de livros e documentários inspirados no mesmo. No meio da segunda opção encontramos o excelente Tiros em Columbine e o medíocre Elefante. Beatiful Boy segue essa linha de produção, mas de uma ótica diferente. É impossível se manter indiferente nesse filme. Ele escorre tristeza, sem luz no fim do túnel, de seu começo ao fim. A obra pega uma outra linha, como fica a vida do casal Bill e Kate, pais de Sam, garoto que em seu primeiro ano de faculdade entrou no campus, matou 17 pessoas e se matou com um tiro logo depois. O caos passa a reinar na vida do casal, que já se preparava para se separar, e é atingido por um baque sem tamanho. Eles são culpados? Por que o filho fez aquilo? Interessante em Tarde Demais é que essas respostas não são dadas. O filme foca apenas essa desestruturação, essa dor causada. Mais seu ponto alto é justamente mostrar que a tão famosa frase “A vida continua”, que tantos usam para se enganar, nem sempre funciona. Existem eventos que aniquilam qualquer funcionalidade dessa pequena oração, seu filho que você tanto ama matar várias pessoas e se matar logo em seguida é um deles.

8° Lugar: O Barco do Rock (The Boat That Rocked – Inglaterra)
Existe a lenda de que os opostos se atraem, depois aquela de que os dispostos é que se atraem. Balela pros dois. As vezes o que gera amor e liga as pessoas pode ser um único ponto em comum. E no caso de O Barco do Rock, esse ponto é a música. E música muito boa, diga-se de passagem. A história fala-nos das tão famosas rádios piratas da década de 60 na Inglaterra, o melhor do rock britânico, um pouco censuradas pelas rádios da BBC que se limitavam a transmitir duas horas semanais de rock (?). Somos então levados a um barco onde funciona uma destas rádios, com oito DJ’s que se encarregam de espalhar o caos das músicas frenéticas da tão afamada década, e onde um jovem, a ordem da mãe, em consequência de ter sido expulso da escola, se junta a eles e adquire este estilo de vida um pouco libertino, cujo lema era sexo, drogas e rock’n’roll. O sensacional filme junta uma série de situações hilárias e bizarras. É uma comédia, de auto nível. A quantidade de tramas paralelas é de se perder na conta, mas o filme decai ao ser mais longo do que deveria e por seu final um tanto quanto forçado. Mais do que um retrato ficcional de uma época interessantíssima, O Barco do Rock mostra que podemos fazer algo realmente bom e fora dos padrões quando queremos.

7° Lugar: Tomboy (Tomboy – França)
Me surpreendeu que Tomboy tenha sido o filme gay mais aclamado do ano. Não que seja ruim, mas eu particularmente não considero sua temática exatamente gay. É um filme que fala principalmente sobre identidade, e embora a militância LGBT faça questão de usar essa palavra na defesa de seus direitos, a questão da identidade pessoal é algo que atinge a todos, indiferente a opção sexual. Em Tomboy temos Laura, uma menina que surpreende os desavisados do filme por parecer um garoto. Após se mudar com a família, ela resolve fazer novas amizades com as crianças do condomínio, assumindo primeiramente uma nova identidade, surge então Michel. E é isso, Laura é uma menina que quer ser um menino. O filme ao contrário do que sugere, não é ousado, não é pesado. É doce, é divertido, é emotivo. Temos essa obrigação de Laura em ter que amadurecer, mesmo ela sendo apenas uma miudinha. Temos o incrível momento em que sua irmã mais nova descobre, ameaça contar, e tudo parece uma cena de adultos, ate que Laura compra seu silêncio e pensamos: “Porra, são só crianças”, para depois sermos pegos pela linda cena de aceitação da mais nova na mesa de jantar. É um filme sobre crianças sendo crianças, de como elas podem ser maravilhosas e as vezes cruéis, mas acima de tudo, toda criança é sincera.

