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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Vamos falar de pornografia, mas de um jeito socialmente aceito e classificação Livre


Os novos heróis, por André Dahmer

Aquele que nunca teve contato com a pornografia que atire a primeira VHS da Brasileirinhas. Eu tive, você teve. Querendo ou não, se pararmos pra analisar, a pornografia audiovisual, por exemplo, acaba tendo um papel importante na descoberta sexual da maioria dos jovens principalmente do sexo masculino, devido às “necessidades” que surgem pelo corpo. Nas garotas, embora algumas tenham os mesmos objetivos dos rapazes, a pornografia acaba sendo também uma curiosidade.

Há quem tenha uma verdadeira fascínio pelo mundo da pornografia. E esses podem ser divididos em dois grupos: os mais afoitos (vulgarmente chamados de tarados), e aqueles que realmente encaram a produção como uma forma de arte e liberdade de expressão. E eu realmente tenho uma admiração pela pornografia/erotismo a ponto de pertencer ao segundo grupo.

E existem vários tipos de pornografia. A audiovisual é a mais famosa obviamente, ainda mais pela possibilidade mercadológica atual de se ter pornografia 24 horas por dia, 7 dias por semana, de graça, na internet. Já a literária é a mais “sofisticada”, chamada mais comumente de erótica. E existe aquela diferença drástica de que no audiovisual somos passivos e na literatura somos ativos. No vídeo só estamos vendo e “apreciando”, na literatura somos obrigado a fazer parte. Qual meu tipo favorito? Os dois sem predileção. Mas tenho um interesse um tanto quanto mais raro na visão por trás (ui!) do mundo pornográfico, aquilo que existe junto a um mundo que todos tem contato, mas quase ninguém admite.

Me lembro que quando criança mesmo eu assisti o polêmico filme O Povo Contra Larry Flynt (1996). Na excelente cinebiografia ambientada nos anos 70, temos Larry Flynt, dono de uma boate de strip tease que um dia lendo uma Playboy pensou: “As pessoas não compram essa revista para aprender a fazer martines, mas para ver mulheres nuas”.  Então ele criou a revista Hustler que foi um sucesso, onde expunha pornografia explícita. Resultado: Flynt se tornou um dos homens mais bem sucedidos do mercado editorial dos EUA vendendo aquilo que seu povo mais fingia odiar, pornô.

Obviamente, a história de vida de Flynt se torna mais incrível a partir do momento que ele teve que enfrentar a poderosa sociedade conservadora norte americana e mostrar que pornografia não é colocar homens e mulheres simplesmente fazendo sexo, mas é uma forma de liberdade de expressão. Se nos dias atuais a sociedade norte-americana ainda é vista como uma das mais (falsa) puritanas, imaginem só 40 anos atrás.

Mas ok, Flynt foi o cara e se hoje a indústria norte americana de pornografia rende 50 bilhões de dólares por ano (é muita foda, não?). Temos que dar parte do mérito pra ele, mas e os atores e atrizes? Eu sempre me questionei um pouco a vida de ator pornô e encaremos os fatos, a maioria dos homens ocidentais já se imaginou como um, é um fetiche. O filme Boogie Nights (que no Brasil ganhou o estranho título de Prazer Sem Limites) traz isso, a trajetória de um grupo de atores pornôs nos anos 70 e 80.

Mark Wahlberg, em seu primeiro papel de destaque, interpreta Eddie Addams que, devido ao tamanho avantajado de seu pênis, torna-se a estrela maior dos filmes de Jack Horner (Burt Reynolds), especialista nos chamados “filmes para adultos”. Só por aí já dá pra se mensurar o mérito de Anderson. Em momento algum, o filme faz qualquer gracejo ou lança um olhar nítido de censura sobre o mundo que está retratando. É um retrato dividido, que mistura o lado glamour, dinheiro, drogas e diversão com o mundo decadência, crise de identidade e desrespeito.

Boogie Nights é isso, uma forma de mostrar que escolher ser um ator pornô é na verdade uma profissão como qualquer outra, mas com uma verdade, uma cicatriz que será carregada pra vida inteira.

“Ah, mas você ta falando só de pornografia ficcional”, deve estar se questionando o querido leitor. Bem, indo um pouco pro campo da realidade (e melhor ainda, campo da realidade nacional), o minidocumentário Pornô dos Outros é simplesmente sensacional. Ele reúne alguns dos grandes nomes do pornô nacional em um banho de realidade. Dá pra tirar algumas frases sensacionais como: “Tá ali o iluminador com uma luz quente no seu rabo”, “Ai, foi tão bom apanhar, vocês nem imaginam”. Saca só!


Marcia Imperator (diva), Rogê Ferro, Vivi Fernandez, Victor Gaúcho (suspiro), Kim Mello e Pâmela Butt são um grupo a parte. Eles foram eles de verdade naquilo que fizeram. Fizeram porque precisavam, alguns fizeram porque gostaram, mas eles não querer mudar sua trajetória, não se tornaram pessoas piores ou melhores, e hoje, mesmo a maioria “aposentados” (encaremos os fatos, é uma profissão mais curta que jogador de futebol), estão aí seguindo suas vidas normalmente.

Já o mercado editorial pornográfico foi reaquecido recentemente por um best seller. A trilogia dos Cinquenta Tons de Cinza traz uma garota inocente, cheia de moral e ética que do nada vira o objeto de prazer sadomasoquista e bestial de um jovem sedutor bilionário. Embora válido na questão da libertação do pudor pela busca do prazer, 50 Tons é uma obra de baixo valor literário, que não dignifica de verdade o gênero, não a toa chamado de “Crepúsculo para mulheres de meia idade”.

Para os amantes de uma boa literatura que envolve a pornografia, eu recomendaria o clássico Fanny Hill, também conhecido como "Memórias de uma Mulher de Prazer" (gosto mais desse título). Clássico da literatura erótica, Fanny Hill tem amoralidade latente, fino senso de humor e ironia, e é uma divertida experiência literária cuja narrativa parece brincar com a moral e pensamento burguês de 1800, revelando certos aspectos marginais do Iluminismo. Viram como a chamada “putaria” pode se revelar uma forma de crítica social surpreendente? E vocês aí só imaginando sacanagem...

Outra obra que eu recomendo bastante é Os Sete Minutos, de Irving Wallace. Mas Os Sete não é uma obra realmente erótica, e sim uma grande discussão sobre o valor social e moral das obras eróticas. Com um estilo meio suspense/policial, traz a história de Michael Barret, advogado que assume a defesa de um livro considerado “obsceno” e alvo de um processo de censura por contrariar a lei penal da Califórnia. Pra piorar, um jovem chamado Jerry Griffith, cometeu um estupro supostamente influenciado pela leitura. Assim, estabelece-se a batalha na justiça, com Barret, brigando (em desvantagem, evidentemente) pela livre comercialização do livro. Com várias passagens sexuais e o aumento do suspense em sua parte final, Os Sete Minutos virou uma obra clássica.

Eu poderia parar pra recomendar também o livro Os Sonhos Morrem Primeiro, de Harold Robbins, mas encaremos os fatos, mesmo com forte status, esse foi um livro praticamente 50 Tons de Cinza na época. Embora eu considere a jornada do personagem Gareth pelo submundo obscuro dos prazeres proibidos e pela forma de ganhar dinheiro com pornografia infinitamente superior a obra do momento. Cada geração tem a obra erótica que merece pelo visto, mas me alegra que mesmo com a baixa qualidade, o erotismo/pornografia continua aí, firme e forte, porque se tem uma coisa que nunca sairá de moda entre os seres humanos, essa coisa se chama sexo.

Não, Dahmer, não...

terça-feira, 17 de março de 2009

Com Que Maníaco-Assassino-Serial-Irracional Você Se Identifica Mais?

Quem sabe que eu sou fã do Jason levanta o braço:
Jason: “Euuu!”
Samuel: “Ok, mas era pra levantar o SEU”

Sexta Feira 13 estreou aqui em Rio Branco exatamente numa sexta feira 13, mas na sexta feira 13 errada. A sorte do Cine João Paulo é que houve duas sextas feira 13 seguidas. Coisa hiper rara de acontecer. Portanto, foi o atraso de estréia cinematográfica mais bem sucedido da história desse cinema que super segue as tendências. Eu nem conseguia reclamar do atraso, juro, perdi a fala diante dessa “divina providência” do calendário romano.

O novo Sexta Feira 13 na verdade não é um remake do primeiro filme, ele é um remake da Parte 1 nos primeiros 3 minutos, um remake da Parte 2 ate a meia hora de duração, remake de porra nenhuma ate o final, e remake da Parte 1 de novo no finalzinho-inho-inho (como se não fosse óbvio o que ia acontecer, hellooo, o Jason é imortal, alguém aqui se lembra disso?). Enfim, o novo Sexta Feira 13 na verdade não é nem uma continuação, nem um remake, e sim um recomeço da série. Resumindo, Sexta Feira 13 é na verdade uma grande... bosta! E por isso ele é razoavelmente... bom.

