quinta-feira, 13 de maio de 2010

Da infância para a juventude, da juventude para a vida adulta, da vida adulta para um punhado de pó...

"Torna-te quem tu és, então deixas de ser..."

Eu tenho um relacionamento particularmente estranho com livros sobre rituais de passagem emocionais e físicos. E quando eu digo estranho, é como se nós nos encontrássemos em um beco escuro de madrugada, para fumar crack. Então daí você tira o nível da coisa. Talvez pelo fato, principalmente, de que esse tipo de literatura é bem raro de encontrar no Brasil, e o máximo que você encontra em destaque sejam os livretos da série Gossip Girl ao lado do Diário de Um Banana, o que também demonstra a visível falta de non sense dos editores brasileiros.

Aliás, o problema está principalmente nos escritores brasileiros. Quantos vocês conhecem que se dedicam a falar de rituais de passagem? Poucos. E rituais de passagem na juventude? Quase zero. E quando isso raramente acontece, somos presenteados com grandes porcarias que viram marco de uma geração, como o desprezível O Terceiro Travesseiro (que deve virar filme em breve). Eu já estava quase desistindo da literatura nacional nesse quesito, quando encontrei um ser que me fez repensar na esperança desse tipo de trabalho: Santiago Nazarian, e um livro particularmente em especial, O Prédio, o Tédio, e o Menino Cego.

7 garotos vivem num prédio inclinado. 7 meninos, completamente diferentes um do outro e amigos. Temos o Andrógino, o Gordo, o Negro, o Junkie, o Atleta, o Mestiço e o Narciso Vesgo. E numa trama metafórica e onde os detalhes são que fazem desse livro um grande livro, somos apresentados a uma visão única e fascinante da passagem da infância para a adolescência. Onde a representação desse momento se dá, na verdade, durante o assassinato de cada um desses garotos por uma professora serial killer.

Afinal, é nos nossos rituais de passagem que mais nos sentimos incompreendidos, deslocados, sem um lugar que nos acolha. Nos sentimos revoltados, idiotas, únicos, iguais. É de um momento de transição de uma fase da vida para outra que surgem medos, incertezas, e seu futuro se baseia fortemente no resultado final de tudo isso. É como se fosse um vestibular, se você faz as escolhas certas, segue bem, se faz as escolhas erradas, se dá muito mal. E o mais interessante de tudo, nós sempre entendemos só o NOSSO momento de transição, dificilmente os dos OUTROS. Olhar de fora uma fase de transição é menosprezá-la, como um pai ausente que não suporta ver o filho chegar à complicada fase da adolescência.

O livro tem umas particularidades interessantes, principalmente se você já conhece o autor e leu outros livros dele como A Morte Sem Nome ou Mastigando Humanos (esse último também muito bom). Nazarian faz duras críticas ao sistema de ensino e ao modo como a literatura é tratada no Brasil. Tudo isso com uma pitada de ironia e acidez um tanto exagerada para os padrões conhecidos. Mas é no desenvolvimento de seus personagens, perante uma cidade imaginária onde alguns bairros são tomados por zumbis e o mar congela e recua, que mais fascina. Porque por um momento, todos fomos crianças, e é no retrato de seus personagens que lembramos desse momento em que deixamos, principalmente, de ser uma.

Ok, o livro não é perfeito. Se alonga um tanto sobre o fascínio do próprio autor sobre a assassina/professora Regina e tem seus últimos parágrafos iguais aos outros livros dele, broxante após um ápice extraordinário seguido da inesquecível frase: “Como é difícil matar com estilo”. Mas vale muito a pena, além de nos levantar um questionamento: “É possível entender a juventude, sem ser jovem?”. Essa é uma questão que nem mesmo Santiago Nazarian pode responder, então vamos procurar um pouco lá fora.

Aos 16 anos eu me encantei pela crítica de um livro (negativa, diga-se de passagem) publicada na Revista Época. Pela imensa dificuldade de achar os livros que eu sempre me interesso aqui pelo estado eu só consegui comprá-lo aos 17, pela internet. E após lê-lo DUAS vezes, ele se tornou o meu livro favorito, Hell Paris – 75016, de Lolita Pille. Muito criticado e de pouco reconhecimento literário, trata de um tema que eu sempre achei pouco abordado em palavras, o vazio existencial da juventude moderna.

Hell causou uma mudança muito brusca no meu gosto literário. Eu passei a ter um fascínio pela literatura de vazio existencial, de decadência humana, de uma apresentação fria e crua das realidades do mundo e não de uma apresentação poética e superficial de situações que muitos de nós vivemos e não sabemos observar como realmente são. Pois ali há medos, de perdas, de incompreenções, da morte... sim, porque todos temos medo da morte, principalmente em nossos momentos de transição. Ninguém está preparado pra morte. E como disse Lolita, “se os ricos não são felizes, então a felicidade não existe”. E morrer sem ser feliz? Que medo, não?

Tenho uma paixão por livros que representam um retrato da juventude de seu tempo. Obviamente, esse tipo de literatura ficou bem marcante e ganhou um chute inicial com o clássico O Apanhador no Campo de Centeio, mas os melhores estão dos anos 80 pra cá. Bret Easton Ellis escreveu Abaixo de Zero, e que marcou sua carreira, tendo moldes parecido com o livro de Salingir. Aliás, Bret escreveu As Regras da Atração que como filme ganhou espaço na minha lista de favoritos, com uma interessante trama de decadentes jovens americanos universitários, sem caminhos para seguir e se entregando a futuros incertos e amedrontadores a um passo da “vida adulta”.

Pra não ficar só no campo da literatura quando o assunto é retratar a juventude, vamos agora pra Inglaterra, focar numa das melhores séries produzidas por lá sobre a juventude, Skins. A série já tem 4 temporadas fechadas e futuro relativamente incerto depois de um final razoavelmente ruim. Mas eu nem focarei a 3ª e 4ª temporada (boas, mas fracas) e sim a 1ª e 2ª, que realmente valem a pena.

Em resumo, Skins tem, no geral, uma curta temporada de no máximo 12 episódios. E nos primeiros 6 episódios, há sempre uma regra: chocar! É sempre assim em todas as temporadas,você leva uma porrada de jovens ingleses se afogando em drogas, bebida, festas e muita, muita droga e sexo. Parece fútil, mas (numa regra não oficial) a partir do 7º episódio, Skins mostra realmente à que veio, mostrar de forma “semi-metafórica”, que todo adolescente é um coração tentando se encontrar. E é numa trama extremamente rica, que se você é jovem, se identifica, se não é mais, se lembra. E o grande feito de Skins é esse, nos lembrar que estamos eternamente procurando um objetivo perante a sociedade: nos encaixar!
A juventude como ela é, como foi, como será...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Só porque você é bom numa coisa, não significa (necessariamente) que você será bom em outra

Multi-talento. Ou você tem ou você não tem. E acredite quando eu falar isso, vai doer, você pode não gostar, você possivelmente irá até parar de ler esse texto, mas, você dificilmente tem isso. Afinal, existe genialidade ou esforço? Eu acredito acima de tudo no esforço. Mas ai de vez em quando aparecem uns filhos da puta que quebram essa imagem (confortante) que a gente tenta manter pra si mesmo de que não existe genialidade. Tipo Albert Einstein para a física, Chris Garneau para o piano, Coco Chanel para a moda, Faustão para programas de auditório (oi, ironia nessa última tá?)...

Enfim. Existem sim pessoas que representam a raríssima diferença entre o esforço e a genialidade. E existem sim as pessoas que de tão esforçadas, parecem gênios, mas que no fim a gente descobre que são na verdade apenas muito esforçados. E um desses “alguéns” é Tim Burton.

Resumindo tudo o que irei falar em breve: Alice no País das Maravilhas, última obra de Tim Burton, é uma droga! Talvez esse seja o pior filme do diretor nos últimos dez anos, superando bastante A Fantástica Fábrica de Chocolates (que não é ruim, nem de longe, só não é exatamente... bom). Alice como filme não peca pelo fato de ser um filme ruim, quem peca é Tim Burton. Por quê? Simples, porque Tim Burton não é Lewis Carroll.

Alice no País das Maravilhas deve ser (junto com Peter Pan), uma das melhores estórias infantis do mundo ocidental. Carregada de uma fantasia nunca antes imaginada, de uma surrealidade grostesca, intimista e até mesmo, estranhamente intimidadora. Sim, pois em tempos de “falso moralismo” e do politicamente correto que proíbe ate uma criança de ser vilã numa novela FICCIONAL sobre argumentos tolos (no Brasil, Poltergeist nunca poderia ser filmado), Alice (o livro) possui flores preconceituosas, uma rainha assassina, um chapeleiro louco, mas louco mesmo, do tipo que não sabemos prever as atitudes, jogos e enigmas matemáticos e uma lagarta que fuma.

