terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Homenagem é na verdade a desculpa que você usa para ganhar algum lucro sobre algo que já esta consagrado

Pra vocês terem uma ideia, o último filme que eu assisti no cinema foi aquele A Filha do Mal. E eu fico muito feliz que minha mãe tenha pago o ingresso e meu sanduiche no Subway pelo simples fato de querer minha companhia. Sim, eu sou desses que se vende, to quase colocando uma placa nesse blog de: “Vendo opiniões. Preço barato!”, mas esse não é o objetivo desse texto. Enfim, fiquei feliz de não ter tido gastos porque eu odeio ter que gastar dinheiro com algo que eu já sei que não vou gostar e eu acertei em cheio. Mais um filme de exorcismo, mas um filme falso documentário, mais um filme ficcional que tenta vender a imagem de que é real. Enfim, ruim de doer.

Encaremos os fatos: criatividade é algo que anda em baixa hoje em dia quando o assunto é alguns dos elementos da cultura pop. Eu mesmo quase não vou mais ao cinema. Tem sido difícil acompanhar as superproduções tipo blockbuster porque a grande maioria virou uma sopa de mais do mesmo. De fato, a experimentação anda em baixa e o que faz sucesso ou já é algo pré-consagrado (os filmes mais aguardados de 2012 são Os Vingadores, o novo Batman e O Hobbit) ou algo que pega carona no sucesso, tanto faz se com a desculpa de homenagem, paródia ou plágio descarado (existe a produção de um filme bem idiota chamado Poder Sem Limites sobre adolescentes que ganham super poderes e que vão de heróis a bandidos em pouco tempo. Um beijo pra X-men).

E sabe o que mais surpreende hoje em dia? A audácia esta em um lugar que só vem a crescer depois de uma razoável queda: a TV.

A TV precisou se reinventar tanto, que hoje é a melhor produção de conteúdo audiovisual pop da atualidade. E não, nem a internet tem chegado perto do que a TV tem produzido, apenas pirateia seu conteúdo. Supere isso, o congresso americano superou. Ah, e pelo amor de Deus, se você desconfiou que eu to falando da TV brasileira, toma vergonha na cara. Obviamente eu estou falando das séries das TVs americanas e inglesas. Tem muita coisa boa no ar, novidades, mas hoje eu quero falar apenas especificamente de um ponto, de uma homenagem, a um dos personagens mais incríveis da literatura e que existe há mais de um século: Sherlock Holmes.

O personagem criado pelo médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle é famoso mundialmente por ser apenas um grande investigador. Mas é sua personalidade aquilo que sempre mais me atraiu em sua concepção: arrogante, prepotente, frio, insensível e absurdamente genial, o que lhe transforma num alguém fascinante e irritante. E encaremos os fatos, nunca uma obra fora do seu próprio universo literário retratou Sherlock em sua exatidão (ate a famosa frase “Elementar, meu caro Watson”, nunca foi citada em um único livro, ela foi criada no teatro). Porém, um dia, a BBC resolveu produzir uma série para o personagem chamada Sherlock, com um diferencial que era o grande risco de tudo, trazer seus casos para o mundo contemporâneo. E quer saber o mais incrível? Deu certo como ninguém imaginou que iria dar.

A primeira temporada de Sherlock foi exibida pela BBC em julho de 2010, com apenas três episódios de 1h30 cada um. Monstruosamente, a segunda temporada só foi exibida em janeiro de 2012, longos 18 meses de espera. Pessoalmente, foi uma tortura esperar tanto. A superprodução britânica traz Benedict Cumberbatch no papel de um Sherlock tão bem personificado que ficamos entregues a atuação. Mas é a adaptação para os dias contemporâneos das história que mais nos surpreende, principalmente em seus detalhes. Dr. Watson como médico de guerra vindo do Afeganistão: confere. O irmão genial que trabalha para o Ministério da Defesa: confere. A rua, a casa e a locatária: confere. James Moriarty, consultor criminal e terrorista, o primeiro super vilão da literatura ocidental: confere.

Tudo é rondondinho em Sherlock, a trama, as revelações, as ligações, as amarras. Ate as piadas são boas, em particular as que fazem referência a Sherlock e Watson como casal gay. O cinismo do personagem esta sempre claro e chegar a irritar o telespectador. O gimmick envolvendo SMS é bem original, aliás, a paixão pela telefonia móvel é bem nítida pelo personagem. Os momentos forçados, e eles existem aos montes, são compensados pelas maestrias do roteiro e a dinâmica que nos faz precisar usar muita atenção para acompanhar tudo. Nunca considerei nenhuma série perfeita, mas Sherlock beira isso, a melhor já feita para a TV em minha opinião. Vem, deixa sua marca e vai embora, causando uma sede por mais que quase sufoca. A terceira temporada esta confirmada.


Em seus poucos seis episódios, dois são os que mais se destacam: A Scandal in Belgravia e The Reichenbach Fall, que respectivamente falam do caso de Sherlock envolvendo a única mulher que derrotou o detetive, a sensacional Irene Adler, interpretada com louvor por Laura Pulver, e o seguinte sobre o Desafio Final, proposto por Moriarty, que na série foi transformado num antagonista caricato, a versão maligna do próprio Sherlock, tão inteligente quanto doente mental. O final é marcante, pois assim como na literatura, o maior feito de Moriarty não é ser genial, maquiavélico e monstruoso, mas sim usar tudo isso para fazer de Sherlock um patinho e simplesmente superá-lo, a verdadeira queda.

Sherlock nunca foi tão bem homenageado como pela BBC. O mesmo não se pode dizer dos filmes...

O simples fato de Guy Ritchie querer transformar Sherlock Holmes em um super herói de ação que usa pancadaria praticamente o tempo inteiro fez seus dois filmes baseados no personagem darem errado e não foi pouco. O filme é bem mala, feito para divertir, e não usa muito daquilo que é o real potencial do personagem. Aliás, esse Sherlock tenta ser ate cativante e o Watson em questão é menos “passivo” do que o da literatura, já perdeu meu respeito aí. Mero entretenimento para se ganhar dinheiro na bilheteria, não uma homenagem.

Vale lembrar que até o Jô Soares tentou se dar bem com o detetive mais famoso do mundo e escreveu o livro, O Xangô de Baker Street, que é ruim de doer. Seria bom se fosse qualquer outro detetive, mas se apropriar da imagem de Sherlock sem realmente usar essa imagem não deu certo. Completamente surreal essa ideia da vinda de Sherlock e Watson para o Brasil na época do império para resolver um caso e enfrentar grandes inimigos: feijoadas, caipirinhas, vatapás, pais de santo e o poder de sedução das mulatas locais.

Quer um filme maravilhoso de Sherlock Holmes? Assista, O Enigma da Pirâmide que tem todos os ingredientes de uma aventura despretensiosa, divertida e inteligente para o público jovem, diferente das bostas produzidas pra juventudes hoje em dia (e olha que Crepúsculo deixou de ser alvo do meu ódio para mirar em Jogos Vorazes). O filme, uma fantasia que deu certo, mostra como o detetive Sherlock Holmes e o fiel escudeiro Watson teriam se conhecido no colégio interno, quando ambos eram estudantes (coisas que NÃO existe na literatura). Já no primeiro encontro entre eles temos a cena de Holmes dando uma amostra vívida do seu famoso raciocínio lógico, descobrindo não apenas o nome do novo colega de classe, mas também a origem do rapaz, a profissão do pai dele e até os gostos culinários. Uma trama de mistério muito bacana e ambientada belamente na Londres vitoriana com o selo Steven Spielberg de qualidade.


É interessante ver como um personagem de 150 anos ainda mexe tanto com o imaginário popular. Os livros e contos podem parecer um pouco defasados se vistos pela lógica dos dias atuais, mas a capacidade de dedução de Sherlock sempre foi apaixonante e contaminou o mundo, resultando num momento máximo de homenagens, mesmo que algumas sejam simplesmente oportunismo barato... que gera uma boa grana em bilheterias, mas barato do mesmo jeito.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os 10 melhores filmes de 2011 que você NÃO assistiu

E pelo quarto ano consecutivo, esse que vos escreve encerra mais uma temporada (ultra fraca, to pior que Dexter) desse humilde blog, com a tradicional lista dos 10 melhores filmes de 2011 que você na verdade não assistiu. Embora tenha esse nome, você possivelmente pode ter assistido algum desses filmes, é apenas uma brincadeira para divulgar filmes não comerciais de destaque internacional e obras que merecem ser vistas mas não tiveram lá tanto marketing.