Gente, fala sério! Num mundo saturado de filmes de terror de assassinos seriais toscos, no meio do nada, matando adolescentes que só querem transar, você tem mais medo do que: de um assassino irreal no meio da floresta que usa uma máscara de hóquei ou da menina do call center do seu cartão de crédito, que leva dois segundos de digitação para colocar seu nome no SPC/SERASA e que ainda assim precisa no mínimo de meia hora pra entender que você quer cancelar aquele cartão que na verdade é a sua destruição? Eu não sei vocês, mas a vida real é mais aterrorizante que o Jason.

Os bons filmes do Jason rolaram de 1980 a 1989. Aliás, todos são horríveis, cada um pior que o outro, tosqueira sobre tosqueira, mortes sem sentido, elencos agonizantes, roteiros para crianças de 3 anos, enfim, isso tudo era o real encanto de Sexta Feira 13, a pior franquia do cinema a ser melhor em alguma coisa. A Parte 6 é a melhorzinha, porque Jason parodia a si mesmo, o roteiro é inteligente, as atuações mais ou menos e você ri do começo ao fim com as sacadas brilhantes (como por exemplo, quando pela primeira vez na história da série, a polícia é chamada e Jason mata tudinho), mas mesmo assim, tudo vira bosta.

Esse remake foi dirigido pelo mesmo diretor de outro remake, O Massacre da Serra Elétrica, uma refilmagem de um clássico maior que o de Jason para mim. A refilmagem de O Massacre foi absurdamente boa, tinha tudo muito bem organizado, dava medo e nós não desejávamos a morte dos personagens por nos aproximarmos deles. Esse remake entrou para a minha história. Já em Sexta Feira 13, eu desejava a morte de todos os personagens o mais rápido possível. Aliás, quer um bom motivo pra assistir esse filme? As mortes são ótimas, não exageradas e surpreendentes. Ponto para o saco de dormir que vira armadilha e para a flechada no barco. Aliás, o novo Jason corre, uma gigante decepção pra mim, quase chorei de tristeza, pois o antigo Jason andava a 0,5km/h e estava sempre na frente de suas vítimas. Mas temos sexo de novo (obrigado, produtores), elemento que havia saído dos filmes de terror teen para conseguir censuras mais leves (sangue pode, peitos não).

Um fato hilário, é que Jason nasceu com o objetivo de fazer frente a um outro maníaco, Mike Myers, de outro clássico cult dos filmes de terror, Halloween. Eu não gosto desse, mas de fato, nos anos 80, surgiram uma série de slasher movies (típicos de assassinos sem inteligência), embora foram poucos os que sobreviveram ao imaginário popular e a história do gênero terror/tosco.

Com isso, fiquem agora com o Top 8 Assassinos Maníacos dos Filmes de Terror Toscos:

8º Lugar - Pânico
A série Pânico fez mais merda nos slasher movies do que o Jason foi capaz. Ok, eu admito que Pânico é um fruto de Sexta Feira 13, mas mesmo assim, não tem salvação. Primeiro, temos aquele assassino com aquela fantasia ridícula (em cada filme é um diferente, mas sempre com a mesma fantasia), depois, sempre os adolescentes americanos estereotipados, os piores tipos, a gostosa, o jogador, o tímido que não transa com ninguém, a metida a espertar e a virgem, que sempre sobrevive, mesmo que ela perca a virgindade. Os três filmes são muito ruins, as mortes também são muito sem graça, os desfechos são piores ainda. Afinal, quem sai fantasiado dentro da cidade, a vista de todo mundo, matando e perguntando antes: “Qual seu filme de terror favorito?”? Se nem no campo isso faz sentido, imagina na cidade.

7º Lugar - Harry Warden
Esse é pouquíssimo conhecido, do filme Dia dos Namorados Macabro. Harry Warden é um mineiro (não gente, ele não nasceu em Minas Gerais, ele trabalhava em minas) que na noite do dia dos namorados saia de sua mina com uma picareta suja de sangue e matava garotinhas apaixonadas, arrancava seus corações e mandava para outras pessoas em caixas de bombons em formato de... coração (adoooro a ironia). O filme é violentíssimo e razoavelmente bom, mas com os clichês de sempre, assassino mascarado revelado só no final do filme, adolescentes se fudendo e casal transpassado vivo enquanto transa. Teve dezenas de cortes no filme original, o que é uma pena, mas eles estão no DVD especial lançado recentemente. O remake foi lançado há pouco tempo em versão 3D.

6º Lugar - Mike Myers
O mais cult dos maníacos, Mike Myers é o grande vilão da série Halloween, também refilmada e lançada ano passado por Rob Zombie. Mike nasceu com talento pra matar. Aos 6 anos esfaqueou mortalmente a sua irmão depois dela transar com o namorado, ficou num hospital psiquiátrico até os 21 anos, quando resolveu fugir e seguir carreira. Ele mata, começa a usar uma máscara estranhamente delicada e um facão grande igual ao do Jason. Começa então a história de um serial killer acima da média normal. Existem 8 partes da série, em todas ele é indestrutível e implacável. É quase um Jason, com tanto cérebro quanto ele, mas com um pouquinho mais de classe.

5º Lugar - Chucky
O Brinquedo Assassino é um dos filmes mais populares da história, cultuado até hoje e que teve capacidade de se reinventar para manter sua presença. Chucky era até então um brinquedo inocente, mas de algum jeito absurdo, abrigou a alma de um assassino morto pela polícia em uma loja de brinquedos. O primeiro filme é assustador, principalmente para crianças. O brinquedo havia sido comercializado antes do filme, o que gerou uma histeria ao redor do mundo. Chucky é foda, mesmo no corpo de um boneco de plástico, ele já teve ate namorada, fez filho e matou algumas dúzias de idiotas, além de assustar criancinhas ate hoje. Ele também era sarcástico e irritante, coisa rara na época. Seu gênero de terror se desgastou, mas sua figura não, despontando para o humor em seus últimos dois filmes.

4º Lugar - Pinhead
O grande vilão da série Hellraiser vem de uma dimensão paralela toda vez que um cubo amaldiçoado tem seu segredo desvendado. Me cagava de medo toda vez que o Pinhead aparecia na tela, com aquela cara cheia de pregos, aquela roupa de couro (que com certeza foi feita para sadomasoquistas), e aquelas correntes que surgiam do nada e se enfiavam na pele das vítimas. Dor e prazer ao extremo no mundo de Pinhead. Os três primeiros filmes são ótimos, mas depois a coisa fica ruim, até gordo o Pinhead ficou nesse meio tempo (Parte 8). É, a idade não perdoa ninguém.

3º Lugar - Freddy Krueger
Um vilão que começou aterrorizante e que hoje poderia fazer parte do palco do CQC ao lado do Rafinha Bastos. O primeiro A Hora do Pesadelo é até razoável, mas o resto é uma grande porcaria de filmes toscos que subestimam nossa inteligência mais do que qualquer outra coisa e transformaram Freddy Krueger de assassino de crianças demoníaco que mata pelos sonhos, em comediante de segunda que mata entre piadas. Além de torcer só pro Flamengo com aquela blusa listrada que ele usa. É um ícone, dos melhores, um tipo de vilão raro, mas que foi muito mal aproveitado. Adora matar adolescentizinhos que só pensam em transar. Ponto para as mortes sempre criativas.

2º Lugar - Leatherface
É difícil me expressar sobre Leatherface sem me expressar sobre O Massacre da Serra Elétrica, um dos filmes de terror mais cultuados de todos os tempos, absurdamente bom, “inteligente” e assustador. Leatherface é um jovem que nasceu com uma doença que corrói a pele do seu rosto, na juventude então ele aprende com sua sádica família de canibais a usar o rosto de outras pessoas no lugar do seu e de comer a carne delas para se alimentar. É bizarro. Brandindo sua serra elétrica em mãos, não tem como não ficar com as pernas bambas quando Leatherface entra em cena para matar, geralmente conseguindo seu objetivo. O filme original é muito bom, o remake é tão bom quanto, e O Massacre da Serra Elétrica – O Início, que mostra como tudo doentemente começou, é melhor ainda. Estranho esse último ter passado tão despercebido pelo Brasil.

1º Lugar - Jason
O que falar de um assassino que no começo era um serial killer louco, depois assumiu status de ser místico imortal, levou mais de 100 tiros, foi esfaqueado 26 vezes, levou 5 machadadas, foi atropelado por um trator e um carro, soterrado por um telhado, atingido por vasos, um sofá, alguns pedaços de madeira, duas cadeiras, livros, uma estante, uma televisão, foram fincados ao longo do seu corpo 15 barras de ferro, foi afogado em lixo tóxico, foi explodido... e sobreviveu, o que falar? Para o bem ao para o mal, Jason realmente é imortal.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Qual A Semelhança Entre Zumbis Canibais e Mulheres Muito Feias?

