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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sobre conversas na beira da porta...

Ela parou com a mala. De frente para a porta, de costas para mim.

- Eu te amo, mas só amor nunca é o suficiente.

Ele sentava de frente para ela. De frente para a porta. Mas não olhava para nenhum dos dois. Olhava para o chão.

- Nunca é.

Ela colocou a mão na maçaneta, mas não a girou. Encostou a testa na porta.
Ficaria com a marca do olho mágico.

- O meu medo nunca foi ficar sozinha. O meu maior medo sempre foi o de amar e me tornar só por causa disso.

Ele começou a arrancar a cutícula do canto da unha. Um tique nervoso. Em breve estaria sangrando.


- O meu medo sempre foi o de ficar só.
- Eu sei. É por isso que eu estou te deixando.
- Quer que eu te valorize te perdendo?
- Não, eu quero que você só me valorize.
- Eu te amo muito.
- Não quero que você me ame muito, eu quero que você só me ame.
- Existe diferença?
- Se não existisse, eu não estaria partindo.

Ela tirou a testa da porta. Mas também largou a maçaneta. Começou a amarrar o
cabelo num rabo de cavalo.

Ele finalmente olhou para ela. Largou o dedo sangrando. Ajeitou os óculos sobre
o nariz que caiam. E suspirou alto.

- Acho que amor também é isso. É essa capacidade de poder fazer facilmente alguém sofrer. Você não me amaria, se eu não pudesse machucá-la.
- Exato! Você é minha maior força...
- E sua maior fraqueza.

Alguns segundos de silêncio. Ela deixa de encarar a porta e passa a encará-lo por trás das lentes.

- E eu sou capaz de lhe fazer sofrer?
- Se você passar por essa porta sim.

Ela abre a porta. Pega a mala pela alça. Dá cinco passos em direção ao corredor. Larga a mala e vira para ele.

- E agora?
- Meu coração está dilacerado.

Ela segura novamente a mala. Volta para o apartamento. Tranca a porta. Vem em sua direção e o beija na testa.

- Então eu já posso voltar.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um conto de inverdades

Éramos três grandes amigos. Desde crianças, jovens e agora naquela fase que nunca sabíamos o que realmente éramos ou simplesmente tínhamos medo de admitir o que somos. Sim, pois durante uma grande fase da vida, que só mais tarde perceberemos que foi pequena, nunca sabemos dizer se somos jovens, adultos, se não queremos ser um ou não querermos ser os outros. Enfim, éramos três grandes amigos e no final, isso é o que realmente conta.

E como grandes amigos, estávamos exatamente naquela fase em que grandes amigos não parecem ser tão grandes assim. A última vez que saímos juntos foi há seis meses e eu realmente não tinha muita idéia do que todos estavam fazendo naquele momento. Até o dia que F me liga, e primeiro eu fico surpreso, depois eu fico nervoso. F não tem o costume de me ligar, se assim o fez, era por um motivo drástico. E assim ouvi sua voz do outro lado da linha.

“S está com problemas. Aliás, ele está com vários problemas, mas o principal, que resulta nos outros é só um. Ele e B acabaram.”

Pronto, ai estava o motivo drástico.

“Deus, como assim?”

“Sei lá, K. Ciúmes, desgaste, alguma coisa assim. Mas já era, acabou. Só sei que nós iremos sair hoje. Porque ele precisa de nós e vamos tirá-lo dessa fossa.”

E eu desligo confirmando e confuso. S e B eram inseparáveis, se amavam, se idolatravam, se cuidavam. Eram um tipo de exemplo que todos ou 1)se inspiravam para ter um igual, ou 2)invejavam porque nunca teriam um igual. Mas tudo nasce, cresce, morre. Já F não. Era um inveterado boêmio, de noites descontroladas e dias cobertos com cortinas para que pudesse dormir. E no entre os dois, lá estava eu, como um meio termo, num triângulo amoroso em que nenhum era realmente parecido com nenhum.

A noite, F me pegou em casa, eu o cumprimentei e fomos até a casa de S pegá-lo para sair. Ele estava péssimo. Primeiro fizemos a linha “nada está acontecendo”, tudo esta lindo. Mas não demorou muito e F já foi puxando nomes que ele mesmo dissera que não iria pronunciar. Fazia discursos de como S estava preso demais a essa vida de casado, sem ser, de como era jovem ainda, sem ser tão jovem assim, tinha que curtir, beber, jogar, fuder.

E S só balançava a cabeça, e eu só balançava a cabeça se ele balançava.

Vamos para um bar. Bebemos, bebemos e bebemos mais um pouco. E depois caímos na balada. Então percebo que não sou mais um garotinho se descobrindo, que aquilo não é mais pra mim, que eu não deveria mais fazer parte desse mundo. Mas quem se importa? E eu bebo mais, e beijo, e falo o que nem me lembrarei, e beijo mais, já falei que bebi muito?