E 2011 foi definitivamente o ano do drama. Não to falando do típico drama que se faz no Twitter e Facebook, mas realmente do gênero cinematográfico que era um dos mais caídos nos últimos anos de tão desgastados. Agora, a lista desse ano encabeça simplesmente oito dramas, sendo que a novidade é de pela primeira vez termos uma comédia em quatro anos.

Foi definitivamente um ano fraco para o cinema experimental, obras que ousassem sair dos padrões contemporâneos. Os diretores simplesmente se acomodaram, resolveram apostar no certo e passar longe do duvidoso. Assim, o cinema se perde um pouco mais, mas ainda se encontra, nesse eterno processo de realizações. Foi uma lista difícil de fazer (esta ficando pior a cada ano), portanto, divirtam-se.

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2011, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil, foi esse ano.

10° Lugar: Feliz que minha mãe esta viva (Je suis heureux que ma mère soit vivante – França)
A família é uma estrutura. E como toda estrutura emocional, existem pessoas que não são capazes de suportá-la. Talvez essa seja a premissa de Feliz que minha mãe este viva, filme francês baseado em fatos reais que conta a história de Thomas, jovem abandonado pela mãe, adotado junto com o irmão mais novo por um casal, mas que nunca superou esse trauma. A primeira cena do filme é uma metáfora, temos ali na praia Thomas nadando e o pai adotivo atrás, que não consegue alcança-lo. Será assim a vida inteira. Descontrói-se a história fofinha do amor pelos filhos adotivos, não é bem assim. Thomas é um inconformado e por isso vai atrás de sua mãe verdadeira, ate encontra-la e descobrir que ela é tão inconformada quanto ele, não por ter abandonado os filhos, mas pela vida que sempre teve. É um filme sobre a família, mas é um filme frio. Não porque é ruim, mas a frieza é seu estilo. A única felicidade na vida de Thomas foi descobrir que sua mãe esta viva, mas o que torna o filme inesquecível é justamente o momento em que Thomas percebe que a vida dela é justamente aquilo que prejudica a sua.

9° Lugar: Tarde Demais (Beautiful Boy – Estados Unidos)
Os eventos monstruosos que aconteceram em Columbine, nos Estados Unidos, geraram duas coisas: 1) uma série de novos eventos inspirados no mesmo, e 2) uma série de livros e documentários inspirados no mesmo. No meio da segunda opção encontramos o excelente Tiros em Columbine e o medíocre Elefante. Beatiful Boy segue essa linha de produção, mas de uma ótica diferente. É impossível se manter indiferente nesse filme. Ele escorre tristeza, sem luz no fim do túnel, de seu começo ao fim. A obra pega uma outra linha, como fica a vida do casal Bill e Kate, pais de Sam, garoto que em seu primeiro ano de faculdade entrou no campus, matou 17 pessoas e se matou com um tiro logo depois. O caos passa a reinar na vida do casal, que já se preparava para se separar, e é atingido por um baque sem tamanho. Eles são culpados? Por que o filho fez aquilo? Interessante em Tarde Demais é que essas respostas não são dadas. O filme foca apenas essa desestruturação, essa dor causada. Mais seu ponto alto é justamente mostrar que a tão famosa frase “A vida continua”, que tantos usam para se enganar, nem sempre funciona. Existem eventos que aniquilam qualquer funcionalidade dessa pequena oração, seu filho que você tanto ama matar várias pessoas e se matar logo em seguida é um deles.

8° Lugar: O Barco do Rock (The Boat That Rocked – Inglaterra)
Existe a lenda de que os opostos se atraem, depois aquela de que os dispostos é que se atraem. Balela pros dois. As vezes o que gera amor e liga as pessoas pode ser um único ponto em comum. E no caso de O Barco do Rock, esse ponto é a música. E música muito boa, diga-se de passagem. A história fala-nos das tão famosas rádios piratas da década de 60 na Inglaterra, o melhor do rock britânico, um pouco censuradas pelas rádios da BBC que se limitavam a transmitir duas horas semanais de rock (?). Somos então levados a um barco onde funciona uma destas rádios, com oito DJ’s que se encarregam de espalhar o caos das músicas frenéticas da tão afamada década, e onde um jovem, a ordem da mãe, em consequência de ter sido expulso da escola, se junta a eles e adquire este estilo de vida um pouco libertino, cujo lema era sexo, drogas e rock’n’roll. O sensacional filme junta uma série de situações hilárias e bizarras. É uma comédia, de auto nível. A quantidade de tramas paralelas é de se perder na conta, mas o filme decai ao ser mais longo do que deveria e por seu final um tanto quanto forçado. Mais do que um retrato ficcional de uma época interessantíssima, O Barco do Rock mostra que podemos fazer algo realmente bom e fora dos padrões quando queremos.

7° Lugar: Tomboy (Tomboy – França)
Me surpreendeu que Tomboy tenha sido o filme gay mais aclamado do ano. Não que seja ruim, mas eu particularmente não considero sua temática exatamente gay. É um filme que fala principalmente sobre identidade, e embora a militância LGBT faça questão de usar essa palavra na defesa de seus direitos, a questão da identidade pessoal é algo que atinge a todos, indiferente a opção sexual. Em Tomboy temos Laura, uma menina que surpreende os desavisados do filme por parecer um garoto. Após se mudar com a família, ela resolve fazer novas amizades com as crianças do condomínio, assumindo primeiramente uma nova identidade, surge então Michel. E é isso, Laura é uma menina que quer ser um menino. O filme ao contrário do que sugere, não é ousado, não é pesado. É doce, é divertido, é emotivo. Temos essa obrigação de Laura em ter que amadurecer, mesmo ela sendo apenas uma miudinha. Temos o incrível momento em que sua irmã mais nova descobre, ameaça contar, e tudo parece uma cena de adultos, ate que Laura compra seu silêncio e pensamos: “Porra, são só crianças”, para depois sermos pegos pela linda cena de aceitação da mais nova na mesa de jantar. É um filme sobre crianças sendo crianças, de como elas podem ser maravilhosas e as vezes cruéis, mas acima de tudo, toda criança é sincera.

6° Lugar: O Palhaço (Brasil)
O maior feito de O Palhaço é justamente o de não parecer um filme brasileiro. E não falo pelo status da produção delicada, do roteiro cheio de pequenos detalhes, da direção de arte caprichada, mas pelo simples fato de que é um filme simples, sem a pretensão de mudar o mundo ou ser gigante, megalomaníaco, suprassumo da brasilidade. No filme, o palhaço Benjamin, que comanda o pequeno circo que passa de cidade em cidade, esta em crise de identidade. Enquanto todos ao seu redor estão em harmonia em seus laços - o casal de acrobatas, os irmãos músicos, o ilusionista e sua filha - o palhaço conversa pouco com seu pai, também palhaço e dono do picadeiro. Existe algo incomodando Benjamin em O Palhaço, e não parece ser somente a pressão para comprar um ventilador novo para a namorada do pai, Lola, a estonteante dançarina do circo. É um filme igual vinho, em que cada situação é um gole e todas merecem ser bem degustadas. É um filme que estimula a auto descoberta. Naquela velha piada do palhaço depressivo que vai ao consultório médico e recebe como receita ver a si mesmo, O Palhaço mostra que o ideal as vezes não é estar no palco, mas por um momento simplesmente ser público desse picadeiro que é a vida.