E ainda assim, é uma obra primorosa, uma viagem de fantasia com elementos reais, fantasiosos e a mistura absurda que eles conseguiram gerar. Acima de tudo, Alice é uma representação da passagem da infância pela juventude, que assim como toda fase de transição, é marcada por perdas e ganhos.

E o mais bizarro de tudo? Lewis Carroll era um matemático, que escrevia estórias infantis e enigmas para crianças no tempo livre. Gênio? (As acusações de pedófilo contam?)

E por que o filme é ruim? Obviamente, seu roteiro é seu gigantesco defeito. A começar pela tentativa frustrada de se criar uma continuação do livro. Sim, porque agora Alice tem 17 anos, está prestes a se casar, não quer, foge e acaba caindo novamente no País das Maravilhas, dominado então pela Rainha Vermelha. Tenta ser um novo ritual de passagem, da juventude para a vida adulta dessa vez, mas sem a mesma fórmula (sem trocadilhos) criada por Carroll.

Personagens novos são acrescentados, o braço direito da Rainha Vermelha, a Rainha Branca (?) e um dragão (????). Até imagino os produtores da Disney: “Isso, claro, tem que ter um dragão, vai ficar ótimo, Carroll foi um burro por não colocar um dragão no livro.” Mas claro, o pecado maior é a mudança do estilo dos personagens. Concordo o tempo todo com a Lagarta Azul: “Você não é A é Alice”. E vou além, o Gato não é o Gato e Chapeleiro Louco não é o Chapeleiro Louco, que independente da fantástica caracterização e atuação de Jhonny Depp, foi transformado num personagem tímido, emocional e estampando sofrimento no rosto do começo ao fim.

O melhor personagem é a Rainha Vermelha, o que (talvez) vale a pena. Seu momento com o porco é hilário, sua cabeça mais hilária ainda. Quanto menos personagens ao redor dela, melhor a cena, o que infelizmente acontece pouco. Mas ainda não o suficiente para deixar fora do óbvio a fraca trilha sonora (outro grande pecado) e ritmo fraco, além dos clichês e reviravoltas sem muitas surpresas.

É Tim Burton, você não é um gênio, é um esforçado, e da próxima vez, se esforce mais.

Agora, Tom Ford... Como eu classifico você?

Lembro de Ford sempre por dois motivos, a revitalização a frente da Gucci por dez anos, e a entrevista histórica que ele deu pra revista Out. O cara é um ícone. O cara é foda. Aí ele resolve fazer um filme e eu penso: “Vai dar merda!”. Felizmente, eu estava completamente errado.

Direito de Amar (tradução mais ridícula impossível de A Single Man) é de um primor como poucos filmes são capazes de ser, obviamente, um show (ou luxo?) na parte estética (porra, o filme é do Tom Ford), mas não é um filme que gera frases do tipo “ah, tinha uma fotografia perfeita”, Direito de Amar é sim, um conjunto de obra magnífico.

O filme é puramente imagem. Por momentos, os diálogos se tornam quase desnecessários, mas ao abrir da boca dos personagens, ele se mostram complementares. Os closes, a angulação sempre ideal. Cinema como se fazia antigamente, não essa avacalhação de milhares de cortes e ângulos “ousados”, que na verdade são uma onda desfocada e tremida (tenho nojo de Colateral, aquele com o Tom Cruise, até hoje). E a trilha sonora deliciosa, ocupa lugar de destaque no meu iTunes e duvido que sairá de lá tão cedo, com um carinho especial nas composições de Abel Korzeniowski.

No roteiro despretensioso, o filme é baseado em um romance semiautobiográfico de Christopher Isherwood, polêmico ao ser lançado em 1964. A sinopse percorre um dia de um professor universitário, homossexual, que passa todo o tempo digerindo a morte do companheiro, com quem viveu por 16 anos. É um dia bem longo (pro professor, pra gente é curto), num transbordamento de dores e emoções, em uma narrativa não linear, cheia de flahsbacks, que não importa se o personagem de Colin Firth (atuação brilhante, digna de Oscar) é homossexual, isso é o menos importante, pois o sentimento é universal, e o modo como ele é transmitido além da tela é exato perante essa premissa.

Tudo sempre cercado pela estética de Ford. Em cada detalhe, em cada centímetro de tecido, na escolha da armação do óculos (um detalhe absurdo que faz toda a diferença), na curiosa escolha do nó windsor para a gravata. Ford, acho que é cedo para lhe chamar de gênio, faça mais alguns filmes, por favor.

E eu sei que eu deveria parar por aqui, mas de fato, esse texto não está mais focado em cinema, mas sim em EsforçoXGenialidade.

Tive o prazer de percorrer a mostra Andy Warhol, Mr. America. Foram quase 1h de fila, sol na cara, e ainda ter perdido tempo no prédio errado. Mas ver o trabalho do homem que marcou os anos 60 e foi capaz de democratizar o consumo e ser um dos precursores da massificação da cultura pop valeu muito a pena. Quem estiver em São Paulo DEVE ver essa exposição não importa a profissão, o interesse. O motivo é simples: 1) você vai se ver lá, porque o seu modo de pensar e agir, aliás, o de toda a nossa sociedade, foi em parte formado por esse artista; e 2) os questionamentos de sua arte estão ai até hoje.

Sim, porque olhar as ob ras de Warhol e não se questionar é não sacar parte daquilo que você é. Não é a toa que vem dele a citação: “Ela me perguntou o que eu mais amava. Foi então que eu comecei a pintar dinheiro”. Então, se existem gênios ou não, isso talvez ainda seja uma incógnita, mas a lição que eu tirei dessa exposição é que se eles deixam uma marca, sem dúvida ela é justamente a de nos fazer sempre nos questionar com suas obras, não importa quanto tempo de sua origem tenha passado.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um conto de inverdades

Éramos três grandes amigos. Desde crianças, jovens e agora naquela fase que nunca sabíamos o que realmente éramos ou simplesmente tínhamos medo de admitir o que somos. Sim, pois durante uma grande fase da vida, que só mais tarde perceberemos que foi pequena, nunca sabemos dizer se somos jovens, adultos, se não queremos ser um ou não querermos ser os outros. Enfim, éramos três grandes amigos e no final, isso é o que realmente conta.

E como grandes amigos, estávamos exatamente naquela fase em que grandes amigos não parecem ser tão grandes assim. A última vez que saímos juntos foi há seis meses e eu realmente não tinha muita idéia do que todos estavam fazendo naquele momento. Até o dia que F me liga, e primeiro eu fico surpreso, depois eu fico nervoso. F não tem o costume de me ligar, se assim o fez, era por um motivo drástico. E assim ouvi sua voz do outro lado da linha.

S está com problemas. Aliás, ele está com vários problemas, mas o principal, que resulta nos outros é só um. Ele e B acabaram.”

Pronto, ai estava o motivo drástico.

“Deus, como assim?”

“Sei lá, K. Ciúmes, desgaste, alguma coisa assim. Mas já era, acabou. Só sei que nós iremos sair hoje. Porque ele precisa de nós e vamos tirá-lo dessa fossa.”

E eu desligo confirmando e confuso. S e B eram inseparáveis, se amavam, se idolatravam, se cuidavam. Eram um tipo de exemplo que todos ou 1)se inspiravam para ter um igual, ou 2)invejavam porque nunca teriam um igual. Mas tudo nasce, cresce, morre. Já F não. Era um inveterado boêmio, de noites descontroladas e dias cobertos com cortinas para que pudesse dormir. E no entre os dois, lá estava eu, como um meio termo, num triângulo amoroso em que nenhum era realmente parecido com nenhum.

A noite, F me pegou em casa, eu o cumprimentei e fomos até a casa de S pegá-lo para sair. Ele estava péssimo. Primeiro fizemos a linha “nada está acontecendo”, tudo esta lindo. Mas não demorou muito e F já foi puxando nomes que ele mesmo dissera que não iria pronunciar. Fazia discursos de como S estava preso demais a essa vida de casado, sem ser, de como era jovem ainda, sem ser tão jovem assim, tinha que curtir, beber, jogar, fuder.

E S só balançava a cabeça, e eu só balançava a cabeça se ele balançava.

Vamos para um bar. Bebemos, bebemos e bebemos mais um pouco. E depois caímos na balada. Então percebo que não sou mais um garotinho se descobrindo, que aquilo não é mais pra mim, que eu não deveria mais fazer parte desse mundo. Mas quem se importa? E eu bebo mais, e beijo, e falo o que nem me lembrarei, e beijo mais, já falei que bebi muito?