Sim, eu vou falar de zumbis de novo. Sim, zumbis no contexto da cultura pop é um assunto que me excita. Não, parem agora de imaginar merda. Afinal:

“- Qual o privilégio dos mortos?
- Não morrer mais.”
Alphaville – de Godard, para, Otto; or up with dead people – de Bruce laBruce

Aliás, falando em zumbis, vem aí mais um Big Brother. E Deus sabe que o Brasil é um dos poucos países em que essa maravilhosa “novela da vida real” chega a sua nona edição. Ok, eu vou me gongar agora, mas eu acompanhei a primeira edição do começo ao fim, gostei, admito e o primeiro que vier me chamar de alienado por isso vai ter que demonstrar em documentos que nunca acompanhou sequer um episódio de uma novela global, uma mexicana ou pior (Jesus tenha piedade da televisão brasileira), Os Mutantes. Porque é muito fácil você dizer que o Big Brother é uma coisa para pessoas aculturadas, mesmo sendo algo extremamente idiota e você se apoiar nisso para parecer o intelectual.

E foi na terceira edição que eu tive um lapso genial. E se o Jason entrasse no estúdio dos brothers, matasse todos os câmera-men, diretores, apoio (sim, ele seria capaz de fazer isso sozinho e andando a 2,5km/h), depois entrasse na casa, que já estaria abandonada apenas com as câmeras automáticas e matasse um por um os participantes ninfomaníacos/anoréxicas/ siliconadas/sarados, ate que ele morreria nas mãos do último casal vivo e sua máscara de hóquei afundasse nas águas de Crystal Lake, quer dizer, da piscina cheia de cloro da casa? Cara, ia ser demais.

Ninguém pensou nisso junto comigo. Mas vai sair um remake do primeiro Sexta Feira 13 no ano que vem, e eu tremo todinho nas bases quando penso nisso. O trailer parece muito bom, mesmo que as vítimas novas pareçam coelhinhas da Playboy e integrantes do Fall Out Boy. Não que eles não mereçam morrer, mas em filmes de terror fica difícil odiar o assassino quando você torce pela morte de todo mundo. Enfim, não tiveram minha idéia de misturar o Jason com o Big Brother, mas na Inglaterra, alguém foi muito além da minha concepção e ganhou minha gratidão eterna, misturou o Big Brother e uma epidemia de zumbis canibais em um único local. Confinados numa casa, se zumbis sedentos por sangue surgissem, nossos brothers seriam os últimos a saber.

Essa é a premissa de Dead Set. Série em 5 episódios que conta como o isolado estúdio do Big Brother não observa os sinais televisivos de que algo está muito errado em todo o país, e durante a eliminação de uma participante (com todo aquele povo a la Bial) a infestação chega e em cenas memoráveis, mesmo com péssimas atuações, os zumbis aos poucos vão se multiplicando e morre todo mundo. As cenas dos controladores de VT sendo assassinados, alguns até em cima de suas ilhas de edição, com o sangue respingando nas telas, enquanto os brothers dançam Grace Kelly de Mika (sim, Mika tocando durante o melhor momento da carnificina), além da apresentadora tendo o pescoço destroçado, um zumbi atacando um cadeirante de rodas, e as editoras gritando para o chefe filho da puta abrir a porta, ele não abre, e no vidro da porta o canalha observando elas sendo devoradas, são simplesmente incríveis.

Isso tudo apenas no primeiro episódio. No segundo temos participantes de um Big Brother que não sabem de nada do que aconteceu, mesmo que os espelho do lado do estúdio na casa estejam manchados de sangue. Lógico, do lado do estúdio, sobrou uma personagem, a estagiária que serve o café (sempre os estagiários) e ela vai se refugiar no único lugar que parece seguro, a casa. E então, os brothers se tornam realmente os últimos a saber. Ainda não terminei de assistir Dead Set, mas só de lembrar eu me arrepio todinho. Não de medo, mas de excitado.

Aliás, eu ando assistindo menos filmes na minha vida e mais séries. Não que eu tenha deixado minha maior paixão de lado, pelo contrário, o cinema sempre será meu maior amante, mas o momento de séries no mundo anda bastante bom há quase uma década. Meu vício atual é nas hilárias Desperate Housewives e Ugly Betty.

Desperate Housewives talvez seja o Sexy and the City as avesas, mulheres belas, gostosas, inteligentes e poderosas que apenas se dedicam a cuidar do lar, da família e viver uma vida comum. Com essa idéia, Desperate se torna fantástica por abordar que vidas comuns não existem, todos temos segredos, perversões, fantasias, mistérios e, principalmente, passado. A primeira temporada é genial, as outras são muito boas. É leve mesmo quando deveria ser pesada e me faz dar altas gargalhadas com seu humor negro. Talvez seu maior defeito seja a politização, é visível que todos lá são republicanos e votariam no McCain.

E em contrapartida temos Ugly Betty. A versão americana de Betty, a Feia, que venhamos e convenhamos, quando lançada em 2006, ninguém acreditava que daria certo. E deu, até demais. Com essa eu gargalho. Os primeiros episódios tiveram a idéia de copiar descaradamente um clássico do novo cinema pop, O Diabo Veste Prada. Se bem que eu diria parodiar. Betty é doce, companheira e ótima empregada. Mas é mais feia que um zumbi e causa tanto terror quanto um quando passa. Os roteiristas tiveram a brilhante idéia de misturar o glamour americano com a perspectiva dos países latino, que vai desde o bairro de Betty, tipicamente porto riquenho, as novelas que seu sobrinho assiste. E incrivelmente, todos os personagens possuem fortes personalidades e se tornam destaques, coisa rara.

Betty me dá saudade de filmes de zumbi, mas saem poucas coisas por ano. Eu assisti Doomsday, que parecia ser um filme de zumbis, mas que se mostrou ser uma piores coisas que saíram ultimamente. Sua fórmula é: Los Angeles - Cidade Proibida encontra Mad Max que encontra O Senhor dos Anéis. Viajou na maionese legal pra não chegar em canto nenhum.

Minhas esperanças de filme de zumbi estão no comentado anteriormente, Otto; or up with dead people. O problema é que esse é um filme de Bruce laBruce, então é o tipo de filme pra chegar com jeitinho, devagar, sem desejar saber o que você vai ver na tela. Já li críticas dizendo que assim como Todo Mundo em Pânico é uma sátira de filmes de terror, Otto é um tipo de bizarra sátira a filmes experimentais, vanguardistas e cults, por isso a citação de Godard e não alguma de George Romero. Além disso, dizem que é um filme que mistura zumbis, com pornografia, movimento punk e um filme dentro do filme. Dizem as más línguas que é difícil inovar no tema de zumbis, mas eu acho mentira. Eles são um dos maiores ícones da cultura pop de massificação e sempre serão.

Assim, aguardo ansiosamente os episódios finais de Dead Set e o lançamento de Otto, enquanto a minha idéia genial de misturar Jason com o Big Brother não brota na cabeça de um roteirista hollywoodiano.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Móveis Feitos Com Tabaco, Quanto Custa O Seu Desejo E Waldick Soriano Is Rock

A imagem que ilustra a primeira parte desse texto é meramente ilustrativa

Fazer compras sempre me foi uma tarefa fácil e, no geral, sempre é uma tarefa fácil para qualquer pessoa do gênero masculino, independente até de com quem esse gênero prefere fazer sexo. É ter o que quer na cabeça, sair, comprar e voltar. Simples assim. Já mulher, não, pensa, pensa, não decide, sai, volta, sai, volta, decide, volta atrás na decisão, encontra algo que nem queria comprar na verdade, decide-se por esse algo, fica em dúvida se leva o que queria ou o que não queria, decide-se pelo que não queria, pechincha, paga, volta pra casa e, geralmente, se arrepende. E aí mistura eu e minha avó na compra dos novos móveis do meu quarto que, bem, foi uma pequena odisséia.

Eu havia me decidido pelos móveis da loja A, mas aí eu enrolei duas semanas pra comprar, até que no dia resolvo ir com a minha avó, a gente vai na loja A, mas ela me faz ir na loja B, C, D e E. Tudo na C é bonito, mas é caro também. Tudo na E só parece bonito e ainda é caro. A gente roda, roda, e no fim eu resolvo por um móvel da B e um da A, de um total de três eu planejava levar. Simples assim. Mudou tudo. Ate a cor. Em primeira instancia tudo era marfim, logo, virou branco e preto, seguindo tendências modernas (lê-se: um amigo meu em sampa decorou todo o apê dele com móveis brancos e pretos, quis igual).