5° Lugar: Submarine (Submarine – Inglaterra)
É meio triste ver Submarine passando como comédia indie por todos os festivais que vai. Não é só isso. Aliás, Submarine tem a capacidade de nos fazer rir várias vezes, mas todos esses sorrisos vem acompanhado de um travamento, um misto de vergonha alheia. Submarine conta a história de Oliver Tate, um garoto de quinze anos que passa por um momento conturbado ao se apaixonar pela primeira vez, enquanto paralelamente vive uma situação complicada em sua casa, com o relacionamento abalado dos seus pais. É de longe um dos filmes mais bizarros que assisti pelo fato de TODOS os seus personagens serem/terem comportamentos bizarros. O próprio Oliver acha que o mundo gira ao seu redor sendo que na verdade ele é um grande looser. Sua namorada, Jordana, é durona e completamente sem preceitos de moralidade. Seus pais são simplesmente medonhos, eu não sei como ele mora com eles. Coloque situações cada vez mais surreais na história e temos uma tragicomédia bem esquisita aqui. A verdade é que todos ali são um submarino, sem vontade nenhuma de emergir das águas e revelar suas verdadeiras faces, assim como todos nós nos comportamos alguma vez na vida, principalmente quando temos 15 anos.

4° Lugar: Toast (Toast – Inglaterra)
Um garoto de nove anos começa a desenvolver uma paixão pela culinária como nunca se viu. O que soa absurdamente estranho porque sua mãe é uma péssima cozinheira e só come enlatados e torradas, já seu pai é a grosseria em pessoa. E é focando esse amor entre pessoas e comidas que a história se desenrola. O sonho de Nigel é aprender a cozinhar, mas a morte prematura de sua mãe deixa um vazio gigante em seu coração. Após o luto, seu pai casa-se novamente com uma excelente cozinheira. É quando começa então uma batalha na cozinha. Nigel (já adolescente) tenta conquistar o amor de seu pai assim como a madastra fez, pelo estômago. É uma história de amor simples, mas que funciona tão docemente quanto um merengue de limão bem feito, o amor de um filho por seu pai e o amor de um jovem rapaz pela arte de cozinhar. É sensível por mostrar rupturas e um ritual de passagem importante, justamente aqueles que poucos fazem, o de virar as costas para tudo e seguir em frente justamente para preservar seus sonhos.

3° Lugar: Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires – Canadá)
Xavier Dolan escreveu, dirigiu e atuou nesse filme... aos 20 anos. Pra piorar, o ótimo Eu Matei Minha Mãe, seu primeiro filme e grande sucesso, foi produzido por ele aos 17 anos. É revoltante tanto talento! Amores Imaginários, seu segundo filme, beira a perfeição em alguns pontos, entre eles o de fotografia, produção, cenografia, trilha sonora e figurino (eu quero uma certa camisa cor tangerina desde que assisti). As atuações são ótimas, mas é justamente o seu enredo que cria uma relação de amor e ódio ao mesmo tempo com a película. Xavier Dolan explora o emocional com tanta delicadeza que torna a identificação um diferencial para a experiência cinematográfica. Na história, temos a paixão platônica de Marie e de seu melhor amigo gay, Francis, pela mesma pessoa, o belo Nicolas. Começa então uma amizade com os dois e, no decorrer das semanas, Nicolas mostra-se tão enigmático quanto no primeiro dia, sem demonstrar qualquer pista de sua orientação sexual, ora flertando com a garota, ora com o garoto. A partir daí, nasce uma rivalidade que coloca em jogo a amizade entre os três. Paralelo, temos vídeos confessionais de pessoas que já fizeram loucuras por amor, assim como qualquer um de nós um dia já fez alguma.

2° Lugar: Confessions (Kokuhaku – Japão)
Com tantas reviravoltas num estilo que só o cinema japonês é capaz de criar, Confessions esta mais para um quebra-cabeça do que um drama. As mudanças de foco e a eterna dúvida de quem afinal é o protagonista dessa obra fazem desse filme uma obra prima oriental. A complexa trama nos engana em sua maior parte, apenas seu final arrasador é capaz de explicar tudo. Nela, temos uma professora que em seu último dia de aula, conta para sua incontrolável turma de alunos, como sua amada filha foi morta por dois alunos daquela mesma sala. Como vingança, ela resolveu colocar sangue contaminado com Aids no leite desses dois. Ela então revela o nome dos dois alunos e o caos começa. Isso tudo nos primeiros 20 minutos de filme. O desenrolar dos fatos nos leva a conhecer as duas perturbadas mentes doentias dos assassinos e que o plano de vingança da jovem professora vai muito além do ato de contaminar seus alunos. O melhor filme de vingança que assisti desde Kill Bill. Um suspense transcendente e com um final pertubador.

1° Lugar: Contracorrente (Contracorriente – Peru)
O cinema peruano nunca teve um grande destaque internacional. Contracorrente precisou de muita disposição para chegar aonde chegou. Para seu pior ou melhor, é um filme que não retrata realmente em quase nada a vida exclusiva do povo peruano, suas particularidades. De fato, poderia ter sido filmado em qualquer lugar da América Latina ou Central. Então qual seu maior mérito? É ser absurdamente tocante. Misturando elementos de Brockeback Mountain, Ghost e até do brasileiro Dona Flor e Seus Dois Maridos, o filme traz a história de Miguel, um pescador respeitado na vila onde mora e trabalha. Casado com Mariela, os dois estão prestes a ganhar o primeiro filho, mas ele vive um romance escondido com Santiago, artista chamado pelos moradores de Príncipe Encantado. A vida dupla de Miguel logo leva um baque com a morte de Santiago e o que parecia encerrar esse ciclo na verdade se aprofunda quando a alma de Santiago não se torna capaz de deixar a terra. Cheio de momentos preciosos, Contracorrente traz a tona vários questionamentos. Justamente aquele que enfoca a sexualidade de Miguel um é o menor deles. Valores como a família, ser você mesmo e enfrentar o retrógado são mais importantes. É um filme belo. Os mais sensíveis já começam a mergulhar em lágrimas lá por sua metade. Odiamos e amamos Miguel, o achamos um covarde, ao mesmo tempo que temos ali alguém que sofre tanto por ter perdido aquele que mais amou. Sofremos junto com Santiago que leva seus sentimentos no pós morte. Entendemos o lado de Mariela, a dor de se sentir traída, usada, enganada por aquele que ama. Não é perfeito, alguns atores do filme são fraquíssimos, não conseguem passar toda a carga dramática, mas o trio principal funciona bem. A fotografia é outra arte, tem horas que parecemos contemplar um quadro, não um filme. No fim fica o efeito imediato. Contracorrente é um filme sobre emoções, sobre o amor, aquilo de bom que ele mais é capaz de fazer conosco, mas também aquilo que ele consegue nos machucar. Pois o amor infelizmente não é pra sempre, nem que ele só acabe após a morte.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ninguém é exatamente bom, ninguém é exatamente mau... ou não!


Somos acostumados a acreditar que tudo se divide em apenas dois elementos: o bem e o mal. Tudo é assim. Tudo nos dirige a isso. Dá até pra pegar como exemplo o Big Brother Brasil, onde em cada edição somos apresentados a um grande vilão, aquele que se sobressai malignamente, em detrimento aquele que se faz de coitadinho e por carisma popular e a lógica eterna do bandido e mocinho, acaba ganhando.

Ah, Big Brother, que belo exemplo cúmulo do populismo, heim Samuel? Ok, pseudo cult, vamos pra um exemplo melhor. Rio de Janeiro, 12 de junho de 2000, o ônibus da linha 174 é sequestrado por um rapaz aparentemente louco e completamente bandido. O sequestro foi filmado e transmitido ao vivo pela televisão, cujas imagens são mostradas em todo o país que comemorou a morte do bandido e chorou o assassinato de uma das reféns.

Aí você assiste o documentário Ônibus 174, do José Padilha, e descobre que a merda foi bem varrida pra debaixo do tapete. As diversas passagens do filme nos mostram uma mídia sensacionalista, uma televisão que quer exibir muito de perto tudo o que acontece. Isso provoca até uma certa dificuldade entre a polícia e o bandido, o Sandro, menino de rua sofrido, sem base familiar nenhuma, que em um momento de loucura pegou uma arma e tacou terror. Esse “menino crescido” se torna poderoso em meio aos holofotes e câmeras de TV. Ele agora é o centro das atenções, como nunca fora antes. É pra sentir pena do Sandro? Não sei, afinal, o Sandro era um vilão.

Tenso, não?

É difícil encontrar obras que trabalhem com o desafio de enfrentar a dualidade da divisão bem e mal. E quando elas surgem, não só são cercadas de incompreensão generalizada como geralmente de uma polêmica monstruosa. Afinal, são obras que não seguem uma linha de didatismo, mas de reflexão, de choque, o simples ato de mostrar uma realidade que existe, mas que fingimos não existir, o extremo do extremo.