6° Lugar: O Palhaço (Brasil)
O maior feito de O Palhaço é justamente o de não parecer um filme brasileiro. E não falo pelo status da produção delicada, do roteiro cheio de pequenos detalhes, da direção de arte caprichada, mas pelo simples fato de que é um filme simples, sem a pretensão de mudar o mundo ou ser gigante, megalomaníaco, suprassumo da brasilidade. No filme, o palhaço Benjamin, que comanda o pequeno circo que passa de cidade em cidade, esta em crise de identidade. Enquanto todos ao seu redor estão em harmonia em seus laços - o casal de acrobatas, os irmãos músicos, o ilusionista e sua filha - o palhaço conversa pouco com seu pai, também palhaço e dono do picadeiro. Existe algo incomodando Benjamin em O Palhaço, e não parece ser somente a pressão para comprar um ventilador novo para a namorada do pai, Lola, a estonteante dançarina do circo. É um filme igual vinho, em que cada situação é um gole e todas merecem ser bem degustadas. É um filme que estimula a auto descoberta. Naquela velha piada do palhaço depressivo que vai ao consultório médico e recebe como receita ver a si mesmo, O Palhaço mostra que o ideal as vezes não é estar no palco, mas por um momento simplesmente ser público desse picadeiro que é a vida.

5° Lugar: Submarine (Submarine – Inglaterra)
É meio triste ver Submarine passando como comédia indie por todos os festivais que vai. Não é só isso. Aliás, Submarine tem a capacidade de nos fazer rir várias vezes, mas todos esses sorrisos vem acompanhado de um travamento, um misto de vergonha alheia. Submarine conta a história de Oliver Tate, um garoto de quinze anos que passa por um momento conturbado ao se apaixonar pela primeira vez, enquanto paralelamente vive uma situação complicada em sua casa, com o relacionamento abalado dos seus pais. É de longe um dos filmes mais bizarros que assisti pelo fato de TODOS os seus personagens serem/terem comportamentos bizarros. O próprio Oliver acha que o mundo gira ao seu redor sendo que na verdade ele é um grande looser. Sua namorada, Jordana, é durona e completamente sem preceitos de moralidade. Seus pais são simplesmente medonhos, eu não sei como ele mora com eles. Coloque situações cada vez mais surreais na história e temos uma tragicomédia bem esquisita aqui. A verdade é que todos ali são um submarino, sem vontade nenhuma de emergir das águas e revelar suas verdadeiras faces, assim como todos nós nos comportamos alguma vez na vida, principalmente quando temos 15 anos.

4° Lugar: Toast (Toast – Inglaterra)
Um garoto de nove anos começa a desenvolver uma paixão pela culinária como nunca se viu. O que soa absurdamente estranho porque sua mãe é uma péssima cozinheira e só come enlatados e torradas, já seu pai é a grosseria em pessoa. E é focando esse amor entre pessoas e comidas que a história se desenrola. O sonho de Nigel é aprender a cozinhar, mas a morte prematura de sua mãe deixa um vazio gigante em seu coração. Após o luto, seu pai casa-se novamente com uma excelente cozinheira. É quando começa então uma batalha na cozinha. Nigel (já adolescente) tenta conquistar o amor de seu pai assim como a madastra fez, pelo estômago. É uma história de amor simples, mas que funciona tão docemente quanto um merengue de limão bem feito, o amor de um filho por seu pai e o amor de um jovem rapaz pela arte de cozinhar. É sensível por mostrar rupturas e um ritual de passagem importante, justamente aqueles que poucos fazem, o de virar as costas para tudo e seguir em frente justamente para preservar seus sonhos.

3° Lugar: Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires – Canadá)
Xavier Dolan escreveu, dirigiu e atuou nesse filme... aos 20 anos. Pra piorar, o ótimo Eu Matei Minha Mãe, seu primeiro filme e grande sucesso, foi produzido por ele aos 17 anos. É revoltante tanto talento! Amores Imaginários, seu segundo filme, beira a perfeição em alguns pontos, entre eles o de fotografia, produção, cenografia, trilha sonora e figurino (eu quero uma certa camisa cor tangerina desde que assisti). As atuações são ótimas, mas é justamente o seu enredo que cria uma relação de amor e ódio ao mesmo tempo com a película. Xavier Dolan explora o emocional com tanta delicadeza que torna a identificação um diferencial para a experiência cinematográfica. Na história, temos a paixão platônica de Marie e de seu melhor amigo gay, Francis, pela mesma pessoa, o belo Nicolas. Começa então uma amizade com os dois e, no decorrer das semanas, Nicolas mostra-se tão enigmático quanto no primeiro dia, sem demonstrar qualquer pista de sua orientação sexual, ora flertando com a garota, ora com o garoto. A partir daí, nasce uma rivalidade que coloca em jogo a amizade entre os três. Paralelo, temos vídeos confessionais de pessoas que já fizeram loucuras por amor, assim como qualquer um de nós um dia já fez alguma.