Os problemas só começaram. Já na entrega o guarda roupa veio com um fungo de uma ponta a outra. "Mas é so uma manchinha", disse o entregador. "Teu cu!", respondi de volta. Como vingança, a loja em questão resolveu atrasar minha vida em uma semana. Como meu quarto estava um pouco mais organizado que uma ruela no Iraque, tive que dormir esse tempo todo com a minha mãe no quarto dela. O problema não era nem o fato de que eu, um garoto de 20 anos e 1,80m, estava dormindo novamente com a mãe, como uma criança que acordou no meio da noite por causa de um pesadelo (Deus, a última vez que eu fiz isso eu tinha 12 anos), o problema era que depois de 4 anos dormindo sozinho numa cama de casal (ok, nem sempre sozinho), você fica um pouco espaçoso.

Tipo, eu acordava no meio da madrugada batendo em alguma coisa com meu joelho, por reflexo, eu batia uma segunda vez, com mais força ainda. Isso em que eu batia era o corpo da minha mãe. Tadinha.

No final das contas, o quarto foi praticamente reformulado e tudo ficou lindo. Quer dizer, ate eu perceber que eu havia perdido metade da entrada do meu banheiro e que meu avô havia lembrado que eu não tenho costume de limpar nada, logo ele da dois meses pra que as partes brancas fiquem marrons. "fica em dúvida se leva o que queria ou o que não queria, decide-se pelo que não queria, pechincha, paga, volta pra casa e, geralmente, se arrepende", lembrei dessa parte e suspirei fundo.

Pior que isso só o diabo do iPhone. Eu passei meses sonhando que o preço dele no Brasil não seria abusivo. Mas aí ele chega, chega com força e chega com umas 1500 pilas só o corpo. Porra de país com telefonia do caralho (momento desabafo mode: off). Não entendo como a Apple aceitou a comercialização de seu produto carro chefe dessa maneira. A empresa de tecnologia mais admirada do mundo por nerds, teens e high society (tudo ao mesmo tempo), pretendia popularizar o aparelho no mundo. No Brasil ele vira acessório de luxo.

Mais revoltante que isso, so a Preta Gil, de penetra na festa de lançamento do celular, usando preto, que ela acha que vai emagrecê-la (mas desculpa te avisar seu canhão, não funciona), que ao indagada sobre que aparelho compraria (8GB ou 16GB) a cantora (heim?) respondeu "Comprar? A gente não é hipócrita, né?", disse, confiante no brinde após a festa. "Eu quero o G3". A vaca queria o aparelho de GRA-ÇA! E eu que se comprar o meu vou ralar um ano só pra pagar. Detalhe, G3 é o tamanho da calcinha dela, o iPhone é 3G.
Você viu Jesus? Não?! De novo então...

Já que não da pra ser o consumista desenfreado, vamos ser o indie. Esse último final de semana aconteceu em Rio Branco o já bastante reconhecido Festival Varadouro. Foi a primeira vez que eu fui em um festival do circuito independente, antes eu só escutava as coisas pelo MySpace, e embora eu tenha ido apenas na segunda noite, e colocado meu nome para cobrir o evento, correndo atrás dos palcos, na frente dos palcos e nas coletivas para tirar fotos, foi tudo muito bom.

Organizado pelo Coletivo Catraia, o Varadouro desse ano trouxe atrações de peso do cenário independente, como Ecos Falsos, Daniel de Moraes e o Sindicato, Hey Hey Hey, o estonteante Cordel do Fogo Encantado e um dos maiores símbolos de toda cultura acreana dessa nova geração, a queridinha Los Porongas (o qual eu não vejo um show desde que eles foram para São Paulo ano passado). Não vou me atentar a criticar o Festival, eu não tenho cacique o suficiente pra isso, além de ter visto apenas metade das apresentações. Mas é fato que eu não posso deixar de falar da banda que mais me chamou a atenção, Diego de Moraes e o Sindicato.

Lembro que depois de eu tirar algumas fotos do Cabocrioulo, andando de volta por trás do palco, vejo de relapso uma coisa correndo por mim, onde só pude identificar os cabelos pretos longos, uma mochila, calças e blusa de botão imediatamente penso, "menino ou menina?". Descubro depois, já na frente do palco, que esse era Diego de Moraes, subindo com sua banda e iniciando sua apresentação com a viciante musica Amigo. O diferencial da banda apresentado no som que eles produzem é hilário, divertido e contagiante. As mudanças de tom que Diego usa em suas musicas são engraçadas ao mesmo tempo que prende a atenção. E que porra de estilo é aquele? Samba, brega, rock, forró, tudo misturado?

Não é uma apresentação metódica, com o objetivo de ser perfeita, de se aclamar como uma banda. São garotos cuja maior paixão é visivelmente fazer musica e que se divertem imensamente com isso. Não é a toa que em dado momento, Diego cai entre duas caixas de som e lá fica, cantando, rindo, gargalhando, até o momento em que tudo perde o nexo, e ele começa a cantar "Sorria meu bem, sorriiiia", vira pro público e em tom de quem está conversando com seu melhor amigo diz, "escutem Waldick Soriano, assistam o documentário Eu Não Sou Cachorro Não". Eu não sei o resto do público, mas eu o aplaudi com louvor.
Diego de Moraes como eu o vi

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Morcegos Terroristas, Que Primeira Dama Você Quer Para O Seu País E A Busca Pelo Som Perdido

Mesmo trabalhando em dois empregos, a minha situação financeira anda tão preta que eu não estou mais matando cachorro a grito, e sim em linguagem de sinais. Aliás, taí um ponto interessante, eu tenho dois empregos e as pessoas pensam que eu sou rico, é a mesma coisa que colar penas nas costas e disserem que eu sei voar. Com as férias da UFAC chegando eu resolvi que vou voltar a praticar natação depois de quase dois anos parado. Se você pensou, “Menino sem imaginação, só porque acompanhou o Phelps nas olimpíadas agora quer voltar a nadar”, eu repondo, “Lógico!”

Aliás, tava conversando com a Manu sobre as olimpíadas e ela me disse que, “E aí, o que vai acontecer depois que o Phelps tiver quebrado todos os recordes? Ele vai se sentir um frustrado”. Eu não pude deixar de concordar. Claro, é o pensamento mais óbvio que depois de todo o reconhecimento mundial, todos os recordes quebrados, um monte de mulher querendo dá pra ele, mais medalhas de ouro que o Brasil em três olimpíadas e ser considerado sexy simbol mesmo com a cara do Quasímodo, ele se sentiria frustrado. Como mais ele poderia se sentir? Só a Manu mesmo.

Aliás, lembrei que com dois empregos e faculdade manter a natação seria meio difícil. Nem mesmo no meu único horário livre, a madrugada.

Ando tão cansado que ultimamente eu começo a segunda-feira sonhando com a sexta e chegando no emprego A esperando o término do emprego B, pra poder me jogar na cama. Porém, um dia desses, quando eu finalmente entro no meu quarto, jogos os sapatos pro lado e penso em me jogar no colchão, observo um estranho tipo de casulo preto perto da porta do meu banheiro. Intrigado e com meu espírito de “que porra é essa?” aguçado, me aproximei da forma anatômica não definida. E para minha total surpresa, quando eu toquei na coisa... ela se mecheu. Ok, não foi para minha surpresa, eu me desesperei feito uma menininha e sai gritando pela casa na velocidade 5, “TEM UM MORCEGO NO MEU QUARTO, ELE VAI ME MATAR E CHUPAR MEU SANGUE”.

E olha que eu ainda nem assisti o Batman, imagine se tivesse sido uma máscara de palhaço.
“Why so serious?” mode: on

Eu e minha avó montamos planos estratégicos, pensamos na hipótese de um atentado biológico ou forjar um bat-sinal pra enganá-lo e fazê-lo sair do meu quarto, mas sem muito tempo pra isso ficamos com a solução mais simples e funcional, chamar meu avô pra exorcizar o bicho. Meu avô chegou tranquilão e aceitou o caso sem pestanejar. Enquanto ele caminhava na direção do meu quarto eu gritei, “Vô, quer ajuda?”. Ele parou o passo, virou o rosto na minha direção, soltou uma risadinha e disse, “Deixa que eu dou conta”. Naquele momento eu tive a impressão que meu avô era o Chuck Norris.

Depois de estrondos que devem ter superado os tiroteios russos na Geórgia, meu avô saiu vitorioso, e o pobre morcego que entrou no seu caminho, desceu escada abaixo, morto. Pronto para desfrutar meu descanso, finalmente me jogo na cama, ligo a TV e relaxo. Até que o locutor do comercial lança a máxima, “toda a energia da Banda Calypso em uma experiência (heim?) nova... Banda Calypso Acústico”. Logo, qualquer possibilidade de eu ter relaxado os músculos e caído em sonolência foram totalmente por água abaixo, eu tive pesadelos a noite toda.