É o caso do filme espanhol Tras el Cristal, de 1975, que inverte conceitos e se torna moralmente ambíguo e um tanto perturbador. Proibido em alguns países, como a Austrália, somos apresentados a um show de perversidade, que mesmo sem nada absolutamente explícito é um exercício cinematográfico de depravação humana. No enredo, um ex-médico nazista e pedófilo sente-se culpado após torturar e assassinar sua última vítima e se joga de um telhado. Anos mais tarde, confinado em um pulmão de aço (licença poética), aceita como enfermeiro um garoto, Angelo, que também foi uma de suas vítimas no passado.

A partir daí começa uma tortura psicológica em que num primeiro momento pensamos se tratar de uma vingança. Mas não, Angelo deseja ser igual aquele que lhe atingiu de forma tão monstruosa. Com cenas muito fortes, e mergulhando no horror da pedofilia e dos experimentos nazistas com crianças, Tras el Cristal é repugnante, mas exerce um certo fascínio. Talvez pela ótima produção (mesmo com tão pouco) e excelentes e convincentes atuações. É difícil não demonstrar reações a loucura de Angelo (que toma conta aos poucos das telas), da angústia na morte das crianças, e acima de tudo de seu nervoso final, que nos faz questionar o sentido de tudo aquilo. Faz sentido? Talvez numa realidade que não pertence a nós, uma realidade de tão poucos, que de fato, o horror de Tras el Cristal não pode ser compreendido.

Agora, para ir no máximo da depravação humana através da contrapartida do mal, nenhum filme é mais ideal para esse exemplo do que aquele que é considerado até hoje o filme mais chocante de todos os tempos, Saló o le 120 giornate di Sodoma. De fato, o nazismo e o fascismo (tema extremamente abusado até hoje) nunca foi tão bem representado como através dessa ideia de Pier Pasoline em compará-lo a obra do Marques de Sade, Os 120 dias de Sodoma. Mas só porque a ideia de comparação é válida, não significa que em algum momento que esse filme seja tragável.

No filme (e seguindo a linha básica da obra literária), quatro poderosos homens, o Duque representando a nobreza, o Bispo a igreja, o Presidente como personificação do poder político e o Magistrado como a corrupção e a parcialidade da justiça, sequestram 16 jovens e os fecham numa mansão para realizar todas as suas fantasias mais perversas e aterradoras divididas em três momentos, o Círculo das Taras, o Círculo da Merda e o Círculo do Sangue.

A princípio, Saló é visto em superficialidade e se demonstra nojento, repulsivo e horrível. E é! O sexo é retratado como castigo, não como prazer, existe o tempo todo, mas é vazio. Temos a cena de um garoto metralhado porque tentou fugir, em uma cena, um dos senhores solta sua merda no chão e obriga uma das confinadas a comer o excremento com uma colher, e quando chegamos a terceira parte, o sangue começa a ser derramado cruelmente. Não é como um filme de terror moderno que você QUER ver as mortes (oi, Premonição), você fica desesperado, você quer que aqueles jovens fujam.

E talvez esse seja o maior terror de Saló, não a questão das taras, da imoralidade, mas o poder que esse filme tem de nos remeter desesperança. A humanidade não deu muito certo. Existe uma cena interessante em Saló, onde os jovens com medo e desejando sair daquilo, começam a entregar delitos um do outro, em um efeito bola de neve, ate culminar em um assassinato. Talvez essa seja o momento mais duro do filme. O “bem” não sendo sucumbido pelo “mal”, mas assimilando-o.

E não, eu não assisti Serbian Movie. Não tive coragem. Pior, não me senti atraído, como me senti por tanto tempo com Saló ate ter coragem de vê-lo. Li tudo que pude sobre Serbian Movie, e a conclusão que cheguei é que se um filme deseja usar horror e depravação extrema sem sentido, ele realmente não merece ser visto.

Mas eu assisti Martys e esse filme mexeu comigo mais que todos os outros citados. Formado por duas partes quase distintas, mas que se unem magistralmente através de uma sequência de cenas perturbadoras, esse horror gore francês é simplesmente... incrível. O filme é todo angustiante, e só piora ate seu final que mistura uma complexidade de sentimentos.

É difícil falar a sinopse sem falar demais. A história baseia-se na vida da menina Lucie, vítima de violência de forma bizarra, que conseguiu fugir de seu cativeiro. Tenta superar seu terror, porém, 15 anos mais tarde, Lucie está totalmente fora de controlo e procura por vingança que acredita ter conseguido, arrastando sua melhor amiga Anna para uma carnificina. E é então quando nos convencemos que o filme fala apenas de vingança, que temos uma revolta impressionante.

Logo, Anna se vê envolvida num jogo de terror, onde os limites da ética e do respeito humano são completamente desrespeitados em busca de uma resposta para uma pergunta que deveria se manter irrespondida.

O terço final de Martys é carregado e muito desconfortável. É impossível se manter indiferente. Para piorar, o filme exala tristeza e impotência. Seu momento final não leva a conclusão alguma, apenas de que os princípios da natureza humana podem não passar de uma massinha de modelar.

Filmes como Tras el Cristal, Saló e Martys são para a maioria das pessoas impossíveis de compreensão comum e para um punhado de outras, apenas um retrato da fetichização da violência ou da perversidade. Foi Witold Gombrowicz, quem disse que “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados”. Creio que ele tenha sido um tanto infeliz em sua colocação, mas não de todo errado. Não é ser perturbado aquele que procura entender um pouco mais dos limites daquilo que é incompreensível, isso simplesmente esta na nossa natureza, é a decisão de cada um decidir como isso será feito, mesmo que através da violência e da perversidade.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Entre o fruto da vida e o do conhecimento


Fui acometido bem recentemente por algum tipo de doença que definitivamente só poderia: a)virar um episódio de House, ou b)um episódio (sim, eu ando assistindo bastante séries) daquele Doenças Desconhecidas (eu acho que é esse o nome). Sem querer ser melodramático, mesmo porque eu sou extremamente orgulhoso, foi um período bem difícil, que se assemelhou aos dois momentos em que tive que realizar cirurgias toráxicas.

De fato, foram exatos 29 dias de absurda dor crônica, idas e vindas aos hospitais, as clínicas, exames de alta e baixa complexidade, lágrimas em excesso e no fim, quando as coisas começaram a melhorar, não foi porque a doença foi detectada ou comecei algum tratamento certeiro, mas porque as coisas sozinhas resolveram “se ajeitar”. Junte isso a um hipermetabolismo ferrenho e em pouco menos de um mês e meio, perdi sagrados 6kg.

E para um cara vaidoso e assumidamente vendido a ditadura da beleza, minha auto estima caiu pra zero em uma velocidade gigantesca. Mais do que minha saúde, a doença (seja ela qual for) levou meu bem estar mental. E levando em consideração que eu sou praticante de fitness (embora não pareça), esse golpe foi ainda mais doloroso, pois foi ver um trabalho de desenvolvimento físico de mais de dois anos jogado pelo ralo. E por causa disso, a cabeça ficou vazia, e a oficina do diabo começou a funcionar. Mergulhei em puro abatimento e só através de um longo processo que estou realmente saindo disso.

Fazendo parte desse momento que passo, o vídeo abaixo é de longe o mais emocionante que eu assisti na vida desde a fundação da era Youtube. Eu recomendaria assisti-lo.



O Universo Conhecido é o mapa mais preciso de dimensões do nosso universo (é impossível realizar observações telescópicas pelas laterais da nossa galáxia, dai a forma de ampulheta). A animação feita pelo Museu Natural de História Americana revela que nosso planeta é apenas uma poeira cósmica perto da grandeza de um universo finito, mas em eterna expansão. É magnifico sair da Terra e poder chegar até os quasares (os mais distantes objetos dentro do universo), e de fato, essa viagem possivelmente nunca será possível.

O vídeo, mais do que fascinante, é reflexivo. Se o universo é tão infinitamente gigantesco, qual o papel de nossas existências dentro dele?