S começa a se soltar também, tímido no começo, ficando mais leve pro meio, bem soltinho no final. Nem parecia um fudido que acabara um relacionamento de 5 anos, que no nosso mundo queria dizer praticamente cinco décadas. E beija, e se diverte, sempre incentivado por F, seu mentor, seu guia.

F não tinha jeito. Era um caçador, um devorador de pecados, sem nenhuma culpa assimilava para si o que havia de mais luxuria. E ali eu tenho dois extremos se tornando um só. Como se S agora fosse um discípulo de F. Um discípulo da sacanagem, putaria, bebedeira e promiscuidade.

Porém, ali estão os olhos vazios de ambos. S, por estar perdido, tentando se encontrar perante o desmoronar do seu mundo junto a outrem que tanto ainda ama. E F, perdido num labirinto criado por si próprio do qual não conseguia sair, só andar em círculos.

Já amanhecia quando finalmente deixamos S em casa. Que meio bêbado, meio choroso, nos abraçou como uma criança abraça seus pais na hora de uma despedida.

“Obrigado por me salvarem, vocês são os melhores amigos que uma pessoa pode ter.”

F diz.

“Não sofra, pois serão assim as próximas noites da sua vida. Grandes, longas, intensas e vívidas.”

E eu só beijo ambos e concordo. Mas é quando S entra dentro de casa e eu vejo sua silhueta triste fechando a porta, que eu percebo que nada daquilo era verdade, que eu nunca deveria ter concordado com as palavras de F, que eu deveria ter me virado para S e falado.

“Grandes e longas, sim. Intensas e vívivas, nunca. Ela vai lhe causar dor e sofrimento num momento próximo. Nunca adiantará ter se deitado com milhares, se você não tem nada para compartilhar com apenas um. Durma, acorde, tome um bom banho, e vá atrás de B. Porque quando você está ao lado do seu amor, você não precisa de mais nada. Então se for pra se desgastar ao máximo por isso, se desgaste. Procure acima de tudo se encontrar, mesmo que não seja junto daquele que ama, mas acima de tudo, de si mesmo. Porque essa sim, é a opção que eu queria pra mim.”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Eu odeio começar uma obra e não saber como terminar

1.0

O ônibus da Ufac às 18h30 é lotado. Completamente lotado. Geralmente depois da metade do percurso ninguém mais consegue subir e ninguém desce. As pessoas lá só vão pra Ufac. Elas não vão descer na metade do caminho. Então o ônibus fica lotado. E ninguém mais entra.

Ainda assim o ônibus vai num silencio mórbido. Ninguém conversa, ninguém troca olhares. Eu olho todo mundo. Mas ninguém me vê, porque ninguém me olha, ninguém repara em mim, e ninguém repara em ninguém. Até o dia em que eu olhei praquela garota e surpresa, aquela garota olhava pra mim.

1.1

Eu estou deitado no colo daquela garota. Ela afaga meus cabelos e me canta musicas dos Los Hermanos. Ela adora as musicas dos Los Hermanos, ela ama, diz que o Marcelo Camelo é o poeta de toda uma geração. Eu odeio. Aliás, eu nem ligo. Eu gosto de escutar Arctic and Monkeys no meu ipod. Ela não tem ipod. Aquela garota de saias de renda canta Los Hermanos pra mim enquanto eu estou no colo dela. Eu odeio Los Hermanos. Mas eu gosto daquela garota. E a voz dela é tão gostosa.

Faz um calor danado na Ufac. É começo de maio. E debaixo de uma árvore eu estou no colo daquela garota. É sábado de manhã. Um ônibus passa por nós. Ele está vazio. Nenhum ônibus circula cheio na Ufac sábado de manhã. Só o primeiro. Aquela garota massageia meus cabelos. Ela olha pra mim e sorri. Ela canta baixinho “deixa eu brincar de ser feliz”. É uma frase bonita. Mas em seguida vem “todo carnaval tem seu fim” e eu sinto uma tristeza tão grande dentro de mim.

1.2

Aquela garota anda na minha frente. Nem de perto, nem de longe. Ela está numa distancia fixa. Vinte minutos atrás ela tinha dito “eu não sou capaz de te amar”. Quinze minutos atrás começou a chover desesperadamente. Dez minutos atrás ela começou a caminhar debaixo de chuva. Nove minutos atrás eu tentei abrir meu guarda chuva, mas ele quebrou, porque eu tentando limpar meus óculos sujos na frente de respingos d’água e atrás das minhas lágrimas acabei abrindo o guarda chuva errado. Oito minutos atrás eu estava começando a andar rápido para alcançar aquela garota, mas quando eu a alcanço, eu diminuo passo. Quatro minutos atrás eu estou completamente encharcado e minha cueca molhada incomoda porque começa entrar dentro da bunda. Dois minutos atrás aquela garota para de andar, eu paro junto, ela olha pra mim e diz:

“Eu estou indo embora e você nunca mais vai me ver”.

Um minuto atrás aquela garota foi embora. E eu nunca mais a vi. Zero minutos atrás, eu estou parado, chuva caindo, e a cueca não me incomoda mais. Meus óculos estão molhados por dentro e por fora.