Alguém me diz quem foi o gênio que inventou isso... por favor, me diz!

Nos dias que se seguiram eu não deixei de me perguntar porque diaxos a cena musical brasileira era tão deprimente. E principalmente, por que nenhuma figura musical brasileira era capaz de me fascinar? O que leva a nossa cultura pop a reconhecer ícones tão sem sentido?

Para piorar esses questionamentos, eu finalmente conheci um pouco da fantástica obra musical da badaladérrima primeira dama francesa, Carla Bruni. Ai você depois de se espantar com o adjetivo muito gay pergunta, “Badaladérrima por que afinal de contas?”. Carla Bruni conquistou o coração do presidente Nicolas Sarkozy logo após o rompimento dele com a mulher (alguém sentiu cheiro de chifre? Levanta a mão comigo então!). Por ser modelo internacional, cantora cultuada em toda a França com dois álbuns e linda pra caralho, o romance dos dois foi super comentado no mundo inteiro. O casamento saiu depois de três meses de relação e a lua de mel só pelas fotos parece ter sido ótima. Ou seja, O Diário da Princesa perde.

Mas é a musica o que faz a diferença dessa mulher. O primeiro sucesso mundial de Bruni foi a magnífica canção "Quelqu'un M'A Dit", belíssima e tocante na letra e no som. Seu primeiro álbum foi um estrondo, já o segundo álbum (todos em inglês) não foi tão bem recebido pela crítica, já que era sua tentativa de arrancar sucesso internacional na onda de “Quelqu’um M’A Dit”. O terceiro (lançado somente após o casamento), volta um pouco mais as origens e é um tanto polêmico devido as suas referências as drogas, “Tu es ma Came”, e seus inúmeros (poderosos e ricos) amantes, em “Ta Tienne”.

Na França eles tem Carla Bruni, e no Brasil nós temos a Marisa.

Marisa: usa o cartão corporativo para comprar Contigo! e Quem Acontece

Mas eu não acho que o Lula seja capaz de conquistar alguém que estudou na Sorbonne. Enfim...

Ainda assim, acho que na concepção de artistas com musicas estilizadas e harmonia como arma principal o Brasil não deixa tanto a desejar. Temos Marisa Monte e Adriana Calcanhoto em contrapartida a Carla Bruni. Aliás, eu adorei os últimos álbuns dessas duas. Um tanto frios e melancólicos além da medida certa, mas ainda assim adoráveis. O problema nosso é na cena underground, quase inexistente, quando se fala de musica eletrônica.

Os Estados Unidos não deixam a desejar nesse quesito. Pelo contrário. Eu já havia falado um pouco da cena underground de Nova York na pele do Dangerous Muse, de longe meu duo favorito. Mas o selo californiano Iheartcomix vai muito além disso. As musicas de Acid Girls, The Glamour, Ocelot, dentre outros, são fantásticas, tem o verdadeiro espírito da musica eletrônica, aquela coisa de arrepiar a pele, levar o ritmo da musica as batidas do seu coração e elevar a circulação do seu sangue (sem precisar de drogas). Porém, o verdadeiro destaque do selo vai para as fodásticas Toxic Avenger (com direito a faixa em Need for Speed) e, meu favorito do selo, Hearts Revolution.

Da vontade de ser DJ só por causa deles.

Mas enquanto o cenário musical brasileiro anda a passos de tartaruga das para-olimíadas, o jeito é ir caçando o que o exterior também pode oferecer. Até que outro morcego entre no meu quarto, ou o Ximbinha se empolgue com a guitarra e lance Banda Calypso Heavy Metal.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Aprenda A Se Tornar Um (Pseudo) Cult

A minha vida de trabalho (escravo), aliada a estudante universitário, dono-de-quarto (sim, eu sou mesquinho) e modelo anoréxico (ok, só anoréxico), está causando uma mudança tão drástica na minha vida que só divergindo sobre o assunto pra vocês entenderem.

A questão é o seguinte. Estava eu indo para meu emprego A, no hospital, num típico dia nublado quando meu avô liga o rádio e como fundo musical toca Calypso. Depois que a música em foco passa de sua primeira repetição de refrão (porque esse tipo de música sempre repete o refrão pelo menos quatro vezes pra criar volume e chegar a 3min30s de duração), eu percebo que existe algo errado, algo que não faz parte do equilíbrio cósmico que mantém o universo funcionando, algo que vai além da compreensão da natureza, que talvez não seja explicada nem pelo divino... Meus lábios estavam se movendo, sorrateiramente um som saia da minha boca. Eu estava cantando junto com a Joelma.

Eu dei um grito. Meu avô quase perdeu o controle do carro. E enquanto eu gritava "Tirem ela de mim. Tirem ela de mim. Xoelma, NÃO!", apertando todos os botões possíveis do rádio para mudar de estação, matá-lo, ou simplesmente desligá-lo, minha mãe desesperadamente gritava no banco de trás, "O que foiiii?". Eu sabia a letra, eu sabia o ritmo, a sincronia, os gemidos que ela dava. Enfim, eu estava possuído.

Foi com esse caso que ao me olhar no espelho eu não vi mais aquele garoto que escutava The Beatles, tinha idolatria por Bob Dylan, era fã incontornável de Mika e Dangerous Muse. Muito menos o garoto que assistiu quase todas as obras de Almodóvar, nunca perdia um Cannes, descobria sozinho no mundo underground todos os mais fascinantes filmes alternativos. E onde estava aquele que entendia de moda, comportamento, tendências editorias, virtuais e jornalísticas? Na frente do espelho eu vi um garoto castigado pelo trabalho árduo, consumista, que escuta apenas a rádio popular, que cantarola Calypso no trabalho A, Victor e Léo no trabalho B (gente, eu to quase aceitando a idéia de ir pro show), que vibrou assistindo O Homem de Ferro no cinema, que está querendo ver o novo Hulk e que anda perdido em tendências e só soube que o São Paulo Fashion Week estava rolando quando ele chegou na metade (via Te Dou Um Dado?).

Se ver no espelho e ter uma crise por se achar um tribufú já não é fácil. Ter uma crise por se ver no espelho e se achar coloquial é pior ainda.

E foi assim que eu descobri que ser uma pessoa ligada a cultura e as tendências do mundo pop e underground (outra palavra que eu adoro usar) não é nada fácil.

Aliás, foi observando uma discussão entre uns grupos culturais aqui da cidade e a minha própria vida (mais pra antes do que pra depois) que eu resolvi presentear os leitores desse blog com o Manual de Como Ser Culto. Com pequenos passos que podem ser seguidos facilmente até pelos amantes da Mulher Melancia, o Fala Consciência vai ensinar para você, leitor esperto, a como carregar o título de cult, alternativo, underground, pitoresco, indie, ou seja, um (pseudo) culto.

Passo 1 – Tenha grana e tempo sobrando
Lógico que você NUNCA vai admitir isso, afinal, você não vai ter a grana na verdade, pois você vai ser sustentado pelos pais ou por aquela vó aposentada pelo TSE que ganha uma nota e só tem o querido netinho pra corujar. Enfim, a grana não é sua, mas você gasta. E gaste bem, com livros, filmes, ingressos para o teatro, bandas de garagem. Carro? So se for usado e surrado. Ou como você vai poder levantar a bandeira do preço alto para os eventos culturais em frente ao teatro municipal se você tem um Corolla esperando na saída? Com a grana, você não precisa se prender a coisas nada culturais como trabalho com carteira assinada, faça no máximo uma faculdade voltada para artes, comunicação ou sociologia (Filosofia, Música, Artes Cênicas, Letras, Jornalismo, Publicidade e Propaganda dão status, mas Ciências Sociais é a top). E com o tempo livre sempre se dedique a programas alternativos, bares undergrounds, cinema de artes, sebos (livraria é coisa de rico) e por aí vai.

Passo 2 – Seja sempre a frente do seu tempo
Arthur Rimbaud é um dos poetas franceses que mais marcaram o mundo (mais pela sua vida gay es-cân-da-lo-sa, do que pelo seu trabalho, enfim...). Sua obra é considerado sempre “a frente do seu tempo” (ou seja, ele morreu pobre pra ser reconhecido depois). Logo, se você deseja ser conhecido como alguém culto, você tem que ser moderninho e transgressor total. Defenda sempre idéias com um fevor absurdo, suba em cima da mesa, tenha o dom da oralidade, saiba chamar a atenção de todos para o seu redor. Torne-se um incompreendido (mas no campo das idéias sociais, não vem com nada emocional não ou tu vai ser considerado emo e não culto).