O anime japonês Cavaleiros do Zodíaco, um dos maiores sucessos pops dos anos 90, tem um personagem que reflete acerca disso. O cavaleiro da casa de ouro, Shaka de Virgem, antes de sua morte questiona, “As flores nascem, depois murcham. As estrelas brilham, mas algum dia se extinguem. Esta terra, o sol e ate mesmo o grande universo, algum dia serão destruídos. Comparado a isto, a vida do homem não passa de um simples piscar de olhos de Deus. Nesse pouco tempo, as pessoas nascem, riem, choram, lutam, são feridas, sentem alegria, tristeza, odeiam alguém, amam alguém... Tudo em um só momento. E depois são abraçadas por um sono eterno chamado: morte”.

Sou um grande apaixonado pela astrofísica. Queria ter talento para a coisa, mas definitivamente não foi o que aconteceu, então virei jornalista, outra paixão. Por isso junto essa admiração pelo universo e os questionamentos que surgem ao contemplá-lo, e por natureza da humanidade, meu maior desejo e chegar aos seus limites, os limites do cosmo e os limites da vida e da morte.

Sim, porque a morte assusta até o mais devoto crente acerca do paraíso da eternidade.

E é disso que trata justamente um dos filmes mais incríveis de toda minha vida de cinéfilo, Fonte da Vida, que eu particularmente considero a obra máxima de Darren Aronofsky, antes dele se tornar o popzinho do momento por causa do drama Cisne Negro. Diferente dos romances e filmes padrões, esse deve ser evitado principalmente por aqueles que gostam de ter todas as respostas de um filme e, principalmente, não conseguem se sentir confortáveis acerca de questionar sua própria existência, uma capacidade única apenas do cinema de excelente qualidade.

Na trama, Hugh Jackman (na melhor atuação de sua carreira) é Tommy Creo, um cientista que está em busca da cura do câncer. A beira de um colapso, a descoberta é urgente e de questão pessoal, já que Izzi (Rachel Weisz, talentosíssima e tão bela, que enche a tela de luz), sua esposa, esta morrendo com um tumor cerebral. A chance de sucesso em seus primatas experimentais chega justamente quando sua equipe experimenta a amostra de uma árvore singular das selvas do Peru. A planta pode ser a cura que ele tanto busca, porém, se revela mais do que isso. Numa outra parte, Izzi escreve um livro sobre um conquistador (também interpretado por Jackman) que viaja para o Novo Mundo em busca da Árvore da Vida a pedido da rainha Isabel (também interpretada por Weisz). A terceira parte da história (e particularmente a mais brilhante representação artística do universo já feita) é passada no futuro, quando o cientista (ainda Jackman) viaja pelo espaço em uma bolha com um único objetivo: conquistar a vida eterna.

Complicado? Muito! Juntar o quebra cabeça que é Fonte da Vida não é tarefa das mais simples. Mas se entregar ao filme é uma experiência sem tamanho. A emoção transborda, a beleza invade e questionamentos propositalmente vagos ficam em nossa cabeça. Apenas o presente esta acontecendo, o passado e o futuro da trama são metafóricos e existem pra preencher lacunas e nos enlouquecer, pois no fim, as três realmente podem ter uma linearidade, e a poesia do filme existe justamente em nos dar essa opção e ao mesmo tempo nos tirá-la, enquanto sorri e diz: “Peguei você”.

É o amor que move o filme inteiro. E o medo. É o amor que move Tommy por Izzi, além do medo de perdê-la, o medo de não ter mais sentido em sua vida, e o medo de não poder superar a morte. “A morte é apenas uma doença, e como qualquer doença, tem uma cura”, grita Tommy em seu mais profundo desespero. É a Árvore da Vida a cura, a mesma árvore que Deus colocou um anjo protegendo depois que expulsou Adão e Eva do Paraíso por terem comido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

No fim, Tommy acredita que é a Árvore da Vida a ponte para a resolução de seu grande desafio. Mas é então que ele se vê mais uma vez questionado, assim como Adão e Eva, de experimentar o fruto proibido, o fruto do conhecimento.

Sim, porque Deus disse para comermos apenas do fruto da Árvore da Vida para assim sermos imortais e nos proibiu do fruto da Árvore do Conhecimento. Mas é quando somos confrontados sobre a nossa própria existência e o significado da vida e da morte dentro de um Universo que nunca conheceremos por inteiro, que notamos que realmente, tanto faz se fossemos Adão ou Eva, essa desobediência, teria que acontecer sim um dia.

Pois assim como toda essa história, talvez a vida não passe de uma grande metáfora do próprio universo.

- Together, we will leave forever

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sobre conversas na beira da porta...

Ela parou com a mala. De frente para a porta, de costas para mim.

- Eu te amo, mas só amor nunca é o suficiente.

Ele sentava de frente para ela. De frente para a porta. Mas não olhava para nenhum dos dois. Olhava para o chão.

- Nunca é.

Ela colocou a mão na maçaneta, mas não a girou. Encostou a testa na porta.
Ficaria com a marca do olho mágico.

- O meu medo nunca foi ficar sozinha. O meu maior medo sempre foi o de amar e me tornar só por causa disso.

Ele começou a arrancar a cutícula do canto da unha. Um tique nervoso. Em breve estaria sangrando.


- O meu medo sempre foi o de ficar só.
- Eu sei. É por isso que eu estou te deixando.
- Quer que eu te valorize te perdendo?
- Não, eu quero que você só me valorize.
- Eu te amo muito.
- Não quero que você me ame muito, eu quero que você só me ame.
- Existe diferença?
- Se não existisse, eu não estaria partindo.

Ela tirou a testa da porta. Mas também largou a maçaneta. Começou a amarrar o
cabelo num rabo de cavalo.

Ele finalmente olhou para ela. Largou o dedo sangrando. Ajeitou os óculos sobre
o nariz que caiam. E suspirou alto.

- Acho que amor também é isso. É essa capacidade de poder fazer facilmente alguém sofrer. Você não me amaria, se eu não pudesse machucá-la.
- Exato! Você é minha maior força...
- E sua maior fraqueza.

Alguns segundos de silêncio. Ela deixa de encarar a porta e passa a encará-lo por trás das lentes.

- E eu sou capaz de lhe fazer sofrer?
- Se você passar por essa porta sim.

Ela abre a porta. Pega a mala pela alça. Dá cinco passos em direção ao corredor. Larga a mala e vira para ele.

- E agora?
- Meu coração está dilacerado.

Ela segura novamente a mala. Volta para o apartamento. Tranca a porta. Vem em sua direção e o beija na testa.

- Então eu já posso voltar.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Eu realmente preferia que os heróis dos outros morressem de overdose

Alow Capitão América, me diz quais foram os anabolizantes que tu tomou que eu tomo também

Em 2011, três filmes de super heróis são extremamente aguardados pela minha pessoa: Capitão América, Thor e Lanterna Verde. Por que eu sou fã dos três? Claro que não, acho o trio uma droga. Mas porque desde o início dos anos 2000 que o cinema não se foca mais nos heróis adultos, nos personagens que são machos alfas, homens formados de corpo e de mente. De fato, meu interesse no trio de filmes é: qual será seu impacto na indústria pop?

Ah, mas tem também Homem Aranha 4 (com o pratagonista mais esquálido e sem graça possível para o recomeço da franquia), o novo Crepúsculo e o último Harry Poter. Resumindo, temos o time dos adultos (Thor, Capitão América e Lanterna Verde), contra o time dos menininhos (Homem Aranha, Harry Potter e Edward/Jacob). A verdade é que em tempos onde a aburrecenscialização (a palavra é minha, mistura de: adolescência com burrice e transformação) da cultura pop esta cada dia mais intensa, essa é uma luta quase injusta para os adultos. De fato, é o pensamento massificado da adolescência que tem batido o martelo do que a cultura pop deve seguir.

Mas eu tenho lá minhas esperanças...

Homem de Ferro foi lançado em 2008 e seu sucesso foi tão grande que definitivamente nem mesmo a Marvel estava esperando tanto. A consequência foi à produção em ritmo acelerado de uma continuação que estreou em 2010. Homem de Ferro se torna então um marco por conseguir voltar o foco das mentes humanas ocidentais para os super heróis adultos, saindo do processo de transformar tudo em versão aburrecente.