S começa a se soltar também, tímido no começo, ficando mais leve pro meio, bem soltinho no final. Nem parecia um fudido que acabara um relacionamento de 5 anos, que no nosso mundo queria dizer praticamente cinco décadas. E beija, e se diverte, sempre incentivado por F, seu mentor, seu guia.

F não tinha jeito. Era um caçador, um devorador de pecados, sem nenhuma culpa assimilava para si o que havia de mais luxuria. E ali eu tenho dois extremos se tornando um só. Como se S agora fosse um discípulo de F. Um discípulo da sacanagem, putaria, bebedeira e promiscuidade.

Porém, ali estão os olhos vazios de ambos. S, por estar perdido, tentando se encontrar perante o desmoronar do seu mundo junto a outrem que tanto ainda ama. E F, perdido num labirinto criado por si próprio do qual não conseguia sair, só andar em círculos.

Já amanhecia quando finalmente deixamos S em casa. Que meio bêbado, meio choroso, nos abraçou como uma criança abraça seus pais na hora de uma despedida.

“Obrigado por me salvarem, vocês são os melhores amigos que uma pessoa pode ter.”

F diz.

“Não sofra, pois serão assim as próximas noites da sua vida. Grandes, longas, intensas e vívidas.”

E eu só beijo ambos e concordo. Mas é quando S entra dentro de casa e eu vejo sua silhueta triste fechando a porta, que eu percebo que nada daquilo era verdade, que eu nunca deveria ter concordado com as palavras de F, que eu deveria ter me virado para S e falado.

“Grandes e longas, sim. Intensas e vívivas, nunca. Ela vai lhe causar dor e sofrimento num momento próximo. Nunca adiantará ter se deitado com milhares, se você não tem nada para compartilhar com apenas um. Durma, acorde, tome um bom banho, e vá atrás de B. Porque quando você está ao lado do seu amor, você não precisa de mais nada. Então se for pra se desgastar ao máximo por isso, se desgaste. Procure acima de tudo se encontrar, mesmo que não seja junto daquele que ama, mas acima de tudo, de si mesmo. Porque essa sim, é a opção que eu queria pra mim.”

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Os 10 melhores filmes de 2009 que você NÃO assistiu

Esse definitivamente não foi o ano do cinema. Marcado por superproduções e um marketing excessivo para cada uma, necessário para contornar a crise do setor, a falta de prestígio do cinema como arte chegou ao cinema alternativo também. Até mesmo grandes promessas do “cinema independente/alternativo/cult”, como o novo filme de Pedro Almodóvar, e a produção brasileira Do Começo ao Fim, decepcionaram a crítica especializada e fecharam um ano em que as produções menos conhecidas do cinema tiveram pouca voz.

Ainda assim, o Fala Consciência apresenta a mais aguardada das listas desse blog (pelo menos da pessoa que aqui lhes escreve), os 10 melhores filmes de 2009 que você NÃO assistiu, uma maneira diferente de divulgar filmes fora dos grandes circuitos e pouco conhecidos do grande público. Confira, opine, critique e quem sabe coloque na sua lista de downloads para 2010.

Obs: nem todos os filmes citados foram produzidos e lançados em seus países de origem em 2009, mas a repercussão internacional e principalmente dentro do Brasil, foi esse ano.

10º Lugar: La Belle Personne (A Bela Junie)
O último filme de Christophe Honoré estreou categoricamente no Brasil no começo de 2009. É difícil comparar La Belle Personne aos trabalhos memoráveis do diretor francês de Em Paris e As Canções de Amor, porque La Belle Personne mostra acima de tudo o que aconteceu com os amores de Christophe, eles se tornaram mais jovens ainda, como se a mensagem final fosse: “o amor só se é possível quando somos livres de qualquer designação que transforme nossa vida em adulta”. Na trama, baseada no livro de Madame La Fayette, A moça de 16 anos que dá nome ao filme, interpretada por Léa Seydoux, acaba de chegar a um novo colégio, no meio do ano letivo, depois da morte de sua mãe. Ali rapidamente se enturma com os amigos de seu primo, fica com um deles, e vira objeto de afeição do professor de italiano, Nemours (Louis Garrel). Não se engane também, se o amor só rima com juventude, não quer dizer que ele não possa ser cruel, intenso e impetuoso, resultando em eventos que apenas uma paixão imediata é capaz de causar. Christophe já estava a meio caminho de se tornar uma nova febre do cinema francês, com La Belle Personne, ele chega mais perto ainda.

9ª Lugar: Prayers for Bobby (Orações para Bobby)
Já comentando aqui, o telefilme Prayers for Bobby chamou bastante minha atenção. É um filme bem triste, e que possui todos os defeitos de um telefilme, como o ritmo de novela das 8. Ainda assim ele vale bem mais a pena a partir de sua metade, quando o Bobby em si morre. No filme, filho de uma mulher altamente católica, Bobby não foi só reprimido duramente devido a sua homossexualidade, mas foi convencido pela sua mãe que ser gay era um pecado forte e errado. Mesmo Bobby conseguindo se desapegar da família, não desapegou dessa ideia e se matou. A partir desse momento, sua mãe (uma Sigourney Weaver assustadora), entrega-se a uma dor sem tamanho, e passa a se sentir a única responsável pela morte do filho. É doloroso demais o momento em que ela entra na igreja toda molhada e anuncia ao padre que foi ela quem matou o filho que mais amava. Orações para Bobby pode ser um simples telefilme, mas tem uma essência tão forte que indiscutivelmente o torna um ótimo filme a abordar o real questionamento de ser homossexual, saindo desses filmes de mundo glam e da pegação gay.

8º Lugar: Dead Space (Dead Space: A Queda)
A única animação a entrar para a lista guarda uma série de peculiaridades. A primeira dela é que Dead Space não foi feito por uma produtora de filmes, mas sim pela EA, produtora do game que gerou o filme. Exato, Dead Space é um jogo que fez tanto sucesso, que sua produtora resolveu transformá-lo em filme de animação, um campo que a EA nunca havia se arriscado antes. No filme, para a tripulação do USG Ishimura, o horror começa durante uma missão de mineração espacial em um planeta remoto, exatamente quando eles encontram uma antiga relíquia religiosa - que acreditam ser a prova da existência de Deus. Mas quando o artefato libera uma raça alienígena há muito adormecida, a esperança de ver o Paraíso transforma a nave em um verdadeiro Inferno. Dead Space possui o visual de desenho animado, mas o roteiro de um bom filme B de terror com direito a muita carnificina. Não é nem de longe uma obra prima, mas é uma homenagem muito bem feita aos verdadeiros filmes de terror dos anos 70 e 80. Com muita violência, sangue e tripas, é um filme recomendadíssimo para os fãs do terror misturado a ficção científica.

7º Lugar: Coeurs (Medos Privados em Lugares Públicos)
Poucos filmes são capazes de retratar as pequenas emoções da vida. Pouquíssimos pra ser mais preciso. E quando o assunto se torna retratar as emoções do amor assim como elas são, reais, e não aquela coisa hollywoodiana, a lista de possibilidades diminui drasticamente. Porém, Couers conquista esse posto, com um trabalho nada fácil para representar na tela exatamente isso, as menores decepções amorosas ou sinais de esperança como eventos em grande escala. No filme, uma nevasca sobreposta une as cenas visual e narrativamente, transforma os seis personagens de elementos errantes e desassociados num único complexo coeso, sem marcas de liga. É um filme sobre desiluções, começo e fim do amor, a intimidade da vida de cada um de nós, aquilo que temos medo que qualquer outro descubra. Não é um filme fácil de assistir. Ao primeiro momento pode parecer tranquilo e banal, mas é ao longo de sua narrativa que percebemos de verdade que, sim, a vida é simples, somos nós que adoravelmente a complicamos.

6º Lugar: Død snø (Dead Snow)
Qual a grande dificuldade do cinema atual em fazer filmes com a temática de zumbis? Ser original e ter diferencial aos outros. Vale citar um exemplo aqui da produção hollywoodiana, Zumbilândia, que errou feio e é realmente ruim de dar dó, diferente de Extermínio, que foi responsável por um up não imaginado ao gênero. E no meio termo está o filme norueguês Død snø. O filme conta a história de um grupo de amigos em uma estação de esqui norueguesa que fica isolada pela neve. Lá, eles encontram um velho que conta uma história de horror sobre a ocupação nazista na Segunda Guerra. Ao encontrar um baú cheio de medalhas de oficiais alemãos, eles inadvertidamente erguem um exército de zumbis dos nazistas que morreram ali. Uma palavra para definir Død snø: divertido. E se um filme de zumbis não consegue ser aterrorizante, pelo menos divertido ele seja, mas não uma simples diversão, mas um humor negro, inteligente e com atuações boas. Além de tudo isso, há um elemento aqui raríssimo de se achar nos filmes de terror da atualidade, você torce para que os humanos não morram, você quer realmente que eles vençam os zumbis nazistas, diferentes dos filmes americanos, em que a morte dos adolescentes idiotas que só pensam em usar drogas e transar é sempre aguardadíssima.