2° Lugar: Confessions (Kokuhaku – Japão)
Com tantas reviravoltas num estilo que só o cinema japonês é capaz de criar, Confessions esta mais para um quebra-cabeça do que um drama. As mudanças de foco e a eterna dúvida de quem afinal é o protagonista dessa obra fazem desse filme uma obra prima oriental. A complexa trama nos engana em sua maior parte, apenas seu final arrasador é capaz de explicar tudo. Nela, temos uma professora que em seu último dia de aula, conta para sua incontrolável turma de alunos, como sua amada filha foi morta por dois alunos daquela mesma sala. Como vingança, ela resolveu colocar sangue contaminado com Aids no leite desses dois. Ela então revela o nome dos dois alunos e o caos começa. Isso tudo nos primeiros 20 minutos de filme. O desenrolar dos fatos nos leva a conhecer as duas perturbadas mentes doentias dos assassinos e que o plano de vingança da jovem professora vai muito além do ato de contaminar seus alunos. O melhor filme de vingança que assisti desde Kill Bill. Um suspense transcendente e com um final pertubador.

1° Lugar: Contracorrente (Contracorriente – Peru)
O cinema peruano nunca teve um grande destaque internacional. Contracorrente precisou de muita disposição para chegar aonde chegou. Para seu pior ou melhor, é um filme que não retrata realmente em quase nada a vida exclusiva do povo peruano, suas particularidades. De fato, poderia ter sido filmado em qualquer lugar da América Latina ou Central. Então qual seu maior mérito? É ser absurdamente tocante. Misturando elementos de Brockeback Mountain, Ghost e até do brasileiro Dona Flor e Seus Dois Maridos, o filme traz a história de Miguel, um pescador respeitado na vila onde mora e trabalha. Casado com Mariela, os dois estão prestes a ganhar o primeiro filho, mas ele vive um romance escondido com Santiago, artista chamado pelos moradores de Príncipe Encantado. A vida dupla de Miguel logo leva um baque com a morte de Santiago e o que parecia encerrar esse ciclo na verdade se aprofunda quando a alma de Santiago não se torna capaz de deixar a terra. Cheio de momentos preciosos, Contracorrente traz a tona vários questionamentos. Justamente aquele que enfoca a sexualidade de Miguel um é o menor deles. Valores como a família, ser você mesmo e enfrentar o retrógado são mais importantes. É um filme belo. Os mais sensíveis já começam a mergulhar em lágrimas lá por sua metade. Odiamos e amamos Miguel, o achamos um covarde, ao mesmo tempo que temos ali alguém que sofre tanto por ter perdido aquele que mais amou. Sofremos junto com Santiago que leva seus sentimentos no pós morte. Entendemos o lado de Mariela, a dor de se sentir traída, usada, enganada por aquele que ama. Não é perfeito, alguns atores do filme são fraquíssimos, não conseguem passar toda a carga dramática, mas o trio principal funciona bem. A fotografia é outra arte, tem horas que parecemos contemplar um quadro, não um filme. No fim fica o efeito imediato. Contracorrente é um filme sobre emoções, sobre o amor, aquilo de bom que ele mais é capaz de fazer conosco, mas também aquilo que ele consegue nos machucar. Pois o amor infelizmente não é pra sempre, nem que ele só acabe após a morte.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ninguém é exatamente bom, ninguém é exatamente mau... ou não!


Somos acostumados a acreditar que tudo se divide em apenas dois elementos: o bem e o mal. Tudo é assim. Tudo nos dirige a isso. Dá até pra pegar como exemplo o Big Brother Brasil, onde em cada edição somos apresentados a um grande vilão, aquele que se sobressai malignamente, em detrimento aquele que se faz de coitadinho e por carisma popular e a lógica eterna do bandido e mocinho, acaba ganhando.

Ah, Big Brother, que belo exemplo cúmulo do populismo, heim Samuel? Ok, pseudo cult, vamos pra um exemplo melhor. Rio de Janeiro, 12 de junho de 2000, o ônibus da linha 174 é sequestrado por um rapaz aparentemente louco e completamente bandido. O sequestro foi filmado e transmitido ao vivo pela televisão, cujas imagens são mostradas em todo o país que comemorou a morte do bandido e chorou o assassinato de uma das reféns.