Passo 3 – Tenha estilo
Você acompanha o Fashion Rio? Então você não é culto. Você acompanha o São Paulo Fashion Week? Então você é culto só se for pra estudar tendências de comportamento e diversidade capitalista . A sua pose tem que ser inabalada. Você não pode ser escandaloso (ou vai ser bixa louca), mas você tem que saber chamar a atenção, principalmente quando você esta explicando porque aquele filme é uma droga e você prefere o livro (que você não leu). Fume muito Marlboro, Golden Gate, Gudang Garam, mas Free, Carlton e Master não pode. Só beba destiladas, Absolut comanda (mas compre-a em grupo, NUNCA só você, é coisa de burguês), vinho também, principalmente em sarais. Tenha sempre aquele ar de esnobe, aquela pose blasé, cuidado com a gesticulação, desmunhecar pode, falar arrastado pode, usar gírias em inglês pode, em português NUNCA. Sempre critique quase tudo, principalmente em espetáculos, mas quando demonstrar que gostou de algo, bata palmas sempre de um jeito que o difira do resto da multidão, quase psicodélico, de preferência com o cigarro na boca, gritinhos e assobios, sempre mantendo a pose de esnobe.

Passo 4 – Saiba vender a sua imagem
Saiu com os amigos para um café sem açúcar? Então ocupe uma cadeira só com sua bolsa de tiracolo (NUNCA use mochila, mochila é coisa de universitário que tem estágio), e sua bolsa tem que ser grande, mas nunca o suficiente para você, e cheia de buttons personalizados. Sempre deixe a sua edição da Bravo!, Caros Amigos e Carta Capital a mostra. NUNCA use roupas de marca. Sempre prefira blusas listradas (preto/vermelho ou preto/branco) jeans surrados ou bermudas, além do óculos de armação grossa preta ou branca e o All Star que pode ser qualquer modelo contanto que seja All Star, pulserinhas artesanais também dão um toque. Cabelo grande bagunçado (tipo Arctic and Monkeys) para meninos e cabelo preto escuro curto ou ondulado (tipo Karine Alexandrino) para meninas. Sempre domine as conversas, principalmente depois de filmes alternativos ou peças patrocinadas pela Lei de Incentivo a Cultura, mostrando seu conhecimento de caso.

Passo 5 – Morte ao POP
Você não assiste rede Globo porque ela “manipula, distorce os fatos, aliena e lança musicas como Créu em nível nacional”. Séries de sucesso como Heroes e 24 Horas devem ser evitadas ao extremo, de Lost você deve gostar apenas da primeira temporada. Você não escuta rádio, só podcast’s especializados. Cinemark NUNCA. Porque só passa blockbusters comerciais Hollywoodianos. Nada de livros do Harry Potter, tire a fantasia da sua vida, exceto O Senhor dos Anéis e a primeira trilogia (feita) de Star Wars, mas nada de fanatismo e cosplays. Sempre tenha jazz no seu MP3, mas ele não pode ser da Apple. E sempre esteja ligado a iniciativa científica (essa bem menos), aos coletivos culturais, selos independentes, cenário underground e o mesmo do gênero. NUNCA concorde com o que todos concordam. Gente culta tem sempre opinião própria (é do contra).

Esse é um Passo a Passo de ficção, mas qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Quanto ao meu período pouco cultural, eu vou retomar aos poucos minhas atividades, tentar concilia-las, mesmo porque eu to gratificado com os podcast’s do André Fischer (eu achei tudo quando ele falou, “vocês sabem como é difícil ser underground em Los Angeles”, super que eu sei). Tenho que passar longe de coisas como Amigo Fura Olho do Latino e minhas conversas animadas sobre o Palmeiras no corredor da UFAC.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Para Jovens, Velhos, Jovens Que Pensam Como Velhos, Velhos Que Pensam Como Jovens...

Volta das “Férias”: endividado até o pescoço

E lá estava eu no aeroporto de Curitiba ultrapassando a máquina de Raio-X e esperando que as minhas sacolas da Calvin Klein e da Loja Vírus passassem pela máquina, quando alguma coisa apita e a mulher manda eu parar. Sinceramente, o negão do lado parecia que tinha colocado a mão no bolso, desconfiei que fosse uma arma, mas logo vi que ele estava coçando alguma coisa (?). Pensei que eles não levariam a sério uma sacola com o nome Vírus (única loja do Brasil a vender só All Star’s), mas o problema era justamente com a sacola da CK. A mulher do lado monitor, com um ar de Super Nanny “versão-mais-séria 2.0”, olha pra mim e afirma categoricamente, “Tem um abridor de latas na sua sacola”. E eu mais categoricamente ainda “Não!”. Ela sem mudar a expressão, “Tem sim”, e eu, “Não, não tem, eu não botei nenhum abridor de latas aí não”.

Depois do 11 de setembro, andar com qualquer coisa q tenha ponta, inclusive agulha de tricô, é um perigo a segurança nacional, imagina um abridor de latas então, seria a mesma coisa que um atentado com Antrax. Então aquilo vira um embate, Samuel Bryan versus a Maligna Megera da Visão Raio-X. Ela então, com um olhar de “ah, é mesmo?” diz, “Dê a volta aqui por favor". Eu piso firmemente no chão e ao ficar do lado dela observo minha sacola com todo o conteúdo em amarelo, porém, no fundo, em um lindo contraste de azul escuro, brilhava a forma anatômica de um... abridor de latas. Enquanto a minha reação natural foi a de ficar sem reação, eu imaginei que na cabeça dela, a mulher devia estar gritando “Peeeega, filho da puta”. Ai eu escuto a voz da minha avó (que pareceu pousar no aeroporto apenas naquele momento), “Aaaah, fui eu que coloquei esse abridor aí”. Tive vontade de gritar! O negão sorriu pra mim, “Pode pegar sua sacola, ta liberado”. E em silêncio sai sem nenhuma dignidade, imaginando que o Negão e a Vaca do Raio-X ririam horrores de toda essa situação no Happy Hour.

Na conexão em Brasília, decido duas coisas: 1º- Nunca mais viajar de avião sem livros, vídeo games ou mp3, 2º- Já que eu deixei tudo isso na mala, iria comprar uma revista. Como na livraria não tinha Men’s Vogue, eu depois de muito analisar, resolvo comprar pela primeira vez, uma Rolling Stone. A curiosidade da matéria de capa foi o que mais me impulsionou a compra. No avião, eu leio a entrevista com Johnny Depp e tipo, acho que foi o pior entrevistador que eu vi em anos. Simplesmente pela leitura dava pra se perceber que a condução da entrevista não era das melhores, não era bem trabalhada. O que salvava é que o Depp é foda, então não importava se o entrevistador não sabia muito o que tava fazendo, Depp foi capaz de transmitir tudo o que era necessário ainda assim, mesmo que em alguns momentos me parecera mais uma entrevista de respostas mecânicas, dessas que os artistas dão em 9 de cada 10 entrevistas. Tipo, já não havia gostado da Rolling Stone. Mas não acabou por ai.

Rolling Stone: onde numa mesma edição você encontra Radiohead, Bob Dylan, NXZero, Sandy e Junior, Johnny Depp e Mônica Mattos (a rainha do pornô brasileiro)

A matéria de capa (que tanto me interessou) anunciava, “O Futuro da Música Pertence a Thom Yorke e ao Radiohead”. Eu não vou entrar em momento nenhum no mérito da música do Radiohead, que diga-se de passagem, eu não gosto. Ouvi algumas musicas deles em 2005, a melodia não agradava meus ouvidos e as letras me remetiam a uma banda de disco de estréia, e não de um grupo indie tão cultado. O problema era realmente a entrevista. O filme Quase Famosos retrata bem o que eu vou dizer agora. Ele conta a história de um garoto meio nerd que embarca na turnê de sua banda favorita para escrever uma grande matéria para a Rolling Stone, num quase road movie, cheio de acontecimentos fortes na vida do garoto que “nunca imaginara aquilo para a sua existencia”. Típico! Ao que parece, a relação dos entrevistadores da atual Rolling Stone com os músicos da atualidade, se tornou algo tão fragilizado e superficial como o próprio cenário do mercado fonográfico (que o último álbum do Radiohead balançou mais do que o cenário musical em si). A condução da reportagem em momento nenhum parece demonstrar explanação sobre o argumento da capa. Por que o futuro da musica esta nas mãos do Radiohead mesmo? A resposta você não vai encontrar claramente na Rolling Stone, no máximo, apenas uma afirmação de “Banda de rock mais importante do mundo”. Não há clareza. E mesmo o mundo da musica sendo repleto da falta de clareza, numa matéria jornalística que afirma algo claro, você tem que saber explanar. Parece que James Dimmock mais preferia se tornar um amigo da banda que em conversas de pubs caros em Lodres faria questão de ser conhecido como o “grande James, amigo de musicos de calibre, como Thom Yorke”, do que um jornalista interessado em escrever uma matéria que realmente demonstre o porque de afirmações tão fortes como estas, igual ao personagem de Quase Famosos.