5º Lugar: Antarctica (Antártica)
Filmes que abordam os modus operandis dos relacionamentos geralmente são um tiro no pé. O israelense Antarctica consegue se salvar como poucos. Não é um filme perfeito no trabalho da abordagem de seu tema, a começar primeiramente pelas interpretações que são uma droga em sua absoluta maioria, e seu começo, que é realmente longo o suficiente para se tornar desnecessário junto a trama principal, mas ainda assim, sua mensagem salta a tela de uma forma tão óbvia, que Antarctica se torna muito bom exatamente por isso, jogar para o telespectador a pergunta: estará o amor morto ou só estamos procurando nos lugares errados? No filme, em dois dias, Omer completará 30 anos e, como muitos de sua idade, ele ainda não se encontrou. Mas também mal procura. Em vez disso, ele prefere se perder entre as prateleiras de livros da biblioteca onde trabalha. Junto a ele, mais 5 personagens estão no mesmo rumo, alguns sem volta, outros com esperanças e a maioria sem vontade de mudar seus momentos, mas ainda assim a lamentar sobre eles. Um ótimo filme para dar tapa com luva de película e fazer com que nos questionemos sobre as dificuldades dos relacionamentos modernos, além da própria falta de relacionamentos.

4º Lugar: Paranormal Activity (Atividade Paranormal)
Meu 4º lugar nem é um filme não tão assistido assim. Paranormal Activity resultou num fenômeno do terror que poucos filmes são capazes de causar, entre eles o lendário (e horrível, na minha opinião) A Bruxa de Blair, do qual esse bebe de sua fonte sem medo de ser feliz. É um filme que não remete exatamente a cinema, é mero entretenimento. É difícil comprar a idéia de que o filme é real, resultados das gravações insanas de um casal que tem sua casa mal assombrada, mas é impossível não se amarrar nele, pois se tem um tipo de entretenimento que funciona, esse é o entretenimento de terror. Acima de tudo, o que faz Paranormal Activity funcionar é que tudo nesse filme é inesperado, começo, meio e fim. Junte isso a uns ótimos sustos (não recomendo ninguém assistir esse filme a noite, sozinho, como eu fiz) e você tem uma fórmula que dá certo. Enfim, o alarde de “melhor filme de terror da década” não é merecido, mas ainda assim, merece muito ser visto.

3º Lugar: Låt den Rätte Komma In (Deixa ela entrar)
Antes de falar de um dos melhores filmes do ano, eu devo confessar que a série Crepúsculo não é vítima do meu ódio, mas da minha desilusão com a humanidade. Primeiro, por destruir (se duvidar, para sempre) ícones do terror como o vampiro, e segundo, por criar uma onda de alienação nunca vista antes na história da cultura pop. E quando eu não tinha mais esperanças, surgiu Deixa ela entrar. Mais do que um ótimo filme, temos aqui uma metáfora doce e moderna da passagem da infância para a adolescência. Primeiro conhecemos Oskar (Kåre Hedebrant), garoto de 12 anos, cansado de ser saco de pancada na escola. Quem parece um vampiro aqui é ele, mas Oskar é só um garoto normal. Até o dia em que ele conhece Eli (Lina Leandersson), garota que acabou de se mudar para o prédio e que chama atenção pela janela do quarto, tapada com papelão. Como Oskar, Eli não é muito de socializar. E ela também tem 12 anos, só que há muito mais tempo, pois é uma criança vampira. Acabam ficando amigos, e daí surge uma relação de cumplicidade, inocência e um tipo especial de amor que apenas as crianças são capazes de criar. E só porque temos crianças aqui, não significa que o sangue não role. Temos como destaque o pai de Eli, que busca o sangue para a filha de maneira impressionante, sua própria morte, servindo de comida para a filha, a luta de Oskar, a representação poética do fim da infância e um final surpreendente. Num mundo de vampiros purpirinados, Deixa ela entrar nos dá um gás sem tamanho.

2º Lugar: Moon (Lunar)
É difícil fazer ficção científica. E na última década, quando ela aconteceu, sempre foi cercada de muitos efeitos especiais, explosões, guerras inimagináveis dentro da galáxia, como podemos lembrar através do bom remake de Star Trek. Mas entre super produções, um filme se destacou brilhantemente, Moon. Feito com menos de 10 milhões de dólares, Moon parece ter sido produzido com um mega orçamento de 150 milhões. O filme mostra Sam Bell (Rockwell) no fim do seu contrato de trabalho com a Lunar. Ele tem sido um empregado fiel da companhia há três anos, vivendo na base batizada de Selene, enquanto está minerando Helium 3. O precioso gás lunar é a chave para reverter toda a crise de energia da Terra. Isolado, determinado e firme, Sam seguiu as regras obedientemente e sua temporada na lua tem sido leve, mas sem grandes acontecimentos. Seu trabalho é feito de maneira mecânica, o que lhe dá tempo de sobra para ficar sonhando com seu retorno à Terra, para ficar com sua esposa e filha, assim que se aposentar. O problema é que a Lunar não vê o futuro de Bell acontecendo dessa forma, resultando numa trama sinistra e que engana muito bem parecendo algo paranormal a princípio (vide Solaris), mas se mostrando algo friamente calculado (vide Alien). É um filme de referências, com uma trama amarrada, enxuta e um visual impecável. Uma leitura obrigatória para quem é fã do gênero como arte, não como mero entretenimento.

1º Lugar: Le Premier Jour Du Reste De Ta Vie (O Primeiro dia do Resto de Sua Vida)
Existem filmes que quando você conhece, não dá nada, mas quando começa a assistir, deixa ele entrar na sua vida, devagar, te emocionando e transbordando através de no mínimo uma lágrima. E essa é a melhor definição dessa obra prima do cinema canadense, Le Premier Jour Du Reste De Ta Vie. Uma das maiores dificuldades que o cinema sempre vai ter, será o de retratar a família. E quando eu digo retratar família, falo de algo que qualquer expectador poderá se identificar, e esse é o grande feito desse filme. Temos a história da família Durval, o pai taxista e fumante, a mãe que não aceita envelhecer e é melodramática, o filho distante que prefere a solidão, o outro filho fã de rock que não quer trabalhar nem ter responsabilidades, a filha que se mete em todo o tipo de problemas, alguns autodestrutivos. É uma composição básica, o segredo está nas situações e na identificação. É nas brigas, nos jantares, nos beijos, nos abraços, nos olhares, nas lembranças, na celebração da vida e da morte. Quem tem família, ama. Quem tem família, odeia. Mas acima de tudo, Le Premier Jour Du Reste De Ta Vie nos lembra que quem tem família, não precisa de muita coisa além disso.

Feliz 2010, até lá!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

“A felicidade só é verdadeira quando compartilhada”


"O texto a seguir é uma reflexão de ficção. Qualquer semelhança com a reflexão de pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Especialmente para vocês, ex’s... babacas"

A vida é um boy meets girl. A não ser é claro que você tenha criado um novo caminho na sua vida e o seu jogo seja boy meets boy, ou girl meets girl, ou boy meets chicken, enfim, vocês entenderam o sentido da coisa. Contemporaneidade e sensibilidade parecem palavras ultra diferentes quando procuramos seu significado no mundo atual. Mas quando paramos pra analisar as nossas vidas, percebemos que somos isso, uma sensibilidade contemporânea num mundo de garotos que conhecem garotas.

Boy meets girl é o típico filme comédia romântica. Nele, um garoto conhece uma garota, eles tem um caso, onde ambos terão grandes aprendizados e dramas, situações cômicas, e no fim eles, A) ficarão juntos para sempre, ou B) cada um vai seguir o seu caminho. Então por que a vida é um boy meets girl? Porque a vida é assim, você vai encontrar dezenas de pessoas no seu caminho, todas terão algo para lhe acrescentar, mas de fato, algumas das que mais nos marcam, são aquelas que tiram algo de nós e levam com elas.

E no universo particular de cada um, existe um alguém especial, que no fundo não é tão especial assim, que no fundo é a pessoa que a gente nunca quis ter conhecido, que no fundo marca o que alguns amigos meus chamam de Ritual de Passagem. De fato, o ritual de passagem da sensibilidade de cada um (aqui há muitos outros sentimentos, claro, mas vamos tratar no geral da sensibilidade), acontece quando a partir de um evento em comum ao de outro alguém, nós passamos a não ver mais o mundo como era antes desse outrem. Num ritual de passagem, o mundo segue adiante, você não.