Aí você assiste o documentário Ônibus 174, do José Padilha, e descobre que a merda foi bem varrida pra debaixo do tapete. As diversas passagens do filme nos mostram uma mídia sensacionalista, uma televisão que quer exibir muito de perto tudo o que acontece. Isso provoca até uma certa dificuldade entre a polícia e o bandido, o Sandro, menino de rua sofrido, sem base familiar nenhuma, que em um momento de loucura pegou uma arma e tacou terror. Esse “menino crescido” se torna poderoso em meio aos holofotes e câmeras de TV. Ele agora é o centro das atenções, como nunca fora antes. É pra sentir pena do Sandro? Não sei, afinal, o Sandro era um vilão.

Tenso, não?

É difícil encontrar obras que trabalhem com o desafio de enfrentar a dualidade da divisão bem e mal. E quando elas surgem, não só são cercadas de incompreensão generalizada como geralmente de uma polêmica monstruosa. Afinal, são obras que não seguem uma linha de didatismo, mas de reflexão, de choque, o simples ato de mostrar uma realidade que existe, mas que fingimos não existir, o extremo do extremo.

É o caso do filme espanhol Tras el Cristal, de 1975, que inverte conceitos e se torna moralmente ambíguo e um tanto perturbador. Proibido em alguns países, como a Austrália, somos apresentados a um show de perversidade, que mesmo sem nada absolutamente explícito é um exercício cinematográfico de depravação humana. No enredo, um ex-médico nazista e pedófilo sente-se culpado após torturar e assassinar sua última vítima e se joga de um telhado. Anos mais tarde, confinado em um pulmão de aço (licença poética), aceita como enfermeiro um garoto, Angelo, que também foi uma de suas vítimas no passado.

A partir daí começa uma tortura psicológica em que num primeiro momento pensamos se tratar de uma vingança. Mas não, Angelo deseja ser igual aquele que lhe atingiu de forma tão monstruosa. Com cenas muito fortes, e mergulhando no horror da pedofilia e dos experimentos nazistas com crianças, Tras el Cristal é repugnante, mas exerce um certo fascínio. Talvez pela ótima produção (mesmo com tão pouco) e excelentes e convincentes atuações. É difícil não demonstrar reações a loucura de Angelo (que toma conta aos poucos das telas), da angústia na morte das crianças, e acima de tudo de seu nervoso final, que nos faz questionar o sentido de tudo aquilo. Faz sentido? Talvez numa realidade que não pertence a nós, uma realidade de tão poucos, que de fato, o horror de Tras el Cristal não pode ser compreendido.

Agora, para ir no máximo da depravação humana através da contrapartida do mal, nenhum filme é mais ideal para esse exemplo do que aquele que é considerado até hoje o filme mais chocante de todos os tempos, Saló o le 120 giornate di Sodoma. De fato, o nazismo e o fascismo (tema extremamente abusado até hoje) nunca foi tão bem representado como através dessa ideia de Pier Pasoline em compará-lo a obra do Marques de Sade, Os 120 dias de Sodoma. Mas só porque a ideia de comparação é válida, não significa que em algum momento que esse filme seja tragável.

No filme (e seguindo a linha básica da obra literária), quatro poderosos homens, o Duque representando a nobreza, o Bispo a igreja, o Presidente como personificação do poder político e o Magistrado como a corrupção e a parcialidade da justiça, sequestram 16 jovens e os fecham numa mansão para realizar todas as suas fantasias mais perversas e aterradoras divididas em três momentos, o Círculo das Taras, o Círculo da Merda e o Círculo do Sangue.

A princípio, Saló é visto em superficialidade e se demonstra nojento, repulsivo e horrível. E é! O sexo é retratado como castigo, não como prazer, existe o tempo todo, mas é vazio. Temos a cena de um garoto metralhado porque tentou fugir, em uma cena, um dos senhores solta sua merda no chão e obriga uma das confinadas a comer o excremento com uma colher, e quando chegamos a terceira parte, o sangue começa a ser derramado cruelmente. Não é como um filme de terror moderno que você QUER ver as mortes (oi, Premonição), você fica desesperado, você quer que aqueles jovens fujam.