A minha decepção com a Rolling Stone foi gigantesca. Porém, algumas páginas depois me deparo com uma entrevista de 1969 com Bob Dylan. Ah, eu me deleitei. Jann Wenner não só conduziu extraordinariamente a entrevista com um dos maiores ídolos da história musical, como ele foi capaz de fazer com que nas respostas a suas perguntas, Bob Dylan transparecesse a sua alma. Ele era foda. Dylan tinha noção de que sua musica mexia com o mundo, mexia com os jovens, era o símbolo da contracultura de sua geração e que só não gritava mais que o trabalho dos Beatles. E ele tinha noção da pressão enorme que isso fazia a ele, pressão que o próprio Wenner deixava claro em suas perguntas e afirmações. Mas Bob Dylan se mostrava receoso a tudo isso, ao mesmo tempo em que parecia se controlar para não se mostrar assustado diante de todo esse fardo. Ele só queria cantar, ele só queria mostrar ao mundo a sua obra e sentir que ela tocava a todos. Como ele mesmo disse, por causa de tudo isso, ele se vê como tudo também, “como homem casado, poeta, cantor, compositor, guardião, porteiro... Tudo isso. Serei todos.”

A Rolling Stone atual pode não ser das melhores, mas vendo aquela matéria de 1969, pode-se botar fé de mudanças igual Bob Dylan colocava fé de mudanças no mundo de sua época, mesmo que elas não tenham acontecido.

A minha lista de decepções de começo de ano (porque no Brasil o ano só começa mesmo depois do carnaval) se estendeu pelo cinema também. Em São Paulo fui assistir o tão cultado, Juno. O filme conta a história de Juno, jovem fora dos padrões de garotas americanas de 16 anos, que engravida de um “levemente retardado mental que eu esqueci o nome”, ela não quer o filho, mas desiste do aborto e encontra um casal para adotar a sua criança. O filme é bom, tem diálogos maravilhosos e muito bem trabalhados, e diferente da maioria dos filmes atuais de Hollywood, tem coração, um coração tocante até, o momento em que o “quase retardado” se encontra com Juno no hospital após o parto, mesmo sendo uma cena sem diálogo, é capaz de emocionar qualquer um. O que não me saiu da cabeça foi, “por que esse filme ta concorrendo ao Oscar de melhor filme mesmo?”.

Em 2004 assisti o pouco comentado Galera do Mal, e para mim, sua comparação a Juno é mais do que inevitável. O fato é que Juno se torna uma obra muito mais aprimorada que Galera do Mal (onde uma adolescente que estuda numa escola cristã, ao descobrir que seu namorado é gay, tenta “salva-lo” e acaba engravidando. Detalhe: o melhor amigo dela é o Macaulay Culkin interpretando um garoto cheio de humor negro numa cadeira de rodas). O problema de Galera do Mal são os diálogos e as interpretações, no qual Juno vence de longe. Ainda assim, Galera do Mal tem um carisma maior por sua ideologia e críticas, disfarçadas numa história que parece boba, mas que definitivamente não é. Mas decepção mesmo eu tive com Eu Sou a Lenda, achei tão ruim que nem consigo falar desse filme.

Galera do Mal: “Juno no Oscar!? Cadê meus créditos?”

Já que eu falei do Oscar, lembrei que assisti Onde os Fracos Não Têm Vez no Cinemark de Curitiba. É muito comum eu esquecer que tenho 19 anos, comum mesmo, mas Onde os Fracos Não Tem Vez me lembrou a todo momento qual é a minha idade. Motivo? É difícil de explicar, mas não importa o quanto você seja um jovem com uma cabeça madura, se achando um velho de 80 anos mentalmente, Onde os Fracos Não Têm Vez não é um filme feito pra jovens, e vou além, de certo modo, ele parece desprezar a juventude. É um filme para pessoas com a real experiência de vida, com a marca dos anos no couro, para pessoas que saibam o que a vida adulta (e suas frustrações, decepções, falta de fé e compaixão) são capazes de fazer a mente. A “obra prima” dos irmãos Coen não me soou como obra prima, porque ela mostrou “meu lugar” e me desprezou, mas acho que daqui a vinte anos, quando eu assistir esse filme de novo numa seção “o melhor dos anos 00 (que não teve tão melhores assim)” eu vou achar Onde os Fracos Não Têm Vez foda pra caralho.

Nem só de decepções o começo do meu ano se alimentou é claro, na minha cirurgia tudo ocorreu bem (to todo inchado, dolorido, inflamado, sem poder fazer movimentos bruscos por uns 15 dias, mas ta tuuudo bem). E ainda teve São Paulo, com seus pequenos momentos de delícia pura, como a sessão de DVD’s da Fnac, o chocolate quente e amigos no Fran’s Café, uma companhia doce até nas discussões em pleno metrô, e lógico, a Bubu Lounge, que mais que uma buaty, é um templo de som, onde por pelo menos cinco horas, eu esqueço totalmente de todo o mundo fora de suas paredes.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Em Corrimão Nem Todo Mundo Passa A Mão E Falta de Resoluções Para 2008

O fim do ano pra mim geralmente é um momento de contradições, altos e baixos. Eu tava com vontade de escrever esse post no ano passado (faz tempo, né?) mas eu fiquei muito ocupado trabalhando minha felicidade (afinal, tem coisa mais trabalhosa na vida do que se manter feliz?). Então, eu esqueci que internet existe. E o melhor, eu não me senti nem um pouquinho culpado. Mentira, mentira, eu sei, é horrível, eu sou um viciado em internet, eu sei, eu preciso de tratamento. Eu to chegando ao cúmulo de escovar os dentes e ligar o computador ao mesmo tempo (nem tentem imaginar essa cena bizarra). Enfim, o fim do ano, e eu não falo especificamente do reveillon (palavra sem tradução para o português), mas do período de nove dias que o antecedeu, o qual foi mais que bom, foi mágico.

Tá, mas nem tudo são flores na minha vida. Lembrei que meu período pré-fim-do-do-fim-do-ano não foi dos melhores. Eu fui fazer um trabalho de fotografia no centro da cidade com duas amigas, lindo, leve e loiro. Quando você anda no meio da multidão com uma câmera fotográfica profissional pendurada no pescoço, você se sente o próprio Cartier Bresson, dá aquela sensação de fotógrafo profissional que te faz inchar o peito e te dá a idéia de que todo mundo que te olha ta morrendo de inveja de você porque você é O Fotógrafo Profissional (sim, eu me sinto besta fácil). Detalhe, a câmera era da universidade e se eu a quebrasse eu teria que trabalhar dois meses para pagá-la, e sem comer nada, comendo, eu demoraria três.

Além do mais, o centro estava abarrotado de gente fazendo compras de Natal. Deus, Rio Branco vira a visão do inferno nessa época. Lembrei que sai as compras um dia com o Frederico e numa de nossas viagens, ele me levou numa loja de sapatos que mais parecia um cabaré nordestino. Ao entrar lá, minhas narinas foram tomadas não por um aroma desagradável, mas por nháca pura mesmo. Levei minha mão ao nariz imediatamente, e no meio daquele inferninho do consumismo imperialista globalizado na figura do garoto propaganda máximo da Coca Cola, o Papai Noel, eu tive vontade de gritar praquela multidão se eles não sabiam o que era desodorante, nem que fosse Leite de Rosas. Aliás, falando em consumismo, eu tive certeza absoluta que se o capitalismo fosse um ser humano, o sangue dele seria de Coca Cola, e se ele fizesse regime seria de Coca Cola Zero, o irmão gêmeo gay da Coca Cola.

Bem, o parágrafo anterior foi pra introduzir o caos do local onde eu fui tirar fotos. Voltando a sessão em si (eu escrevi sessão certo? O Word não ta acusando erro não), depois que eu dei a máquina para a Manu, ela tava atrás de tirar uma foto de linhas e resolveu faze-la na grade do Memorial dos Autonomistas. Eu tava acompanhando ela e coloquei meu braço sobre o corrimão. Quando ela terminou (a Manu faz uma foto a cada 10 minutos) e pediu pra irmos, o meu corpo mexeu, mas meu braço não. Olhei com horror e perplexidade para a minha blusa Diesel. Eu estava colado.

Depois de gritar desesperadamente “Mas que porra é essa?”, eu comecei a puxar com mais força meu braço magricela e só ouvi aquele som de coisa colada sendo arrancada à força. Geralmente esse som é muito agradável, principalmente para crianças com espírito de destruição mais aguçado que o normal, mas dessa vez eu sofria mais que um desgraçado, afinal, era a minha blusa Diesel que estava gerando aquele som perturbador (porém prazeroso quando a destruição é alheia). Quando eu me descolei e, chocado, passei os dedos no corrimão pra saber que merda era aquela, eles vieram com manchas marrom. Gritei pra quem quisesse ouvir, “COMO É QUE PASSAM VERNIZ NUM CORRIMÃO E NÃO COLOCAM NO MÍNIMO UMA PLACA DE ‘TINTA FRESCA’? FRESCO É QUEM PINTOU ESSE CARALHO”.