E sobre isso o que trata aquele que eu já escolhi como o melhor filme de 2009, a comédia romântica, o típico boy meets girl, a obra que me pegou de surpresa mais do que qualquer outra, 500 Days of Summer (500 Dias com Ela, tradução brasileira de um título intraduzível). No filme, Tom é um criador de cartões comemorativos, que busca algo acima de tudo, o amor de sua vida. Um dia, no escritório ele conhece a bela Summer. E o filme já começa a se tornar genial por mostrar primeiramente que o raro tipo de homem que tem sentimentos nobres por uma mulher, é acima de tudo, não um tímido, mas um covarde. Os dois começam uma incrível relação, mas há um porém: ELA não acredita no amor.

E é assim, que por 500 dias, somos apresentados a um relacionamento que nasce fadado a dor e ao desespero por amarmos e não sermos amados de volta. De forma não linear (que chega até a ser irritante em alguns momentos), mergulhamos em acontecimentos bons, ruins e simplesmente comuns. Hora somos Tom, hora somos Summer. Hora estamos sendo um deles dizendo a monstruosa frase “ainda podemos ser amigos”, escutando The Smiths no elevador, pulando de alegria após uma noite de sexo e fazendo um completo musical no caminho pro trabalho, tentando discutir a relação, não discutindo e rindo ao som de Carla Bruni, tentando discutir a relação, não discutindo e brigando no apartamento, quando conversamos sozinhos, tentando nos enganar na frente do espelho, como ao experimentar a explosão do primeiro beijo daquele por quem já estamos apaixonados e claro, por saber qual vai ser o último.

Talvez um dos melhores pontos de 500 Days of Summer seja quando somos apresentados a divisão da tela em Realidade e Expectativa. Nenhum momento é tão perfeito ao mostrar como somos fracos de mente quando estamos apaixonados e tudo que acontece ao nosso redor nós desejamos que estivesse sendo completamente diferente. Ainda assim, se 500 Days parece um filme banal, é em seu final, num diálogo absurdamente sincero e doloroso entre Tom e Summer que entendemos uma visão absolutamente honesta, ainda que um tanto tragicômica, do amor, além de alguma forma renovar esse sentimento por acreditarmos: “uau, agora tudo faz sentido”.

Sim, porque acima de tudo, após um Ritual de Passagem, nós devemos saber qual é o momento de voltar a caminhar com o mundo. Mesmo tendo aqueles que acham o amor uma utopia. Mas o amor não é uma utopia, viver na natureza selvagem que é.

Se 500 Days of Summer é capaz de nos mostrar perfeitamente o difícil rumo que a vida às vezes nos dá, Na Natureza Selvagem é o filme que mostra a utopia do rumo que queremos dar a nossa vida. Mais que um incrível filme, Na Natureza Selvagem toca a sua alma com a ponta de uma faca e a faz sangrar. Se você não sentir isso, então é porque você matou há muito tempo o que há de mais simples dentro de você.

É um filme revelador, com uma força pós-utópica que nos faz malditamente compartilhar uma empatia com o personagem principal. Afinal, você nunca pensou em abandonar tudo e viver uma vida sobre a liberdade total, a partir do zero? Em Na Natureza Selvagem os elementos da liberdade, sociedade, natureza, verdade, sentimento, moral, solidão, e este mix de tudo estão o tempo todo sendo jogados na nossa cara de uma forma sublime e dolorosa. É uma reflexão no abismo de uma utopia pós-hippie, que nem a galera de Woodstock acredita mais.

Temos a história de Chris, que depois de sua formatura aos 22 anos, doa sua poupança, abandona sua família, seu carro, destrói sua identidade, seus cartões de crédito, queima o que lhe sobra de dinheiro e parte em busca daquilo que considera sua liberdade aquém de qualquer elemento da sociedade. Sem dinheiro, viaja por dois anos pelos lugares mais belos e inóspitos dos EUA e México, trabalha daqui e dali, conhece pessoas que se afeiçoam a ele, e parte para um plano audacioso: ir para o Alaska onde pretende viver em meio à natureza por sua conta e risco.

Não estou falando de um atletazinho babaca que aparece no Fantástico e no Domingo Espetacular, desses que se preparam fisicamente por anos, ficam cercados de água e energéticos, que só escala uma montanha guiado por GPS e está sempre com um óculos escuro da Nike. Estou falando de... ah, não é fácil dizer de quem estou falando, nunca conheci o Chris de verdade (o filme é baseado numa história real), e Deus sabe que depois desse filme eu gostaria de ter conhecido.

E não nos resumimos a diálogos, nos resumimos a imagens, a expressões. Temos momentos, como a invasão da enchente no carro, os pulos junto aos cavalos selvagens ao pôr do sol (cena esteticamente perfeita), os dias de verão no Ônibus Mágico, a decida pelas corredeiras, o momento em que ele enterra os livros de seus pensadores favoritos e o encontro com o urso, que desfocado e sem som é de longe o momento que mais representa que Chris agora faz parte da natureza, mesmo a vista de um final não trágico como muitos podem imaginar, mas libertador.

Mas definitivamente o momento mais maldito na cabeça de quem assiste esse filme é quando Chris conhece o velho Ron, um homem muito solitário e recluso que vê em Chris não a pessoa que ele gostaria de ter sido, mas o filho que ele queria ter amado. Num diálogo assombroso de tão emocionante, Ron fala com lágrimas nos olhos: “Sabe, eu tenho uma idéia. Minha mãe era filha única, meu pai também, e eu fui o único filho deles, por isso, quando eu me for, serei o fim da minha linhagem. A minha família acabará. Que tal... deixar te adotar?”, a ponto que Chris responde tentando segurar a emoção: “Ron, podemos falar sobre isso quando eu regressar do Alasca?”. Ambos concordam, mas é difícil segurar a dor, porque ambos sabem, e nós sabemos também naquele momento, que eles nunca mais irão se ver.

Na Natureza Selvagem é um filme difícil de ser assistido. Principalmente num mundo que nos ensina que o correto é estudar, trabalhar em empregos que às vezes odiamos, ter um mês de férias para gastar o que nem temos, trabalhar de novo, pagar contas e seguir o sistema. É difícil acompanhar a utopia de Chris, mas é fácil compartilhar sua lição, uma lição única de alguém que realmente quis a liberdade, conquistou, e no fim descobriu que o melhor dessa liberdade, é que ela seja compartilhada.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Em que momento a humanidade desligou a sua fé?

E o Rio de Janeiro foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016. Grande coisa...
Copa 2014, Rio 2016... só esqueceram que o fim do mundo é em 2012

Recentemente terminei de ler um dos livros que mais mexeram meu modo de ver a vida, o universo e tudo mais, O Mundo Sem Nós, de Alan Weisman. É difícil falar de O Mundo Sem Nós, mas sem dúvida a sombra dessa obra irá me assombrar pelo resto da minha vida. O motivo é simples: você já parou para pensar sobre o mundo sem nós? Dificilmente. Mas Alan pensou e o resultado, bem... o resultado é que o ser humano é a pior coisa que surgiu na história desse pequeno planeta azul nos confins do universo.

Em 150 anos fomos capazes de realizar estragos tão grandes no nosso planeta que de alguns eles não será capaz de se recuperar nunca. Existe em Houston, debaixo de uma montanha, um depósito de materiais radioativos extremamente perigoso. Tão perigoso, que definitivamente ele ainda estará lá intacto depois que o último humano se for, por causa disso, doutores em semiótica foram convocados pelo governo dos EUA para criar mensagens que seriam gravadas a ponto de que não importa o período, pelos próximos 10 milhões de anos ao menos, quem se aproximar daquele local vai saber instintivamente que ali não deve ficar.

A humanidade não deu certo e não tente me convencer do contrário. Exterminamos todas os grandes mamíferos da América, acabamos com os recifes de corais, destruímos a camada de ozônio, enriquecemos o solo com chumbo, fizemos testes atômicos com urânio, e esquecemos o quanto somos frágeis. Esquecemos que sem a Terra não podemos sobreviver, mas que sem os seres humanos, a Terra ficaria bem melhor. Num mundo sem humanos, assim, do nada, os metros de Nova York inundariam completamente em dois dias, as usinas nucleares explodiriam em 7 (comprometendo todas as outras formas de vida), o teto da sua casa sumiria em menos de 10 anos, 1 bilhão de pássaros deixariam de morrer por ano por causa de nossas torres de energia elétrica, e em cerca de 40 anos, qualquer prédio com mais de 40 andares já vai ter tombado.

Ainda assim, o gás carbônico demorará 100 mil anos pra voltar a níveis pré-humanos, o cadmium demorará 75 mil anos para sumir, o plástico (nossa mais imortal invenção) existirá pelos próximos 100 milhões de anos, e cada bomba de plutônio não explodida, demorará 250 mil anos para perder seu poder radioativo, lembremos então que existem cerca de 30 mil ogivas nucleares intactas no mundo e sinta o poder da nossa criação.