E talvez esse seja o maior terror de Saló, não a questão das taras, da imoralidade, mas o poder que esse filme tem de nos remeter desesperança. A humanidade não deu muito certo. Existe uma cena interessante em Saló, onde os jovens com medo e desejando sair daquilo, começam a entregar delitos um do outro, em um efeito bola de neve, ate culminar em um assassinato. Talvez essa seja o momento mais duro do filme. O “bem” não sendo sucumbido pelo “mal”, mas assimilando-o.

E não, eu não assisti Serbian Movie. Não tive coragem. Pior, não me senti atraído, como me senti por tanto tempo com Saló ate ter coragem de vê-lo. Li tudo que pude sobre Serbian Movie, e a conclusão que cheguei é que se um filme deseja usar horror e depravação extrema sem sentido, ele realmente não merece ser visto.

Mas eu assisti Martys e esse filme mexeu comigo mais que todos os outros citados. Formado por duas partes quase distintas, mas que se unem magistralmente através de uma sequência de cenas perturbadoras, esse horror gore francês é simplesmente... incrível. O filme é todo angustiante, e só piora ate seu final que mistura uma complexidade de sentimentos.

É difícil falar a sinopse sem falar demais. A história baseia-se na vida da menina Lucie, vítima de violência de forma bizarra, que conseguiu fugir de seu cativeiro. Tenta superar seu terror, porém, 15 anos mais tarde, Lucie está totalmente fora de controlo e procura por vingança que acredita ter conseguido, arrastando sua melhor amiga Anna para uma carnificina. E é então quando nos convencemos que o filme fala apenas de vingança, que temos uma revolta impressionante.

Logo, Anna se vê envolvida num jogo de terror, onde os limites da ética e do respeito humano são completamente desrespeitados em busca de uma resposta para uma pergunta que deveria se manter irrespondida.

O terço final de Martys é carregado e muito desconfortável. É impossível se manter indiferente. Para piorar, o filme exala tristeza e impotência. Seu momento final não leva a conclusão alguma, apenas de que os princípios da natureza humana podem não passar de uma massinha de modelar.

Filmes como Tras el Cristal, Saló e Martys são para a maioria das pessoas impossíveis de compreensão comum e para um punhado de outras, apenas um retrato da fetichização da violência ou da perversidade. Foi Witold Gombrowicz, quem disse que “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados”. Creio que ele tenha sido um tanto infeliz em sua colocação, mas não de todo errado. Não é ser perturbado aquele que procura entender um pouco mais dos limites daquilo que é incompreensível, isso simplesmente esta na nossa natureza, é a decisão de cada um decidir como isso será feito, mesmo que através da violência e da perversidade.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Entre o fruto da vida e o do conhecimento


Fui acometido bem recentemente por algum tipo de doença que definitivamente só poderia: a)virar um episódio de House, ou b)um episódio (sim, eu ando assistindo bastante séries) daquele Doenças Desconhecidas (eu acho que é esse o nome). Sem querer ser melodramático, mesmo porque eu sou extremamente orgulhoso, foi um período bem difícil, que se assemelhou aos dois momentos em que tive que realizar cirurgias toráxicas.

De fato, foram exatos 29 dias de absurda dor crônica, idas e vindas aos hospitais, as clínicas, exames de alta e baixa complexidade, lágrimas em excesso e no fim, quando as coisas começaram a melhorar, não foi porque a doença foi detectada ou comecei algum tratamento certeiro, mas porque as coisas sozinhas resolveram “se ajeitar”. Junte isso a um hipermetabolismo ferrenho e em pouco menos de um mês e meio, perdi sagrados 6kg.

E para um cara vaidoso e assumidamente vendido a ditadura da beleza, minha auto estima caiu pra zero em uma velocidade gigantesca. Mais do que minha saúde, a doença (seja ela qual for) levou meu bem estar mental. E levando em consideração que eu sou praticante de fitness (embora não pareça), esse golpe foi ainda mais doloroso, pois foi ver um trabalho de desenvolvimento físico de mais de dois anos jogado pelo ralo. E por causa disso, a cabeça ficou vazia, e a oficina do diabo começou a funcionar. Mergulhei em puro abatimento e só através de um longo processo que estou realmente saindo disso.

Fazendo parte desse momento que passo, o vídeo abaixo é de longe o mais emocionante que eu assisti na vida desde a fundação da era Youtube. Eu recomendaria assisti-lo.