Mas nem tudo são flores. Vale lembrar que aproveitando o sucesso do Homem de Ferro, um novo desenho animado da série foi produzido e Tony Stark virou... um garotinho. Aliás, esse desenho é bem ruim, depressivo mesmo, não consegui assistir mais que um episódio, e apenas uma criança retardada realmente se sentiu atraída por aquilo, além de um desrespeito com o próprio renascimento da franquia.

Mas não podemos falar em desrespeito histórico sem falar na maior humilhação da cultura pop até hoje: o sucesso descontrolado da saga Crepúsculo. Filme 1: vampiros vegetarianos vivem numa cidade isolada no cu do mundo, chega uma adolescente irritante e o vampiro hepático se apaixona por ela, e nem beijar na boca do menino ela pode. Pra piorar, surge um grupo de vampiros do mal igual o Black Eyed Peas. Filme 2: o vampiro que não consegue nem beijar na boca porque fica na dúvida “dô ou num dô” faz a loka e corre pras montanhas. Pra consolar o cão da menina fica o lobinho, cara de pedreiro, corpo de ato pornô gay e sem camisa em 9 de cada 10 cenas. A menina corre até o vampiro na Itália e antes de ficarem juntos a gente tem uma puta cena ridícula de cristais Swarovski. Filme 3: a menina vira a puta da história, pronto, cabô.

E ainda vem mais dois por aí, heim... A saga Crepúsculo é tão ruim que nem a paródia Os Vampiros que se Mordam é boa.

Eu defendo que a culpa da cultuada história vampírica ter se tornando isso que se tornou é da Anne Rice. Ela que passou o vampirismo do ocultismo e do demoníaco para o glamuroso, o fascinante. Antes as crianças tinham medo de vampiros, hoje elas querem ser um. E não estou nem falando de Entrevista Com o Vampiro e o (fatídico) A Rainha dos Condenados. Há coisa bem mais punks como O Vampiro Armand que é viadagem demais até pra mim. Após Anne Rice tivemos isso então: um boom da modificação quase que completa da secular lenda vampírica até chegarmos ao ponto que nem o sol os mata (Vampire Diaries também tem isso, além de sempre que o vampiro entra em cena é gasto todo o estoque de gelo seco de Hollywood pra fazer a aparição).

Até o meio dos anos 80 todos os super heróis eram adultos e possuíam forte conceitos de honra e valor. Hoje viraram um bando de adolescentizinhos egoístas que dificilmente passam boas lições para a garotada. Vide Ben 10, mesmo que ele tenha crescido.

Mas nem tudo está perdido. Hilariamente, um dos filmes mais legais que assisti no ano passado foi Daybreakers. Como seria uma sociedade onde todos são vampiros? Inclusive as crianças? Aliás, cena que diz “se você é fã de Crepúsculo, caia fora”, é justamente a que um grupo de crianças vampiros estão reunidas fumando, afinal, fazem mais de 10 anos da epidemia vampírica, são adultos, em corpos de crianças.

Ed Dalton (Ethan Hawke), que trabalha para a corporação agrícola de sangue humano, é responsável pelo desenvolvimento de um novo substituto do sangue, pois o sangue humano neste momento é escasso. Todos trabalham de noite, é claro, os carros são equipados com janelas de bloquear os raios ultravioleta, alarmes indicam nascer do Sol, teor de UVA… e por aí vai, bem criativo… É a partir dai que os escassos (e caçadíssimos) humanos descobrem uma possível cura para o vampirismo. Porém, se a imortalidade é considerada um presente, um milagre, mesmo sem sangue, um vampiro gostaria de ser humano?

Não é perfeito. O ritmo é bem lento, algumas tramas paralelas são chatas. Salvam cenas de ação fantásticas, inclusive a carnificina cíclica de soldados e a atuação sempre ótima de Sam Neill, o grande vilão. Porém, mais do que um bom filme, Daybreakers é uma aula de sociologia. É uma lição, uma moral, gera questionamentos acerca de sociedade, humanidade e (mesmo impossível) imortalidade... coisa que definitivamente um Crepúsculo da vida não levanta, muito menos o Ben 10.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Os 10 melhores filmes de 2010 que você NÃO assistiu

Pelo segundo ano consecutivo (embora possua três edições), o Fala Consciência encerra sua temporada com a tradicional lista dos 10 melhores filmes do ano que você na verdade NÃO assistiu. O post nada mais é do que uma brincadeira e ao mesmo tempo uma forma de mostrar filmes que não tiveram muito sucesso ou destaque no ano, mas que na verdade não deveriam deixar de ser assistidos.

Em 2010, o cinema continuou fraco de idéias em suas veias mais alternativas. De fato, alguns dos filmes mais interessantes do ano como A Origem, Scott Pilgrim e A Rede Social são superproduções, derrotando os diretores e roteiristas mais alternativos que costumam lançar obras mais complexas e reflexivas. Talvez por isso a lista desse ano tenha sido tão difícil de fazer.

Não obstante, vocês provavelmente podem ter assistido até três dos filmes indicados, o que é uma vergonha pra mim que costumo produzir a lista com filmes que eu acho que ninguém mais por aqui assistiu. A maior surpresa fica por conta de pela primeira vez termos um filme nacional, um argentino e um japonês, além de três produções de orçamento considerável, duas delas tendo atores famosos, o que até descaracteriza a ideia original, mas como eu disse, foi difícil. Ainda assim, divirtam-se, comentem e me digam quais vocês já assistiram.

Até 2011.

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2010, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil, foi esse ano.

10º Lugar: Mister Nobody (Mr. Nobody – Alemanha, Bélgica, Canadá, França)
Existem filmes que tem tudo para ser um desastre. É o caso de Mr. Nobody, que possui Jared Leto como um de seus protagonistas, simplesmente um dos piores atores/cantores do mundo ocidental. O impressionante, é que o filme sobrevive a isso. Mais do que sobrevive, assistir Mr. Nobody te dá uma sensação parecida com a do filme, a de que o tempo não faz mais sentido e a relatividade se torna não uma questão da física, mas pessoal. Arrepiante é a premissa dessa obra: e se você pudesse reviver em várias vidas todas as grandes escolhas que o destino te obriga fazer? E se ao invés de escolher um caminho, você pudesse viver todos eles? Num futuro onde a imortalidade chegou para todos, menos Mr. Nobody, que espera o fim tentando lembrar quem ele realmente foi, o prazer da vida está justamente no fato de podermos fechar nosso ciclo de existência, pois Mr. Nobody prova que só através da morte alcançamos a verdadeira imortalidade.

9º Lugar: Pandorum (Pandorum – EUA, Alemanha)
Todo, eu disse TODO, filme de ficção científica tem um único objetivo na cabeça de seu diretor: ser o novo 2001 - Uma Odisséia no Espaço. E lógico, nenhum até hoje conseguiu nem chegar perto disso. Para a sorte de Pandorum, mesmo tentando ser 2001, ele consegue apenas ser parecido com outro bom filme de ficção científica: Alien - O 8° Passageiro. O filme começa muito bem. Na história, dois membros da tripulação de uma gigantesca espaçonave despertam sem lembranças de como chegaram ali, quem são ou quanto tempo dormiram em câmaras de hibernação. A medida que eles descobrem se tratar de uma nave de colonização, já que a Terra foi extinta, a coisa se torna complicada com a existência de uma raça alienígena que se alimenta dos humanos em hibernação. Os defeitos de Pandorum estão em seu recheio, mesmo com as ótimas atuações dos dois protagonistas a trama se perde um pouco. Mas o visual claustrofóbico e o terror de imaginar a situação, além de seu ótimo final, o colocam num bom patamar do gênero.

8º Lugar: Pecado da Carne (Einaym Pkuhot – Israel)
Pecado da Carne só pode ser considerado a versão judaica do ótimo Brockeback Mountain. E sem ser tão bom, o que já compromete o filme. Mas então por que o destaque? Simples, ele viaja por uma Israel que nem seu cinema, tão engajado em mostrar uma sociedade israelense moderninha, paz e amor, gosta de revelar. Esse é o motivo por exemplo de eu não gostar de A Bolha (que junto com Delicada Atração e Antarctica coloca Israel num interessante patamar de filmes gays mesmo num país ultra conservador). Sua história gira em torno de Aaron Fleishman (Zohar Shtrauss), cujo pai morreu recentemente, deixando-lhe como herança um açougue. Casado, pai de quatro filhos, Aaron resolve abrigar, num quartinho do açougue, um jovem estudante chamado Ezri (Ran Danker). O jovem é famoso no bairro por ser bem rodadinho, e nasce um sentimento bem quente entre os dois. De fato, a péssima tradução do título faz juz ao filme em si, a relação dos dois homens é mais carnal do que sentimental, deixando claro que nem mesmo os dogmas da sociedade mais arcaica de Israel é capaz de lutar contra a natureza do homem. Uma verdeira viagem por um lado complicado de uma sociedade tão castigada pelas grandes mudanças do mundo.