Minha avó tá lendo um daqueles livros evangélicos caducos que diz que o mal venceu o bem com fome, guerra, Mac Donalds delivery, essas coisas. E se o nosso prazo estiver realmente na reta final? 2012 tá ai pra mostrar isso. Os maias tentaram nos alertar, será que eles estão certos? Os pólos vão se inverter e “Deus proteja a América”? E se Deus não existir? Bem, depois de O Mundo Sem Nós, o novo livro na minha lista é Deus, um Delírio. Cara, eu mesmo estou fudendo com a minha mente, depois desses livros eu não vou poder nem colocar a culpa em ninguém.
Ele está no meio de nós?

Meu professor de antropologia na 8ª série disse: “Se Deus fez vários planetas igual a Terra espalhados pelo universo, ele é um gênio, mas se ele fez só a Terra, ele é um gênio maior ainda”. Meu sonho é entender o que ele quis dizer com isso. Um dia, se nos reencontrarmos, vou perguntar. Mas ai também vem Calvin e diz que: “A maior prova de haver vida inteligente lá fora é de que eles não entram em contato conosco”. Qual Calvin? Calvin e Haroldo, claro! O eterno garoto propaganda desse blog.

O último livro da coleção de Calvin e Haroldo foi lançado no Brasil recentemente e eu não perdi tempo e comprei quase na estréia aproveitando minha última viagem pra Curitiba. A Hora da Vingança é de longe a melhor coletânea da série, conseguindo derrubar até mesmo O Mundo é Mágico. Taí, o mundo pode ter virado essa droga que transformamos, mas existem algumas coisas tão especificamente belas e poéticas que nos dão um pouco de fé e esperança. Ler as tirinhas desse muleque hiperativo e seu tigre de estimação são um exemplo, pelo menos pra mim.

Vocês podem tentar argumentar comigo de que o mundo esta evoluindo e blá blá blá, que países como a Dinamarca, um dos mais avançados do mundo, abolem aos poucos o carro e usam a bicicleta. Dinamarca? Ah, a mesma Dinamarca onde nas ilhas Faroe jovens, para provar que são homens, matam golfinhos num ritual de passagem? Sim, golfinhos, uma raça inteligente que só se aproxima dos homens para brincar ou proteger os filhotes.
Macho que é macho mata golfinho com requintes de crueldade. Chupa essa, PETA!

Se a fé move montanhas, onde ela está dentro dos seres humanos? Onde está a sua fé? A fé para mim é um sentimento independente de religião, a fé compõe o caráter e a nobreza de cada um, ela não é um telefone, MSN ou Skype pra você se conectar com Jesus, Alá ou Buda, ele é um sentimento que faz você se conectar com o mundo, então, quando a humanidade perdeu o poder de se comunicar com seu lar?

Bem, independente disso, O Mundo Sem Nós está me estimulando a tomar uma importante decisão, a de participar do VHEMT (Movimento Voluntário para a Extinção da Humanidade). O VHEMT defende que devemos viver nossas vidas plenos, felizes, consumindo, gastando, se divertindo e fazendo o máximo possível para sermos felizes, só devemos parar de nos reproduzir. Parece lógico! Veja por esse lado, se todos aderissem, em 21 anos, a criminalidade juvenil seria um problema erradicado do mundo e a adoção cresceria absurdamente. Não vou terminar com: “venha para essa você também”, afinal, o “cresceis e multiplicai-vos” ainda é seguido a risca por uma galera.

Meu pedido é simples: você poderia ligar sua fé para se comunicar com o mundo de novo? Pois como disse Pietro Aretino, "Amemo-nos sem termo nem medida, pois que só para o amor temos nascido".

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A maioria dos músicos não são iguais a vinho

Geralmente as melhores festas na minha vida são automaticamente classificadas como as piores também. Explico: é que sempre que eu vou numa festa boa e eu estou me divertindo acontece alguma merda. Foi assim na minha formatura do terceiro ano por exemplo. O Flávio ficou tão bêbado, mas tão bêbado, que ele não se aguentava em pé, vomitava nos sapatos Arezzo das meninas e gritava: “Todo mundo nu!”. Não deu outra, sobrou pra mim cuidar dele no auge da festa, da diversão e tudo mais. Nunca vou esquecer desse dia. Eu acordei na manhã seguinte com o Flávio na minha escrivaninha lendo meus textos e dizendo: “O que aconteceu ontem mesmo?”.

Sim, ele não tinha ressaca. Não, ele não se lembrava de nada. Sim, eu quis matá-lo. Não, ele não sabe quanto dinheiro tinha a menos na carteira dele e quanto tinha a mais na minha.

Anos se passaram desde esse incidente e algo parecido se repetiu esse ano. Eu estava no iate clube de Florianópolis tentando me consolar pela perda do show de David Guetta (fã é uma coisa, doido que paga R$200 por um show é outra). E lá estava rolando o show da dupla espanhola Chus & Ceballos na lendária festa E-Joy. Primeiro que o iate clube de floripa é um lugar realmente incrível para uma festa, segundo que a E-Joy é realmente lendária. A vontade que eu tive no dia seguinte era de pregar um adesivo no carro: “Eu fui na E-Joy e sobrevivi”. Festa fantástica, muita gente, turistas de todas as regiões e nativos curtindo o som. E eu lá chegando no auge... tenho que sair porque as companhias queriam. Pra piorar, o taxista que pegamos era um tiozinho tarado que estava vendo o DVD da Gretchen e tipo... não era um show.

A apresentação de Chus & Ceballos foi muito boa. O público reagiu bem, eles tentavam se superar e se situar. Não foram de muito sucesso em alguns momentos, mas eles pegaram realmente o espírito da coisa. O som dos espanhóis é uma coisa bem mista, eles tem um lado latino óbvio misturado a uma coisa mais tech house, ora mais tribal, ora mais progressivo, um som bem diferente daquilo que a maioria está acostumado mas que é capaz de fazer o sangue ferver. Não decepcionou, mas também não surpreendeu.

O cenário musical eletrônico anda assim. Mantém um ritmo, mas não é inovador. Grandes DJ’s não estão mais se destacando no meio. O que surge são pequenas obras primas, em cada lado do globo, e que se difundem não pelas festas ou pelos shows, mas pela internet e pelo boca a boca. Um ótimo exemplo disso foi o que aconteceu com o bizarro e divertido som francês do Yelle, que no ano passado alcançou o topo nas baladas mais descoladas, mas eu lembro de uma entrevista da vocalista dizendo que não tinha dinheiro ainda pra se mudar definitivamente pra Paris, morando no interior. Eu também poderia trabalhar com os exemplos de Hercules and Love affair ou do ótimo som indie/eletrônico do Matt and Kim que se apresentaram recentemente no Brasil, mas eu quero falar do grande, porém pequeno, cenário da musica eletrônica brasileira.

É isso ai meus amigos. Eu fico com uma felicidade quase idiota quando digo isso: o Brasil está apresentando uma ótima cena eletrônica. Dá até vontade de dizer que esse país agora anda pra frente e finalmente se tornou o país do futuro tão falado desde 1950. Mas ai é demais, né minha gente? O principal responsável por esse feito é o paranense Péricles Martins, percussor do Boss in Drama.

Falar do Boss in Drama é difícil. Mas ouvir é de um prazer indiscutível. A primeira música do MySpace do rapaz já é contagiante por si só. Favorite Song não lembra nada do que é produzido no Brasil, nada mesmo, aliás, eu não tenho referência nem nos EUA, o mais próximo que eu posso dizer que se compara é o inglês Erol Alkan. Mas é um som muito animado. A palavra para definir Boss in Drama é: atrevimento. Pode parecer bobagem, mas na musica eletrônica isso significa muito.

O som é energético, extrapola os limites e as fronteiras de estilo e vai se tornando uma mistureba generalizada de elementos. Nós temos uma completa overdose entre o pop, o eletro, o rock, dance, house, hip hop, funk (Jesus, tem um funk chamado Contaminada dele que é horrível, mas eu relevei). A ousadia está aí. Não ser fiel a porra nenhuma, somente a diversão. É misturar hits autorais com os de outros músicos, é fazer a musica durar apenas dois goles, não alongar, não prolongar, mas nunca parar.

Nessa onda Boss in Drama também se encontra o bacana duo brazuca Database, pequeno sucesso nas pistas do sul e sudeste do Brasil, que dificilmente você vai ouvir um dia na Globo, mas que encontra largamente em blogs, revistas de públicos restritos, MySpace's da vida. O duo tem um som muito pop também, mas menos rítmico e barulhento que o Boss, e ainda assim mainstream ao limite. Guarde esse nome, os meninos do Boss in Drama e do Database ainda vão fazer um barulho legal nos seus ouvidos.