O Universo Conhecido é o mapa mais preciso de dimensões do nosso universo (é impossível realizar observações telescópicas pelas laterais da nossa galáxia, dai a forma de ampulheta). A animação feita pelo Museu Natural de História Americana revela que nosso planeta é apenas uma poeira cósmica perto da grandeza de um universo finito, mas em eterna expansão. É magnifico sair da Terra e poder chegar até os quasares (os mais distantes objetos dentro do universo), e de fato, essa viagem possivelmente nunca será possível.

O vídeo, mais do que fascinante, é reflexivo. Se o universo é tão infinitamente gigantesco, qual o papel de nossas existências dentro dele?

O anime japonês Cavaleiros do Zodíaco, um dos maiores sucessos pops dos anos 90, tem um personagem que reflete acerca disso. O cavaleiro da casa de ouro, Shaka de Virgem, antes de sua morte questiona, “As flores nascem, depois murcham. As estrelas brilham, mas algum dia se extinguem. Esta terra, o sol e ate mesmo o grande universo, algum dia serão destruídos. Comparado a isto, a vida do homem não passa de um simples piscar de olhos de Deus. Nesse pouco tempo, as pessoas nascem, riem, choram, lutam, são feridas, sentem alegria, tristeza, odeiam alguém, amam alguém... Tudo em um só momento. E depois são abraçadas por um sono eterno chamado: morte”.

Sou um grande apaixonado pela astrofísica. Queria ter talento para a coisa, mas definitivamente não foi o que aconteceu, então virei jornalista, outra paixão. Por isso junto essa admiração pelo universo e os questionamentos que surgem ao contemplá-lo, e por natureza da humanidade, meu maior desejo e chegar aos seus limites, os limites do cosmo e os limites da vida e da morte.

Sim, porque a morte assusta até o mais devoto crente acerca do paraíso da eternidade.

E é disso que trata justamente um dos filmes mais incríveis de toda minha vida de cinéfilo, Fonte da Vida, que eu particularmente considero a obra máxima de Darren Aronofsky, antes dele se tornar o popzinho do momento por causa do drama Cisne Negro. Diferente dos romances e filmes padrões, esse deve ser evitado principalmente por aqueles que gostam de ter todas as respostas de um filme e, principalmente, não conseguem se sentir confortáveis acerca de questionar sua própria existência, uma capacidade única apenas do cinema de excelente qualidade.

Na trama, Hugh Jackman (na melhor atuação de sua carreira) é Tommy Creo, um cientista que está em busca da cura do câncer. A beira de um colapso, a descoberta é urgente e de questão pessoal, já que Izzi (Rachel Weisz, talentosíssima e tão bela, que enche a tela de luz), sua esposa, esta morrendo com um tumor cerebral. A chance de sucesso em seus primatas experimentais chega justamente quando sua equipe experimenta a amostra de uma árvore singular das selvas do Peru. A planta pode ser a cura que ele tanto busca, porém, se revela mais do que isso. Numa outra parte, Izzi escreve um livro sobre um conquistador (também interpretado por Jackman) que viaja para o Novo Mundo em busca da Árvore da Vida a pedido da rainha Isabel (também interpretada por Weisz). A terceira parte da história (e particularmente a mais brilhante representação artística do universo já feita) é passada no futuro, quando o cientista (ainda Jackman) viaja pelo espaço em uma bolha com um único objetivo: conquistar a vida eterna.

Complicado? Muito! Juntar o quebra cabeça que é Fonte da Vida não é tarefa das mais simples. Mas se entregar ao filme é uma experiência sem tamanho. A emoção transborda, a beleza invade e questionamentos propositalmente vagos ficam em nossa cabeça. Apenas o presente esta acontecendo, o passado e o futuro da trama são metafóricos e existem pra preencher lacunas e nos enlouquecer, pois no fim, as três realmente podem ter uma linearidade, e a poesia do filme existe justamente em nos dar essa opção e ao mesmo tempo nos tirá-la, enquanto sorri e diz: “Peguei você”.

É o amor que move o filme inteiro. E o medo. É o amor que move Tommy por Izzi, além do medo de perdê-la, o medo de não ter mais sentido em sua vida, e o medo de não poder superar a morte. “A morte é apenas uma doença, e como qualquer doença, tem uma cura”, grita Tommy em seu mais profundo desespero. É a Árvore da Vida a cura, a mesma árvore que Deus colocou um anjo protegendo depois que expulsou Adão e Eva do Paraíso por terem comido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

No fim, Tommy acredita que é a Árvore da Vida a ponte para a resolução de seu grande desafio. Mas é então que ele se vê mais uma vez questionado, assim como Adão e Eva, de experimentar o fruto proibido, o fruto do conhecimento.