7º Lugar: O Signo da Cidade (Brasil)
Se tem um filme que até hoje eu não aceito que tenha levado o Oscar de Melhor Filme, esse é Crash. Ele que já era um filho bastardo de Magnólia acabou gerando uma outra dezena de bastardinhos e o nacional O Signo da Cidade é um deles. Mas ta aí, gostei desse filme. O drama mostra a cidade de São Paulo, que na verdade acaba sendo sua personagem principal e completa a minha teoria de que a cidade em si é como uma grande (não levem a mal) prostituta. Atraente, perigosa e fascinante. Com fotografia quase totalmente noturna, não embeleza Sampa, mas revela um fascínio. E no meio disso uma leva de personagens perdidos tentando se encontrar num universo tão grande onde reina a impessoalidade. Os diálogos são bons, os personagens são interessantes (menos o casal suicida, completamente irritante), mas é o fato de que suas histórias realmente podem estar acontecendo agora nessa cidade, uma das maiores do planeta, que mais nos atrai.

6º Lugar: A Centopéia Humana (The Human Centipede: First Sequence – Holanda e Reino Unido)
Depois de assistir A Centopéia Humana, eu passei algumas noites demorando pra conseguir dormir, não porque estava aterrorizado com o filme, mas porque seu exercício cinematográfico é simplesmente... sublime! Odiado por onde passou, esse filme que adquiriu status de cult underground é o resultado de uma ideia doentia sendo levada muito a sério. A principio, todos imaginavam a mesma coisa do filme, toneladas de nojeira, sangue e escatologia. Foque absoluto no sadismo e um roteiro fraquíssimo. E não é bem isso! Na trama, um cientista louco cujo sonho (ou pesadelo?) é criar uma nova forma de vida ligando três pessoas para gerar uma única criatura, usa duas turistas americanas e um japonês com problemas mentais. E... ele consegue. O interessante é que ACH é em sua primeira metade um verdadeiro clichê de filmes de terror, captura, perseguição, foco no vilão e a obviedade de que as vítimas não irão escapar. Depois o filme se torna o que é exatamente por sua ideia original vendida no título. Junte isso ao fato do filme não ser gore e temos uma produção enxuta, angustiante, que vai mexer com todas as suas emoções explicitando um horror inimaginável. Temos aqui também um dos maiores vilões da história do cinema de horror e um final impressionante que, isso sim, vai te tirar algumas noites de sono.

5º Lugar: O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos - Argentina e Espanha)
Existe uma lógica que não aceito questionamentos em O Segredo dos Seus Olhos: o roteiro parece ter sido escrito pelo John Grisham. Na trama, o aposentado Benjamín Espósito escolhe para tema de seu livro o caso criminal que mais marcou a sua carreira no Tribunal Penal de Buenos Aires, um estupro seguido de morte de uma jovem recém casada. Para ordenar as ideias, ele revê o homicídio que investigou em 1974 e termina repensando as decisões feitas no passado. Na primeira metade do filme somos engolidos por uma direção de arte e fotografia tão lindas que encantam os nossos olhos. Mas é a partir de um momento marcante, a fantástica tomada do estádio de futebol, que o filme toma um rumo que enche de orgulho saber que cinema arte de tamanha qualidade com toques contemporâneos foi feito na América do Sul. A trama policial passa a tomar um rumo de humanização lindo, tocante e por diversas vezes triste. Mas é em seu momento final (com uma revelação surpreendente) que assim como Espósito nos questionamos se ainda dá tempo de revertermos algumas das escolhas de nossas vidas, pois como diria um dos personagens da trama, "o homem pode mudar tudo, menos a sua paixão".

4º Lugar: Eu Matei Minha Mãe (J'ai tué ma mère – Canadá)
Deve haver algo entre os diretores canadenses (deve ser a água que eles bebem) que faz com que sejam os melhores do mundo ao retratar o olhar cinematográfico sobre as instituições familiares. Não demais, alguns filmes como C.R.A.Z.Y. e O Primeiro Dia do Resto de Sua Vida são alguns dos melhores que assisti na vida. E embora Eu Matei Minha Mãe não entre para esse seleto time, ele entra fácil para lista dos melhores filmes a retratar justamente a família, esse elemento tão difícil de trabalhar em película. A obra traz o retrato de um dos maiores problemas da adolescência e que tantas vezes sai do controle, as dificuldades de se relacionar com os pais. Hubert (Xavier Dolan, que aos 17 anos escreveu, dirigiu e atuou esse filme) e sua mãe Chantale (Anne Dorval) vivem juntos de forma muito conturbada. Não há vilões aqui, há amor, mas ódio na mesma intensidade. Eu Matei Minha Mãe não é um retrato de um único lado. Hubert não discute com a mãe porque ela é a grande vilã e Chantale está ali tão perdida quanto o filho que criou sozinha. É um filme sobre incompreenção, mas retrata melhor ainda como compreendemos mal até aqueles que amamos. Além de chegarmos à conclusão de que mesmo quando queremos superar as distâncias, talvez o ideal seja aumentá-las.

3º Lugar: Sede de Sangue (Ba
kjwi – Coréia do Sul)
I Am Cyborg, But That’s Ok pareceia ter levado Park Chan-wook a um caminho sem volta: o da rendição de seu estilo de produzir filmes aos mesmos moldes americanos. Felizmente, Sede de Sangue é seu pedido de desculpas para o mundo e um ‘chupa’ para a América. Essa obra sensacional não tem também um estilo, vai do drama ao humor negro em segundos, do macabro ao emocional, do gore ao clean. Nele, o padre Sang-hyeon (Song Kang-ho) é muito devoto de sua fé, mas também acredita na ciência e se submete a um experimento do qual poucos saem vivos. Ele reage mal, e quase morre, mas uma transfusão de sangue o traz de volta a vida. As pessoas começam a achar que ele é santo, mas Sang-hyeon na verdade se tornou um vampiro. É muito bacana ver os dilemas de Sang tentando resistir ao ímpeto de beber sangue humano, de respeitar a vida que ele tanto acredita ser sagrada. Já não bastasse isso, a política do diretor retoma a ideia de que todo homem está condenado a ruir na mão de uma mulher, até mesmo os vampiros. E é num relacionamento doentio entre o padre e a mulher cínica e dissimulada que ele passa a amar que temos aqui uma trama de fetichismo, uma verdadeira história vampírica oriental que deixaria Bram Stoker orgulhoso.

2º Lugar: O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus – França e Canadá)
O gênero cinematográfico da fantasia só existe por um único motivo: encantar. Não é o caso, por exemplo, do desastroso Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, que pecou por achar que infantilidade, mais efeitos especiais e amadorismo salvariam seu filme. O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus não só nos leva a uma viagem linda pelo mundo da fantasia, como nos convida a ir junto e prova que a fantasia quando se é adulto é ainda mais fascinante que quando criança. A questão é (e isso também é a premissa do filme): você é capaz de se entregar justamente aquilo que lhe faz bem? Nick (Tom Waits, o diabo) faz um pacto com Parnassus (Christopher Plummer): em troca da imortalidade, Parnassus promete ao Diabo a sua filha quando ela completar seus 16 anos. Mas Parnassus não acreditava que um dia teria um filho até que conhece e se apaixona por uma mulher, a mãe de Valentina (Lily Cole). Desesperado, Parnassus tenta uma última cartada para manter seu amor: conseguir cinco almas para ele antes do aniversário de Valentina, em três dias. Junte isso a aparição do misterioso Tony (Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel), que embora ajude Parnassus, devemos sempre lembrar que foi colocado em seu caminho pelo próprio diabo e temos uma trama de reviravoltas elegantes. É no tal mundo imaginário que está a grande sacada do filme: quando você deixou de sonhar? Salvar a própria alma não é uma questão de se entregar ao pecado, mas deixar de viver se entregando as regras de uma sociedade que não deseja seu bem pessoal. Para tudo existem consequências, O Mundo Imaginário mostra que os covardes morrem idosos, mas os corajosos... bem, esses tem uma vida de incertezas, mas ainda assim, estão vivendo de verdade.