Mudando de pau pra cacete. Eu posso dizer que uma das melhores coisas musicais que eu conheci esse ano foi o The Last Shadow Puppets. Ok, o álbum The Age Of The Understatement foi lançado no ano passado, mas eu só ouvi falar dele esse ano. Shadow Puppets não é uma banda, é um projeto paralelo na vida de Alex Turner (vocalista do Arctic Monkeys) e Miles Kane (atual Rascals). Aliás, fica muito difícil considerar as doze faixas do álbum como um trabalho paralelo, é menosprezá-los, é diminuir uma realização sonora fantástica, incrível, vívida e que representa tudo aquilo que uma geração de jovens quer ouvir de verdade, um revival de tudo que tivemos de melhor no passado, com o toque do que temos de bom hoje e com a juventude gritante de Alex e Miles.

Você escuta The Last Shadow Puppets e acha que mergulhou de volta nos anos 60, mesmo com as letras um tanto melancólicas e trabalhando o cotidiano. Deus, a canção Standing Next to Me parece que foi composta pelos Beatles, é a melhor do álbum, junto com a ótima faixa título The Age Of The Understatement e My Mistakes Were Made For You, num casamento de vozes tão perfeito que assusta. Um ponto interessante é que esse é um trabalho que Alex Turner só poderia ter desenvolvido após o sucesso com o Arctic Monkeys, a banda que deu o sangue que a mídia inglesa tanto deseja, mas que hoje se encontra tão “diferente” de como começou.

Ao ouvir Humbug, novo álbum do A&M, me perguntei onde estava aquele som muleke que tanto me atraiu no primeiro. Definitivamente algo não estava certo. É bom? É! No geral Humbug é bom sim, mas eu me senti até assustado, era algo que eu não estava esperando vindo de Alex e sua turminha. Talvez isso represente um novo ciclo pro Arctic Monkeys, uma renovação do seu sangue, não sei, ainda não consigo deduzir. Mas eles estão tentando inovar, isso é fato, não é quem nem a maioria dos músicos que tem medo disso e mantem apenas a fórmula do habitual. Todo esforço de mudança deve no fim ser reconhecido e válido, independente da música eletrônica ou do indie.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Dois anos de discussões entre minha consciência e eu

Tem horas que eu sou eles, tem horas que eles são eu!

Eu geralmente não gosto de falar de aniversários, mas eu ando perdendo esse problema aos poucos. E mesmo porque, algo que eu gosto muito completou dois anos de existência. Meu querido blog, minha querida consciência.

E ai neguinho se pergunta: "grande coisa, o que eu vou ganhar com isso?”
05/09/2008

O Fala Consciência não nasceu temático.

Começa falando de nada e termina com porra nenhuma.
10/08/2007

E aos poucos se tornou meu xodozinho, meu cantinho mais que pessoal, parte de mim. É estranho você dizer que ama o seu blog, mas quem é que atualiza frequentemente o seu e não o ama?

É, se relacionamentos já são complicados, relacionamentos modernos são mais difíceis ainda.
05/02/2009

Eu tive grandes momentos com ele.

Foi um relacionamento de altos e baixos, vivemos momentos felizes juntos, o sexo era até bom
11/05/2009


De fato, o Fala Consciência também serviu para eu ir além. Eu expandi meu modo de pensar, minhas relações, conheci pessoas, pessoas me conheceram. Essa pequena página virtual no meio de milhões no mundo inteiro pode até ser minha morada, mas sempre acolherá bem seus visitantes.

A questão é que todos ali são seres humanos, cada um com suas vidas, com seus problemas pessoais, com suas famílias para criar, com seus corações para lidar, com suas felicidades, vitórias, princípios e medos.
01/05/2009

E eu acho que foi por causa de vocês, é, você mesmo leitor, que esse blog acabou ganhando uma forma indefinida.

Tem um amontoado de idéias, um amontoado de realizações e um amontoado de resultados, diferentes, únicos, iguais, eficientes e inúteis.
30/10/2007

Mas tudo tem que ter um limite.

Entre parar pra pensar no sentido da vida, do universo e tudo mais, ou viver feliz, eu escolhi viver feliz.
09/06/2009

Esse pequeno espaço viveu alguns dias de glória, hoje já não é bem assim. As coisas mudam, o dia a dia muda, as pessoas mudam e velhos hábitos acabam deixando de existir.

Hoje eu quase não deito no sofá da minha casa, aliás, eu não lembro qual foi a última vez que eu parei pra deitar no sofá e assistir TV.
16/10/2008

Mas isso não me desanima com esse lugar, nem de longe.

De fato, isso não faz meu estilo. Se prender ao passado culturalmente.
08/12/2008

Aliás, eu mesmo já tive diversas crises.

Se ver no espelho e ter uma crise por se achar um tribufú já não é fácil. Ter uma crise por se ver no espelho e se achar coloquial é pior ainda.
25/06/2008

E como todo mundo, faço minhas besteiras, ou, como todo mundo também, faço besteiras maiores ainda.

Porque às vezes fazemos questão de matar o amor. Porque geralmente matamos o amor quando ele menos merece ser morto e você se torna um filho da puta a lamentar isso pro resto da sua vida.
23/07/2008

E há mudanças, claro. Porque, inevitavelmente, tudo muda.

Não que eu esteja deixando de estudar, ler ou me informar das coisas. Pelo contrário. Mas ultimamente eu estou sentindo que meu senso crítico não é mais a mesma coisa.
24/09/2007

Mas não a crise que me tire daqui.

Ei, espera ai, "enjoei de internet", eu disse isso? Alguém vem aqui e me dê um tiro. Eu quero ser jornalista, escritor, cineasta, músico alternativo (hum... pensando bem, essa eu pulo), crítico chato de tudo que aparece de novo, então, ei!, eu não posso enjoar de internet. É mais que uma diversão, no meu caso, é necessidade.
10/10/2007

E embora eu nunca deixe de criticar a humanidade, eu também não deixarei de admirá-la.

Bem, a humanidade pode ate não ter dado certo realmente, mas que realizou obras fantásticas, algumas que de tão ruins soam ate boas, ah se realizou.
21/04/2008

E sim, hoje é um dia de comemorar.

Vamos beber cerveja, que o efeito é quase o mesmo.
17/12/2007

Esse texto é dedicado a você, que acima de tudo, me ajudou a manter esse blog por dois anos.

Obrigado!
07/07/2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Eu odeio começar uma obra e não saber como terminar

1.0

O ônibus da Ufac às 18h30 é lotado. Completamente lotado. Geralmente depois da metade do percurso ninguém mais consegue subir e ninguém desce. As pessoas lá só vão pra Ufac. Elas não vão descer na metade do caminho. Então o ônibus fica lotado. E ninguém mais entra.

Ainda assim o ônibus vai num silencio mórbido. Ninguém conversa, ninguém troca olhares. Eu olho todo mundo. Mas ninguém me vê, porque ninguém me olha, ninguém repara em mim, e ninguém repara em ninguém. Até o dia em que eu olhei praquela garota e surpresa, aquela garota olhava pra mim.

1.1

Eu estou deitado no colo daquela garota. Ela afaga meus cabelos e me canta musicas dos Los Hermanos. Ela adora as musicas dos Los Hermanos, ela ama, diz que o Marcelo Camelo é o poeta de toda uma geração. Eu odeio. Aliás, eu nem ligo. Eu gosto de escutar Arctic and Monkeys no meu ipod. Ela não tem ipod. Aquela garota de saias de renda canta Los Hermanos pra mim enquanto eu estou no colo dela. Eu odeio Los Hermanos. Mas eu gosto daquela garota. E a voz dela é tão gostosa.

Faz um calor danado na Ufac. É começo de maio. E debaixo de uma árvore eu estou no colo daquela garota. É sábado de manhã. Um ônibus passa por nós. Ele está vazio. Nenhum ônibus circula cheio na Ufac sábado de manhã. Só o primeiro. Aquela garota massageia meus cabelos. Ela olha pra mim e sorri. Ela canta baixinho “deixa eu brincar de ser feliz”. É uma frase bonita. Mas em seguida vem “todo carnaval tem seu fim” e eu sinto uma tristeza tão grande dentro de mim.

1.2

Aquela garota anda na minha frente. Nem de perto, nem de longe. Ela está numa distancia fixa. Vinte minutos atrás ela tinha dito “eu não sou capaz de te amar”. Quinze minutos atrás começou a chover desesperadamente. Dez minutos atrás ela começou a caminhar debaixo de chuva. Nove minutos atrás eu tentei abrir meu guarda chuva, mas ele quebrou, porque eu tentando limpar meus óculos sujos na frente de respingos d’água e atrás das minhas lágrimas acabei abrindo o guarda chuva errado. Oito minutos atrás eu estava começando a andar rápido para alcançar aquela garota, mas quando eu a alcanço, eu diminuo passo. Quatro minutos atrás eu estou completamente encharcado e minha cueca molhada incomoda porque começa entrar dentro da bunda. Dois minutos atrás aquela garota para de andar, eu paro junto, ela olha pra mim e diz:

“Eu estou indo embora e você nunca mais vai me ver”.