Sim, porque Deus disse para comermos apenas do fruto da Árvore da Vida para assim sermos imortais e nos proibiu do fruto da Árvore do Conhecimento. Mas é quando somos confrontados sobre a nossa própria existência e o significado da vida e da morte dentro de um Universo que nunca conheceremos por inteiro, que notamos que realmente, tanto faz se fossemos Adão ou Eva, essa desobediência, teria que acontecer sim um dia.

Pois assim como toda essa história, talvez a vida não passe de uma grande metáfora do próprio universo.

- Together, we will leave forever

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sobre conversas na beira da porta...

Ela parou com a mala. De frente para a porta, de costas para mim.

- Eu te amo, mas só amor nunca é o suficiente.

Ele sentava de frente para ela. De frente para a porta. Mas não olhava para nenhum dos dois. Olhava para o chão.

- Nunca é.

Ela colocou a mão na maçaneta, mas não a girou. Encostou a testa na porta.
Ficaria com a marca do olho mágico.

- O meu medo nunca foi ficar sozinha. O meu maior medo sempre foi o de amar e me tornar só por causa disso.

Ele começou a arrancar a cutícula do canto da unha. Um tique nervoso. Em breve estaria sangrando.


- O meu medo sempre foi o de ficar só.
- Eu sei. É por isso que eu estou te deixando.
- Quer que eu te valorize te perdendo?
- Não, eu quero que você só me valorize.
- Eu te amo muito.
- Não quero que você me ame muito, eu quero que você só me ame.
- Existe diferença?
- Se não existisse, eu não estaria partindo.

Ela tirou a testa da porta. Mas também largou a maçaneta. Começou a amarrar o
cabelo num rabo de cavalo.

Ele finalmente olhou para ela. Largou o dedo sangrando. Ajeitou os óculos sobre
o nariz que caiam. E suspirou alto.

- Acho que amor também é isso. É essa capacidade de poder fazer facilmente alguém sofrer. Você não me amaria, se eu não pudesse machucá-la.
- Exato! Você é minha maior força...
- E sua maior fraqueza.

Alguns segundos de silêncio. Ela deixa de encarar a porta e passa a encará-lo por trás das lentes.

- E eu sou capaz de lhe fazer sofrer?
- Se você passar por essa porta sim.

Ela abre a porta. Pega a mala pela alça. Dá cinco passos em direção ao corredor. Larga a mala e vira para ele.

- E agora?
- Meu coração está dilacerado.

Ela segura novamente a mala. Volta para o apartamento. Tranca a porta. Vem em sua direção e o beija na testa.

- Então eu já posso voltar.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Eu realmente preferia que os heróis dos outros morressem de overdose

Alow Capitão América, me diz quais foram os anabolizantes que tu tomou que eu tomo também

Em 2011, três filmes de super heróis são extremamente aguardados pela minha pessoa: Capitão América, Thor e Lanterna Verde. Por que eu sou fã dos três? Claro que não, acho o trio uma droga. Mas porque desde o início dos anos 2000 que o cinema não se foca mais nos heróis adultos, nos personagens que são machos alfas, homens formados de corpo e de mente. De fato, meu interesse no trio de filmes é: qual será seu impacto na indústria pop?

Ah, mas tem também Homem Aranha 4 (com o pratagonista mais esquálido e sem graça possível para o recomeço da franquia), o novo Crepúsculo e o último Harry Poter. Resumindo, temos o time dos adultos (Thor, Capitão América e Lanterna Verde), contra o time dos menininhos (Homem Aranha, Harry Potter e Edward/Jacob). A verdade é que em tempos onde a aburrecenscialização (a palavra é minha, mistura de: adolescência com burrice e transformação) da cultura pop esta cada dia mais intensa, essa é uma luta quase injusta para os adultos. De fato, é o pensamento massificado da adolescência que tem batido o martelo do que a cultura pop deve seguir.

Mas eu tenho lá minhas esperanças...