1º Lugar: Evangelion 2.0 – You Can (Not) Advance (ヱヴァンゲリヲン新劇場版:破 – Japão)
É revoltante eu colocar esse filme como o melhor filme (não) assistido de 2010. Pelo simples fato de que para realmente entender as 2h dessa fantástica produção japonesa é necessário um investimento gigantesco para aí sim chegar a Evangelion 2.0. Existe algo que sempre comprometeu Evangelion: a pressa. O autor tem grandes dificuldades em escrever a obra em mangá (um volume a cada dois anos estava sendo a média). Por causa disso, mas apostando em sua imensa qualidade, foi criada a série em anime, que adiantando parte da série em mangá, se tornou um marco sem precedentes da animação japonesa... se não fossem seus desastrosos dois últimos episódios. Resultado: alguns anos depois resolvem refazer o final, em filme. Sensacional, do caralho, de infartar qualquer fã... mas só a primeira metade. Mais alguns anos e resolvem agora refazer TUDO, do zero, em quatro filmes. E os fãs pensam: que saco! Felizmente, nós fomos presenteados. You Can (Not) Advance é então o segundo filme desse remake, um filme que leva essa cultuada série no mundo inteiro a algo completamente novo, misturando os elementos antigos da trama com novidades e uma nova complexidade sem limites. Apenas quem é fã de verdade vai entender. Quem não é fã e se arriscar a assistir vai apenas se sentir embelezado com a obra, seus efeitos (é uma animação), as batalhas dos mecas e os anjos e... boiar no resto. Para os fãs, é um resgate de uma história inesquecível sobre o fim dos tempos, mas maltratada, que pela primeira vez está tendo o tratamento que merece. Mais que isso, a recriação das identidades dos personagens Shinji, Asuka e Rei são envolventes, a nova personagem, que revela a preferência pelo lado desumano dos Evangelions (robôs construídos para lutar com os anjos encarregados pelo extermínio da vida na Terra) é a visível criação de uma anti heroína fascinante. E Kaworu... bem, Kaworu é um dos seres mais aclamados da série, sua cena sentado sobre seu próprio Evangelion na Lua é fascinante. Mas é em seu final após os créditos que Evangelion mostra para que realmente existe: para mostrar que somos seres não evoluídos, fracos, frágeis de coração e mente, menos de alma, essa sim, que pode se conectar a outros seres vivos e nos defender do fim de nossas próprias existencias, com seu brilho, também conhecido como Campo A.T.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Todos nós queremos ser jovens, pop’s e pós-modernos-contemporâneos para sempre


Eu tenho uma raiva exagerada, quase um desprezo, por quem adora lembrar dos ícones anos 90. Música tema de Carrossel, movimento de hora de morfar dos Power Rangers, tazos que vinham em chicletes, todas as falas de Paola Bratcho em A Usurpadora... Enfim, qualquer coisa que faça eu perceber que estou ficando velho, e que eu era um tosco. Pior, quando se trata das redes sociais (caralho de "redes sociais”, isso aqui não é o Fantástico), então, quando se trata de TWITTER, esse movimento vira uma praga, basta uma pessoa citar alguma coisa e pronto, lembranças de coisas velhas se espalham pior que carrapatos em cachorro não tosado.

E se para a minha geração, que foi criança nos anos 90, já existe um movimento de saudosismo tão grande, o que será que existe para aquela geração que foi criança nos anos 80 e que eu chamo carinhosamente de Geração Kichute? Num mundo que não só tenta colocar na cabeça de todos que são os jovens que mandam nas tendências como realmente são os jovens que MANDAM, como se defender de um conjunto de filosofias pós-modernas-contemporâneas que sempre querem te ensinar o seu lugar se você já não é... “tão jovem assim”?

Sei lá!

A pergunta pode até não ter uma resposta tão simples. Mesmo porque, é o tipo de resposta que aparece em atitudes, não me cabe listá-las, porém, eu faço questão de citar uma. Sim meus amigos, pois Scott Pilgrim Contra o Mundo, um dos filmes do ano, é um verdadeiro tapa na cara da sociedade-teenager-colorida.

Scott Pilgrim mostra que a vida acontece em fases, não as fases infância-adolescência-adulto, mas as fases de vídeo game mesmo, mas muito mais que um simples game, um game 8bits, um dos maiores símbolos da geração anos 80. Na trama, Scott Pilgrim, guitarrista de uma banda baita ruim e que sofre com o fim do último namoro há mais de um ano, conhece a ultra descolada Ramona, que passa a ser foco de uma paixão repentina, mas que ao conhecer a Liga dos Ex-Namorados do Mal de Romona, começa a contestar sua paixão. Como nos videogames, cada ex-namorado é uma fase a ser superada, um inimigo a ser derrotado. E Como na realidade, cada memória do outro é uma bagagem a ser compreendida por Scott, não no sentindo de compreender somente Ramona, mas a si mesmo, a superar seus traumas e fraquezas.

Não julgue Scott Pilgrim pela capa e pela produção. A história parece infantilizada, com os elementos de Super Mario, Metroid, Street Fight e The Legend of Zelda, incluindo onomatopeias, recordatórios em quadro e influências de mangá. Mas temos aqui um épico 2.0, um trabalho cinematográfico de adaptação de linguagens fenomenais, e uma celebração a ícones esquecidos que inspiraram simplesmente todos os que temos hoje, junto a uma Geração Indefinida de jovens que comanda o mundo, tem um poder impressionante nas mãos e na verdade não dá muita importância a isso.

Prova do que eu digo é mini-documentário-não-tão-documentário-assim-padrão-Youtube chamado We All Want to Be Young. O vídeo é o resultado de diversos estudos realizados pela BOX1824 nos últimos 5 anos, uma empresa de pesquisa especializada em tendências de comportamento e consumo. E sinceramente... esse vídeo é mais que um tapa, é um soco no estômago da sociedade.



A produção assinada Lena Maciel, Lucas Liedke e Rony Rodrigues tem muito a dizer em seus menos de 10 minutos. Aliás, o próprio formato é louvável. Vale imaginar que se fosse produzido no Brasil, esses 5 anos de estudos virariam no mínimo um livro de 500 páginas ou um vídeo de 1h30 que fariam todos dormirem. Aqui temos imagens reconhecíveis, trilha sonora agradabilíssima e um texto que a início parece bobo, mas que como tudo que faz sucesso na internet hoje em dia, traz uma série de reflexões em velocidade de metralhadora.

Os jovens da atualidade são o topo da pirâmide de influencias, uma geração global, netos da Geração Baby Boomer e da filhos da Geração X, aqueles que conquistaram o mundo e que só querem dançar Lisztomania em cima do telhado (ok, esse foi um toque bem pessoal). Uma geração única, que tem uma lista gigantesca de possibilidades, de oportunidades, um volume de informações descontrolado, ansiedade crônica e dificuldade em escolhar os filtros.

Mas como diria o narrador de We All Want to Be Young, "Se você acha que já sabe bastante e está em paz com seu espaço no mundo, então, parabéns. Você está oficialmente morto". No fim, ser jovem é ser sexy, engraçado, divertido, e por isso, todos temos medo de perder isso. Um medo que nos faz retomar a pergunta do começo do texto: como se defender de um conjunto de filosofias pós-modernas-contemporânaes que sempre querem te ensinar o seu lugar se você já não é... “tão jovem assim”?

Bem, acredite ou não, a resposta pode ser encontrada exatamente naquilo que Scott Pilgrim Contra o Mundo Faz tão primorosamente. Entenda a evolução do mundo, saiba unir todos os elementos e ícones ao seu redor, não se feche, não perca sua ambição, seus pequenos sonhos que podem sim se tornar a realidade... isso senhores, no fim não é auto ajuda, é a verdadeira fórmula para ser jovem para sempre.

E agora, quem quer dançar Lizstomania comigo encima de um telhado?