Um minuto atrás aquela garota foi embora. E eu nunca mais a vi. Zero minutos atrás, eu estou parado, chuva caindo, e a cueca não me incomoda mais. Meus óculos estão molhados por dentro e por fora.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Se você acha que a Terra é um planeta sem esperança, nem queira conhecer o resto da galáxia então...

“Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável...”

“...Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.”


Entre parar pra pensar no sentido da vida, do universo e tudo mais, ou viver feliz, eu escolhi viver feliz. E quando eu penso que essa escolha pode ter sido a errada, é só eu parar um segundo pra pensar no sentido da vida, o universo e tudo mais pra perceber claramente que eu fiz a melhor escolha possível.

Atualmente eu estou lendo a trilogia de 4 livros de Douglas Adams. E esqueçam Star Wars, pois O Guia do Mochileiro das Galáxias é a melhor obra de ficção científica desse planeta. E também a mais nonsense/bizarra/porra-louca/que-diabo-é-isso? da história. No primeiro capítulo do primeiro volume temos a destruição total da Terra. Por quê? Simples, nosso planeta é um pequeno obstáculo na construção de uma estrada espacial. Tivemos 50 anos pra fazer reclamações no escritório público mais próximo, que fica em Alfa de Centauro, o problema é que não vamos lá com muita frequência. Sendo assim, após trinta segundos de pânico, a frota dos alienígenas Vogons (a raça mais terrível do universo não por serem perigosos, mas burocráticos demais) destrói o planeta. Simples assim!

Arthur Dent é o único que escapa com vida, pois seu amigo alienígena (que ele não sabia ser alienígena até 12 minutos antes da demolição) o tira do planeta. E após uma improbabilidade bizarra que pode ser explicada cientificamente através do Gerador de Improbabilidade da nave Coração de Ouro, passam a viver algumas aventuras juntos com Zaphod, Trilian e o robô maníaco-depressivo-suicida Marvin.
"Vida?! Não fale comigo sobre a vida"

Porém, o livro tem uma tirada bastante interessante. A resposta da questão fundamental da vida, o universo e tudo mais. Um computador mega fodástico (e arrogante pra caralho) após alguns milhões de anos de calculo, disse que a resposta a essa questão é... 42. Sim, os criadores do computador ficaram tão putos com essa resposta quanto você leitor. O computador informou que o problema não era a resposta, mas a pergunta, que eles não sabiam, e que não era possível de se descobrir pelo computador, então a busca da questão fundamental da vida, o universo e tudo mais se torna o foco, porque a resposta nós já temos.

O primeiro volume da série é de longe um dos livros mais incríveis que eu já li, uma crítica forte a nossa sociedade e ao nosso planeta com suas guerras sem sentindo, seus preconceitos e estupidez. Nem o livro de Piadas do Costinha me fez chorar de rir, mas o do Douglas Adams sim. Porém, após uma alta expectativa depois de ler O Guia, o segundo volume, O Restaurante no Fim do Universo, me soou deveras decepcionante. Chorei de rir? Chorei! É bom? E ái daquele que falar algo contra! Mas pareceu sem o ritmo bizarro inflamado pelo primeiro. Sem falar numa questão que me encheu o saco em particular: a banalização da viagem no tempo.

Gente, como é que o James Cameron consegue dormir a noite? Se todo mundo no nosso planeta acha que viajar no tempo resolve todos os problemas da nossa vida (e da Skynet também, a maquina de inteligência artificial mais burra do mundo), a culpa é do James Cameron. O Exterminador do Futuro é a série de ficção científica mais sem sentido da história. Terminator 1 e 2 são tão bons, mais tão bons, que a gente nem consegue questionar os defeitos mega-hiper-powers dos roteiros, mas o 3 e 4 são tão bomba, junto com aquela série bizarra da Sarah Connor que aí a gente percebe como tudo é uma viagem em LSD sem volta.

Exterminador 1: O Kyle Reese veio do futuro pra salvar a Sarah Connor porque ela vai ser a mãe do John Connor, o todo fuderoso da resistência, só que aí, o Kyle pega a Sarah e quem nasce dessa pegada com força? Jhon Connor. Heim? Como assim, Bial? O pai do Jhon Connor é mais novo que ele minha gente e nasceu depois dele. Stephen Hawkey, explica o que isso significa:

"Vocês tiraram toda essa bizarrice histórica de onde? Do vácuo? De um buraco negro?"

Exterminador 2: O pau no cu do Kyle disse que a resistência estava vencendo a guerra, então porque mandaram mais dois Exterminadores mesmo? Ah, eu não consigo falar mal desse filme mesmo querendo. Tem algumas das melhores cenas de ação ever e a personagem feminina mais incrível do cinema, a Sarah Connor sarada, louca e gostosa me deu mais pesadelos que o T1000.

Exterminador 3: James Cameron deve ter dito, “Galera, eu não sei mais o que fazer com esse filme, não dá, não tem roteiro”, mas eles fizeram. Os produtores pensaram: “Vamos colocar uma loira gostosa com cara de suíça e vai dar certo do mesmo jeito”. O John Connor é um viadinho chatinho e não aquele adolescente doidaço envolvido com drogas e venda ilegal de armas que ele deveria ser. O filme só serviu pra ensinar de uma vez que o passado não pode ser mudado pra mudar o futuro. O problema é a que a burra da Skynet ainda não percebeu isso depois de 3 filmes e uma leva de Exterminadores top de linha esbagaçados.

Exterminador 4: É tão ruim que eu tenho que ir por tópicos. A) Por que as máquinas aprisionam humanos? Sadismo? Fetiche sexual? Cadê o conceito de auto-suficiência, minha gente? B) Por que tudo na filial do Norte da Skynet (sim, porque ela se mostrou uma multinacional na verdade, com várias sedes) parece ter sido construído pra seres humanos manusearem facilmente? C) A gente não sente nem cheiro de viagem no tempo o filme inteiro. Mas o Kyle maldito (perceba meu ódio perante esse personagem) ta lá, adolescente e mais novo que o próprio filho. E por último D) O Arnold Schwarzenegger foi feito do mesmo material que o Huck do primeiro filme.
"Pede pra sair, pede pra sair... Tu não é caveira!"

A série O Exterminador do Futuro já tá tão sem noção, que perdeu a graça. Sem falar que uma das poucas lógicas dela é: se tivessem matado o John Connor no primeiro filme, a humanidade estaria salva.

Viajar no tempo é a solução dos seus problemas. A banalização da viagem no tempo também passou para o novo filme da série Jornada nas Estrelas, de novo com esse papo de salvar alguém que está sendo ameaçado. Me admira que o George Lucas não tenha usado essa idéia ainda, porque o cara que produz barulho no vácuo deveria ter usado viagem no tempo até pra cortar as unhas dos seus personagens. Graças a Deus, tirando a ideia de fazer Episódio I, II e III, ele não pensou nisso também.

A melhor proposta na cultura pop a falar de viagens no tempo é a quinta temporada de Lost. Quem acompanha a série e já terminou a última temporada deve ter pensando como eu: “Agora fudeu de vez!”. Mais louca, insana e bizarra que todas as outras temporadas juntas, os perdidos de Lost viajaram no tempo e passaram uns dias brincando de casinha com a Iniciativa Dharma. Para a nossa sorte, existe um físico no grupinho, e ele diz que: não é possível mudar o futuro alterando o passado. Para provar mais ainda essa teoria, o próprio físico começa a achar o contrário, tenta mudar o futuro e péi, morre, sendo que sua morte já era sabida pelo pessoal que está no futuro. Ou seja, o passado é inalterável. Segue uma lógica simples: se você viaja no passado pra matar o seu avô, por consequência você não nasce, e se você não nasce você não pode viajar no tempo pra matar o seu avô. Sacou ou pede ajuda pro Stephen Hawking?

Bem, a 6ª e última temporada de Lost vem aí para o delírio dos fãs, e mais dois Exterminadores do Futuro estão em produção, para o desespero dos fãs. Podemos esperar mais banalização da viagem no tempo, até um dia chegarmos ao ponto de Douglas Adams em sua trilogia de 4 livros: “O maior problema da viagem no tempo não é o perigo de você se tornar o seu próprio pai, famílias modernas podem lidar facilmente com isso, mas a conjugação verbal, porque você descobre que o Pretérito Perfeito não é tão perfeito assim”.