Homem de Ferro foi lançado em 2008 e seu sucesso foi tão grande que definitivamente nem mesmo a Marvel estava esperando tanto. A consequência foi à produção em ritmo acelerado de uma continuação que estreou em 2010. Homem de Ferro se torna então um marco por conseguir voltar o foco das mentes humanas ocidentais para os super heróis adultos, saindo do processo de transformar tudo em versão aburrecente.

Mas nem tudo são flores. Vale lembrar que aproveitando o sucesso do Homem de Ferro, um novo desenho animado da série foi produzido e Tony Stark virou... um garotinho. Aliás, esse desenho é bem ruim, depressivo mesmo, não consegui assistir mais que um episódio, e apenas uma criança retardada realmente se sentiu atraída por aquilo, além de um desrespeito com o próprio renascimento da franquia.

Mas não podemos falar em desrespeito histórico sem falar na maior humilhação da cultura pop até hoje: o sucesso descontrolado da saga Crepúsculo. Filme 1: vampiros vegetarianos vivem numa cidade isolada no cu do mundo, chega uma adolescente irritante e o vampiro hepático se apaixona por ela, e nem beijar na boca do menino ela pode. Pra piorar, surge um grupo de vampiros do mal igual o Black Eyed Peas. Filme 2: o vampiro que não consegue nem beijar na boca porque fica na dúvida “dô ou num dô” faz a loka e corre pras montanhas. Pra consolar o cão da menina fica o lobinho, cara de pedreiro, corpo de ato pornô gay e sem camisa em 9 de cada 10 cenas. A menina corre até o vampiro na Itália e antes de ficarem juntos a gente tem uma puta cena ridícula de cristais Swarovski. Filme 3: a menina vira a puta da história, pronto, cabô.

E ainda vem mais dois por aí, heim... A saga Crepúsculo é tão ruim que nem a paródia Os Vampiros que se Mordam é boa.

Eu defendo que a culpa da cultuada história vampírica ter se tornando isso que se tornou é da Anne Rice. Ela que passou o vampirismo do ocultismo e do demoníaco para o glamuroso, o fascinante. Antes as crianças tinham medo de vampiros, hoje elas querem ser um. E não estou nem falando de Entrevista Com o Vampiro e o (fatídico) A Rainha dos Condenados. Há coisa bem mais punks como O Vampiro Armand que é viadagem demais até pra mim. Após Anne Rice tivemos isso então: um boom da modificação quase que completa da secular lenda vampírica até chegarmos ao ponto que nem o sol os mata (Vampire Diaries também tem isso, além de sempre que o vampiro entra em cena é gasto todo o estoque de gelo seco de Hollywood pra fazer a aparição).

Até o meio dos anos 80 todos os super heróis eram adultos e possuíam forte conceitos de honra e valor. Hoje viraram um bando de adolescentizinhos egoístas que dificilmente passam boas lições para a garotada. Vide Ben 10, mesmo que ele tenha crescido.

Mas nem tudo está perdido. Hilariamente, um dos filmes mais legais que assisti no ano passado foi Daybreakers. Como seria uma sociedade onde todos são vampiros? Inclusive as crianças? Aliás, cena que diz “se você é fã de Crepúsculo, caia fora”, é justamente a que um grupo de crianças vampiros estão reunidas fumando, afinal, fazem mais de 10 anos da epidemia vampírica, são adultos, em corpos de crianças.

Ed Dalton (Ethan Hawke), que trabalha para a corporação agrícola de sangue humano, é responsável pelo desenvolvimento de um novo substituto do sangue, pois o sangue humano neste momento é escasso. Todos trabalham de noite, é claro, os carros são equipados com janelas de bloquear os raios ultravioleta, alarmes indicam nascer do Sol, teor de UVA… e por aí vai, bem criativo… É a partir dai que os escassos (e caçadíssimos) humanos descobrem uma possível cura para o vampirismo. Porém, se a imortalidade é considerada um presente, um milagre, mesmo sem sangue, um vampiro gostaria de ser humano?

Não é perfeito. O ritmo é bem lento, algumas tramas paralelas são chatas. Salvam cenas de ação fantásticas, inclusive a carnificina cíclica de soldados e a atuação sempre ótima de Sam Neill, o grande vilão. Porém, mais do que um bom filme, Daybreakers é uma aula de sociologia. É uma lição, uma moral, gera questionamentos acerca de sociedade, humanidade e (mesmo impossível) imortalidade... coisa que definitivamente um Crepúsculo da vida não levanta, muito menos o Ben 10.