Eu passei o resto da sessão (?) desoladíssimo. Eu havia perdido minha camisa Diesel, e eu ainda to em fase de futilidade de moda, por isso não me critiquem (aliás, eu me dei de Natal uma cueca Calvin Klein linda, afinal, a gente tem que passar o reveillon de roupa nova). Pra piorar, minha professora de Fotografia, a Aleta, pra tentar me consolar disse, “Você pode recortar a camisa e fazer dela uma camiseta”. Soltei um sorriso e comecei a me acostumar com a idéia, ate que ela solta, “Vai ficar parecendo um cafuçu”. Pronto. Lógico, ela não fez com maldade, mas eu fiquei chocado.

Na saída do Mercado Velho, eu pensei e vi que havia um jeito de salvar a camisa. Se um dos meus suvacos estava cheio de linhas de verniz, o jeito era deixar o outro com linhas de verniz também. Voltei com a Manu no Memorial e quando chegamos lá eu disse pra ela, “Você finge que a gente ta cansado que eu vou colocar o braço aqui e esperar um pouquinho ate o verniz manchar o outro suvaco da blusa”. Ao invés de fingir cansaço a Manu desatou a rir. E quando eu coloquei o braço não senti colagem. O verniz secou. Ódio. QUANDO ALGUEM DESTROI O PATRIMÔNIO PÚBLICO TEM QUE PAGAR UMA MULTA, MAS QUANDO O PATRIMÔNIO PÚBLICO DESTROE O PRIVADO O GOVERNADOR DEVIA ME FAZER UM CHEQUE NÃO? Desisti daquela batalha, ela estava perdida.

Eu acho que como a maioria das pessoas eu deveria escrever sobre ou uma retrospectiva de 2007 ou minhas expectativas para 2008 (alguns falam das resoluções também), mas eu tenho 2 problemas. O primeiro é que eu tenho uma péssima memória, eu me lembro das sensações muito fácil, mas pouco dos fatos, na verdade eu até me lembro dos fatos, mas sou extremamente péssimo com cronologias. Por exemplo, eu lembrei que esse eu ano assisti O Libertino, mas pensei que havia assistido há dois anos, e que eu assisti Os Sonhadores (filme favorito) acho que em 2004, mas parece que eu assisti ele esse ano. E o principal, quem diabos cumpre aquilo que promete para o ano novo? Tanto faz se você promete emagrecer (ceia de Natal e Reveillon pódi), se promete arranjar amor novo (sem especificar se é um oficial ou amante), se é acordar e dormir cedo pra aproveitar melhor o dia (sendo que já no dia primeiro acorda depois do meio dia e de ressaca só pra tomar analgésico e dormir de novo) e, principalmente, estudar mais (a pior das mentiras de ano novo, porque é justamente a que menos se cumpre).

Na verdade, talvez eu faça apenas uma retrospectiva cultural do meu ano pra colocar aqui anteriormente a esse texto. 2007 me foi um grande ano com relação a séries de TV, cinema, musica, literatura, artes e viagens (Bolívia não conta). Aliás, foi um grandioso ano na minha vida pessoal também, especial de uma forma que eu não esquecerei. Eu sempre gosto dizer para todo mundo que me pergunta sobre o ano novo que eu só tenho uma expectativa para o ano novo que chega, sempre só uma, mas que eu nunca falo pra ninguém. É meio que um segredo e uma superstição minha (tipo aquela de costurar uma cueca na boca de um sapo pra trazer o amor de volta em três dias, e eu to louco pra fazer esse experimento não pelo efeito da macumba, opa, quis dizer simpatia, mas porque eu queria saber quanto tempo um sapo sobrevive com um cueca costurada na boca).

Enfim, feliz ano novo e, novamente pegando um pé da Coca Cola, good vibes.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Cultura Pop, Harry Potter, Literatura Anti-Pop e trocadilhos horríveis...


Eu adoro o blog do Zeca Camargo. Ele começa falando de nada e termina com porra nenhuma. Isso é modo de dizer, claro, afinal o cara é dono de uma cultura (e de carimbos no passaporte) que eu definitivamente invejo positivamente. Mas eu não to aqui pra falar dele ou do blog dele. Na verdade começo esse post falando de um dos últimos textos dele, o “Já Estou no Quinto Capítulo do último Harry Potter”.

O texto em questão começa falando da leitura do Zeca do último Potter (íntimos, não?) mas acho que o Zeca nunca faria um post só sobre o Potter (se ele fizer eu paro de ler aquela merda), o post falava sobre a companhia de dança Grupo Corpo e seu espetáculo. Muito bom por sinal, queria assistir. Porém, o Zeca teve uma surpresa desagradável nos comentários. Uma trupe de pottermaníacos se revoltou e não parava de falar que ele havia usado Harry só pra atrair atenção do blog e que pararam a leitura assim que ele começou a falar de dança e corpo. Me poupa, né? Um pottermaníaco ir no blog do Zeca só pra ler sobre é Harry e ainda sair reclamando porque leu sobre dança, e podendo encontrar muita coisa sobre musica, literatura, cinema e arte, é na verdade não um fã, mas um perfeito idiota.

Onde eu entro nessa história mesmo? Ah sim, lembrei. Sou fã incondicional de Harry Potter. Isso mesmo que você leu. Não acredita? Lê de novo. E não li ainda o último livro (o que está corroendo a minha alma) e para desastre geral da minha consciência como cidadão brasileiro que tenta o máximo possível agir como um não-cidadão-brasileiro-típico eu já sei o final do livro.

Até hoje eu sinto vontade de socar alguém ate sangrar ou no mínimo ficar em estado de semi-insconsciente com a cara toda inchada (alguém sabe de alguém que seja pago pra receber esse tipo de serviço?). Mas não posso. Por quê? Porque a pessoa que me contou o final de Harry Potter and the Deathly Hallows foi ninguém mais ninguém menos que minha priminha de 9 anos. NOVE ANOS. Não acredita? Lê de novo então porra, se eu to dizendo que foi é porque foi. Foi ela, aquela fedelha, que não entende de cultura, que não lê nada além das legendas do Xuxa Só Para Baixinhos, que não houve nada além de RBD e não assiste muita coisa além do desenho da Polly.

Um estrago que nunca será corrigido na minha alma. Uma espera de mais de cinco anos foi estragada por uma criança de 9 anos em que nem bater eu posso.

Ai pra piorar eu estava discutindo literatura com o Cristopher, o Gildson, a Daigliene e o Elzer (na verdade era so eu, o Chris e o Gil, a Daí e o Elzer so balançavam as cabeças de vez em quando). Aí entramos na questão da importância cultural de Harry Potter. Gil falou que tanto faz como tanto fez (quanta apatia), eu defendia que Harry Potter tinha um valor cultural gigantesco e serviria de influência para milhares de crianças numa nova forma de literatura e agregação de valores, e qual não foi minha total falta de expressão quando o Chris disse que o Potter só servia para difundir Magia Negra nas crianças (detalhe: é nisso que ele acredita e ele falou isso sério).

Desfazer o argumento do Gildson de que Harry não tem valor nenhum foi fácil. Afinal, ele usou de todos os valores possíveis de outro história para escrever seu próprio livro e possivelmente trilogia, o fantástico O Senhor dos Anéis, que tantas outras pessoas condenam, mas que o Gil idolatra. Lembrei ele desse fato com um sorriso vitorioso no rosto, logo ele ficou calado. Quanto ao Cristopher e aquela idéia extremamente maluca e de pouca visão, eu nem tentei mudar a concepção dele, ou eu teria que faze-lo deixar de ser crente.

A discussão levou outro rumo. Por que lemos tantos autores estrangeiros e poucos brasileiros? Por que gostamos tanto de livros de auto ajuda da Sextante (na verdade eu não gosto nem um pouco, condeno auto ajuda) e não de livros de valores morais do Frei Beto? Pra mim a literatura brasileira morreu com Clarice Lispector (a que eu chamo de “a última diva da literatura”). Nossos novos escritores não sabem inovar, criar referências, usam apenas a daqueles que já morreram. Os novos escritores brasileiros (que dificilmente fazem sucesso) se agregam demais ao que já existe para criar suas obras ao invés de criar o novo. As editoras também não colaboram é claro, mas em suma é isso.

Eu gostaria de uma revolução cultura. Uma nova Semana da Arte Moderna Versão 2.0. Uma valorização da nova literatura brasileira. Um recomeço. E eu adoraria fazer parte desse movimento, tanto como um ávido leitor, como de um homônimo escritor. Pois como disse minha “última diva da literatura”: É que eu, simbolicamente, morro várias vezes só pra experimentar a ressurreição. Ou coisa parecida...